segunda-feira, 6 de abril de 2015

Violeta Velha e outras flores





Acabei de ler o livro de contos do Matheus Arcaro, “Violeta Velha e outras flores”, que saiu recentemente pela editora Patuá. É o seu livro de estreia, mas é bom que pensemos nos perigos que rondam essa palavra, se a tratamos como uma classificação cristalizada demais. É o primeiro livro, sim, mas certamente não é o primeiro passo da caminhada do autor, o que uma leitura atenta faz perceber de forma mais ampla.
Separo três méritos da obra que no meu entendimento merecem citação. O primeiro deles é o diálogo que aparece com outras obras, como as de Faulkner e Dante, dentre outros – índice de que não estamos diante de um trabalho umbigolítico, voltado para si mesmo e seus caprichos; o segundo está no fato do livro ser claramente uma experiência de contato entre arte e filosofia – campo de formação do autor –, ou seja, em outras palavras, um livro pensado, uma obra pensante – que nisso põe em cena a fragilidade cada vez maior das fronteiras que separam esses dois oceanos (o da arte e o da filosofia); e o terceiro aparece na forma como a riqueza de detalhes da narrativa do Matheus contribui para ilustrar a complexidade contemporânea pela qual atravessa a palavra personagem, uma das mais importantes para quem gosta de pensar a literatura e seus poros. Como não quero escrever nada muito longo, fico neste terceiro ponto, reiterando o mérito dos dois primeiros.
A história da palavra personagem é muito curiosa e rica. Ela deriva de uma linhagem de palavras que tentava dar conta, nos antigamentes, do papel das pessoas nas peças de teatro: o etrusco “phersu” (máscara teatral), o latim “persona” e os gregos “prosopon” (face, máscara) e “persona” (que era o nome do orifício que fazia o papel de boca nas máscaras de teatro, por onde “per-sonavam” as vozes dos atores). Ao que parece, aliás, personagem tem a mesma raiz da palavra pessoa, o que justifica a quantidade de ramificações e possibilidades que se embrenham pela estrada do termo. Desempenhamos papeis nas peças, mas também na vida, e as peças, assim como tudo o mais, também desempenham papeis na peça que somos.
Interessou-me bastante essa relação da palavra personagem com o som – que é um dos protagonistas de um dos contos do livro, “Fúria sem som”, diálogo do autor com o clássico “O som e a fúria”, de Faulkner. O tom e o ritmo da voz ajudam a criar identidade para a “máscara” – portanto para a “face” – de um personagem. O que significa que personagens não são só as pessoas, mas também as coisas, que nessa perspectiva ganham o status de orquestra significante, sem que isso signifique necessariamente um conjunto de partituras previamente estabelecidas – na arte muito pelo contrário. E então surge a pergunta, no meio do conto: “Como a gente mede a serventia de uma coisa?” (p. 30) Num conto, imagino eu, pela possibilidade de conexões diferentes que ele fermenta.
 Numa história rica, o título acaba surgindo como uma espécie de máscara fluida, que deixa vazar pela persona uma variedade de sons grande o suficiente para nos fazer tro-peçar do reino das conexões seguras. É “como se a alma se multiplicasse dentro do corpo” (“Casulo Rompido”, p. 21), porque é disso que se trata realmente. Se há uma “noite nua” (p. 83), “pés de barro” (p. 52) e “o piso de um branco esquecido” (p. 121); se “o vento tira para dançar a mecha de cabelos cor de mel” (p. 59) e “o espetáculo do passado é uma ave de rapina” (p. 77), se, enfim, os papeis se ampliam e os sons se multiplicam em beleza e complexidade, é sinal de que a máscara tem muito mais poros do que podem vislumbrar olhos que sejam excessivamente acometidos pela doença da anestesia newtoniana.
             Esses poros são sempre verdadeiros contos dentro dos contos. Janelas que se abrem para outros cômodos, in-cômodos literários, casas sem porta, estradas de fluxos intermitentes. Nesse sentido, “Violeta Velha e outras flores” é uma espécie de máscara quântica, que carrega em seu corpo uma imensa floresta de labirintos, abertos para todos os exploradores que não temem o mergulho nas matas sem mapas da verdadeira literatura. O segredo – e o convite – do livro está nas outras flores das outras flores, personas que surgem como atalhos para olhos [des]treinados. E esse é um dos seus maiores méritos, que enseja a dica como um trabalho que vale a pena ser lido com atenção.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

vazio




lacuna ou vazio
é nome que se dá
ao fio
diz-costurado do sentido
quando trans-bordado
em novas acontecituras

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

tra-versia

Homenagem a Orlando Marques de Souza,
que, se vivo estivesse, estaria completando
hoje 100 anos


quantos somos,
nós que um
entre-tantos?

quantos vamos,
a sós que em tudo
infiltramos?

cantos somos,
nós que em blues
desatamos?

en-quantos vamos,
foz que em mar
navegamos?

quantos rumos?
quantos enganos?

quanto voa
e quanto sobra
em nós que
há-tra[ns]-versamos?

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

entremergulhos

homenagem a Helena Marques de Souza,
que hoje faria 95 anos se viva estivesse



estrada que invade
os poros da tarde

que entorna-me em prados
e vales que oscilam

fronteiras que estranham-se
em trotes atritos

entranhas hereges
que ensaiam: conflitos

é o jeito:
sob a perspectiva da fumaça
o escombro é um cadeado aberto


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Bolsonaro e o efeito Cuba



Pensando aqui com as entrelinhas dos meus botões. Essa notícia do retorno das relações diplomáticas entre os EUA e Cuba pode ter sido a pá de cal que faltava pra enterrar de vez o Bolsonaro. É aquela velha história da borboleta que bate as asas e provoca o terremoto do outro lado do mundo: se tem uma coisa que sustenta o Bolsonaro no congresso, com todas as asneiras que diz, é o fato de que ele faz eco - e um eco veemente e violento - aos reclames paranoicos de certos setores da direita moderada de que o Brasil estaria se transformando numa Cuba por causa do PT (o que é no mínimo uma piada se a gente olha pro lucro dos bancos, por exemplo) - tipo a última coluna do Rodrigo Constantino, no site da veja, dentre outras.

Ora, diante da aproximação entre EUA e Cuba, esse argumento perde ainda mais força, o que elimina essa que talvez seja a única validade do Bolsonaro para os direitistas moderados: sustentar a caricatura do bravo e destemido lutador que combate o retorno do fantasma do socialismo, o outro-mesmo "exército de um homem só" do congresso e sua cantilena arcaica e com aquele aroma fascista que a gente conhece bem e de longe.

Certamente, esse estranho Quixote de farda e coturno vai ter uma longa noite de insônia, pensando numa nova estratégia de defesa para os processos que pululam em sua mesa. E é possível que, com essa, o Obama tenha cumprido o feito de unir o útil ao agradável: minimiza um erro de mais de 50 anos e, de quebra, permite que a gente aumente as possibilidades de se livrar de outro erro, que, apesar de ter o corpo no século XXI, guarda uma mentalidade que no século XIX já seria das mais atrasadas.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

o planar dos con-textos




declarações

e dessombrações

pintam cores de melodia,

esbossanova que narra o blues da vida,

trilhos e trilhas sem molduras.

É claro que sempre so[m]bra:

viver não tem freio

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

de-pende



aquela palavra
cujo sentido alternativo aparece
e de súbito parece apontar
para outro caminho -

estalo, estampido,
mudança de rota,
elétron que entorta
o zigue no zague.

Agora pára e pensa:
a curva é a reta
do estranhamento -
metade apocalipse
e a outra fermento

é o voo do peixe abissal,
navegando as entranhas
do oxigênio,

flutuar de asas que obra
na fumaça que sobra
do pinote da bruxa

domingo, 16 de novembro de 2014

o olho (não) vê a-s(si)m mesmo



vendo-me ver-te
inverto-me avesso
que verte-se em ver-me

inverno-me a ver-te
inventando-me a vê-lo

invertendo novelo

o verter que me inverte
pra ver se me externo-lhe
em prelo

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O xadrez entre os meios de comunicação tradicionais e o Estado



Apesar de certas críticas da parte da direita que pouco ou nada lê, o projeto que é chamado de "regulação da mídia" talvez seja um dos mais "capitalistas" do PT.

O Brasil é um dos poucos países do mundo que ainda mantém um sistema de mídia televisiva baseado em oligopólio (um mesmo canal em vários estados).

Além disso, mais de dois terços dos políticos do congresso possuem alguma concessão de rádio ou TV (a maioria deles de partidos como PMDB e DEM, que historicamente servem de sustentáculo político dos coronéis). Essas concessões contribuem sobremaneira para o poder que esses caras têm, principalmente no interior do país, onde a internet ainda não chegou com força.

E uma regulação combateria ainda o caráter absolutamente arbitrário da programação. A TV e o rádio são meios de comunicação arcaicos, porque ainda funcionam da forma antiga, na qual não existe interação na produção. E como não existe educação para a mídia no Brasil, muita gente ainda acredita que o noticiário existe "para melhor informar a todos", o que ignora de forma extremamente inocente todo o jogo de interesses que permeia a produção das notícias.

Dois pontos devem ser colocados. Primeiro, a preguiça continua sendo um direito. Não se pode condenar as pessoas por acreditarem no que o noticiário diz, porque cada um acredita no que quer. Entretanto, também não se pode condenar qualquer iniciativa que tenha como objetivo colocar as pessoas em contato mais direto com a produção das informações. Até porque, isso pode inclusive ampliar os mercados, aumentando as alternativas de informação nos veículos tradicionais.

E o segundo ponto: talvez a palavra "regulação" não diga tudo o que é a coisa, porque ela carrega o peso do sentido jurídico do ato. O fato é que o projeto trata de um tema da maior importância. O próprio fato de a TV e o rádio serem concessões públicas é um problema, porque essas concessões geralmente vão ser divididas entre os partidários do governo em questão. Do outro lado, se o poder ficar todo na mão do mercado, há sempre o risco dos oligopólios ou monopólios, que sempre são acompanhados da conhecida e poderosa indústria da difamação, que conta com a anuência de uma população que ainda é muito passiva e pouco ou nada questiona os grupos mais fortes e sedutores.

Portanto, enquanto a internet não engolir de vez a TV, acho muito importante debatermos a regulação. Quem sabe assim não conseguimos flexibilizar o poder dos coronéis e dos megamafiosos, caminhando para um efetivo "mercado de ideias", que rompa com (ou ao menos minimize) os tradicionais oligopólios do Brasil?

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

tipo link



um link
é como a tampa aberta do esgoto
sem o moralismo do nariz

é o mesmo princípio
do tipo assim
ou melhor:
é tipo assim
o tipo assim

que é tipo um beijo
um beijo
que não gruda

que deflagra a dança
da saliva afluente

que afluência o flagra
da contradança

e mobiliza a fluência
das in
formações

um link
é qual sala
de espelhos quânticos
estação do trem
ex-tração do tem

é a estrada em estado fluído
em estrado-fluxo
que nina o voo
das multi(im)plicações

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O cheiro da fumaça do escapamento - e outros reflexos da velocidade



A campanha eleitoral deste ano traz um dado novo. E esse algo novo não é exatamente a internet. A internet foi o dado novo da última campanha pra prefeito da cidade do Rio de Janeiro, na qual o grande embate se deu entre o Marcelo Freixo do Psol - que usou a internet como sua principal ferramenta de divulgação de ideias - e o Eduardo Paes - que tinha a grana e a máquina na mão. Este ano, além da internet, temos outro dado a ser considerado.

Refiro-me à imensa quantidade de montagens, cartazes com fotos misturadas a textos, vídeos editados - alguns com edições amplas, com luz, música de fundo e imagens que cruzam a tela, se misturando às imagens capturadas de outros vídeos -, textos com acusações recheadas de vitimismo e tudo o mais. Tudo isso compartilhado e recompartilhado centenas e milhares de vezes no facebook, no youtube, no twitter, no whatsapp e em todos os mecanismos eletrônicos possíveis.

Uma das formas de perceber o quanto as pessoas acreditam de cara nessas montagens, sem a menor preocupação de fazer uma pesquisa mais ampla a respeito, é dar uma lida nos comentários, quando essas montagens aparecem em comunidades muito numerosas. Cada um tem uma forma de ver as coisas e cada um vai fazer a sua escolha eleitoral baseado nisso. Entretanto, o que parece, em vários casos, é que as pessoas partem do pressuposto da sua escolha pessoal para admitir qualquer tipo de estratégia que seja utilizada para incriminar o candidato adversário, mesmo que isso se baseie em calúnias sem o menor fundamento, ou então em conexões muito frágeis entre as informações, que seriam facilmente desprezadas diante de uma pesquisa mais séria.

Nos últimos dias, tenho visto uma infinidade de exemplos desse tipo de situação, aqui no facebook e em todas as outras mídias citadas. E isso em relação aos dois candidatos que chegaram ao segundo turno na eleição presidencial, Aécio e Dilma. Gente dos dois lados que publica acusações absurdas sem o menor fundamento, gente que conclui coisas de primeira, sem o menor esforço pra conferir aquilo que é divulgado, gente, enfim, que chega ao cúmulo de ratificar cálculos matemáticos distorcidos, simplesmente porque não se deu ao trabalho de fazer uma conta simples, que poderia fazer perceber a falácia que ali estava em jogo.

Por conta dos meus estudos em literatura e arte, compreendo perfeitamente a importância da caricatura, da sátira, da necessidade que as pessoas têm de criar os seus vilões e os seus heróis pra amenizar as agruras da pragmática do dia a dia. Entretanto, a minha "parte pesquisador" não consegue deixar de se impressionar com a falta completa de cuidado que muitas pessoas têm ao publicar uma opinião que vai denegrir a imagem de alguém sem o menor cuidado, de forma completamente imediatista e baseadas em informações que acabaram de ver pela primeira vez.

Algumas pessoas que conheço acham que isso sempre foi assim, e para isso citam o exemplo da TV. Não discordo de todo. A TV atuava - e ainda atua - exatamente nesse espaço de preguiça que a maioria tem de gastar mais tempo pesquisando antes de concluir o que quer que seja. Entretanto, acho que estamos mergulhados numa lógica ainda mais esquisita - e que tem toda a cara de ser um dos efeitos da entrada do Quarto Império que o Magno desenha em sua teoria: antigamente, as possibilidades de pesquisa alternativa eram menos acessíveis. Duvidar da TV era uma tarefa ainda mais complicada, porque demandava desse tipo de preguiçoso a necessidade de esperar que outras pessoas lhe tirassem certas dúvidas, ou então uma pesquisa em livros, que possui os seus macetes e não é tarefa das mais simples. Hoje não: na mesma internet que a pessoa viu a montagem com a informação "A", ela pode testar várias conexões através do google, pesquisar sites de órgãos oficiais, sites de opinião alternativa, procurar informações cruzadas que lhe permitam aumentar o conhecimento a respeito do que está lendo, e por aí vai. E entretanto, é o oposto que se vê: quanto mais simples for a informação, mais rápido ela será disseminada como se fosse uma verdade; quanto menos detalhes houver numa dessas montagens, mais ela vai ganhar curtidas e adeptos; e quanto mais engraçada for a mensagem, mesmo que exponha a pessoa e que não possua nenhum tipo de conexão externa à piada, mais ela será compartilhada e mais "verdadeira" ela se tornará.

E o mais curioso - e sintomático - é que são exatamente essas pessoas, que espalham essas montagens, que depois vão passar a culpar os políticos de partido por tudo de ruim que acontece no país; são exatamente essas pessoas que depois vêm falar que é preciso "acabar com a corrupção" - como se divulgar uma calúnia sem fundamento não fosse, de certa forma, um outro tipo de "corrupção"; são exatamente essas mesmas pessoas que depois vão bradar aos quatro ventos que "o maior problema do país é a impunidade". Ou seja: cinismo dos mais eloquentes. Pobreza de espírito das maiores. Ausência absoluta de rigor e de uma relação mais enriquecedora com o conhecimento. É, enfim, uma das facetas mais complexas da internet, porque se por um lado exprime a liberdade e a criatividade cada vez maiores com que lidamos com as informações, por outro expõe, dentro do mesmo balaio, uma espécie de aproximação retroativa com algo de bastante animalesco que possuímos em nosso espírito, um distanciamento de toda e qualquer responsabilidade, que leva a massificações das mais esquisitas.

E se essa responsabilidade, que exigimos de um cientista que pesquisa a cura de uma doença para depois colocar no mercado com uma quantidade reduzida de efeitos colaterais, que exigimos de um juiz que vai julgar uma acusação contra alguém e que pode levar a uma privação da liberdade dessa pessoa e que buscamos quando perguntamos a um médico que tipo de medicamento devemos tomar pra melhorar os sintomas de uma dor que sentimos, se essa responsabilidade já era bastante comprometida com a mídia de massa - vide as inúmeras estratégias usadas pelo noticiário para denegrir a imagem de candidatos e de cidadãos (quem não lembra do caso da Escola Base, de São Paulo?) que a história mostra -, isso hoje atinge níveis estratosféricos com a internet. E cabe inclusive eximi-la de qualquer culpa: ela é, na verdade, pra usar uma expressão do José Miguel Wisnik, um tremendo de um "veneno remédio": é a cobra, que possui a peçonha e o antídoto na mesma boca. Esse líquido que escorre contemporâneo, a mostrar o que existe de mais espirituoso e ao mesmo tempo animalesco no tal do bicho homem.

sábado, 18 de outubro de 2014

sobre os tais crescimentos



Quando alguém vem com esse papo de que "o país não tá crescendo", eu penso que "claro, já há algum tempo, desde a virada do século XIX para o XX (1899-1909), quando o Brasil incorporou o Acre". Os pastores da religião econômica, é claro, discordam, e aparecem com os seus mantras, como a "inflação", os "juros" e o "risco-Brasil". Ok, ok... Mas isso tá longe de ser tudo. Aliás, o "risco-Brasil" deveria ser dos mais baixos, já que historicamente a gente não é muito de fazer guerra (se bem que tem a violência urbana e aí a coisa muda um pouco de figura - de qualquer forma, não assistir aos programas de gente como o Datena e o Wagner Montes já ajuda bastante).

Enfim, não sei se o país tá crescendo ou não. Mas eu leio dois livros por semana.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

errâncias



entenda-me como uma alma
que nasceu no corpo errado

ou um corpo
que nasceu na alma errada

ou os dois

e não esqueça
que os opostos se a
traem

Professor, aprender, ensinar, e tal..



O dicionário, que tem a opinião dele, diz que professor é "aquele que ensina" - uma ciência, uma arte, uma técnica. Respeito essa visão, mas tenho a minha. E fico pensando, antropofagicamente, na questão da comida. Comemos ou somos comidos pela comida? Ou os dois? Antes de concluir que é mais uma loucura, pense naquela frase que a gente costuma soltar de vez em quando: "Essa fome tá me matando". É a gente que come pra matar a fome, ou é a fome que come a gente, que então, tipo um hospedeiro, acaba "satisfazendo" a vontade dela (que por acaso também é a nossa, na espiral rocambólica da coisa toda)? Aliás, como diria a Luciana Genro, satisfazendo "uma ova", porque a gente sabe que o desejo é praticamente o Usain Bolt das maratonas e cada fita de chegada é a largada da corrida seguinte.

Enfim, professor é um pouco muito tudo isso. Professor não é só "aquele que ensina". Professor mesmo também aprende. Aliás, aprende o tempo todo, inclusive quando parece que tá só ensinando. O Derrida, filósofo francês, nos ensina, em seu livro "A universidade sem condição" (p. 38), que, pelo menos até o ano de 1300 d.C., o verbo "professar" tinha um sentido unicamente religioso. Ou seja, "professar" era professar uma doutrina religiosa, que, em outras palavras, significava basicamente querer empurrar goela abaixo dos outros aquilo que um certo grupo achava ser a verdade absoluta para todo mundo seguir. A modernidade começou a questionar isso e hoje nós sabemos que "autoridade" e "especialista" são duas posições muito perigosas para um professor (aliás, pra qualquer um), ainda que elas existam, em certa medida. Isso porque são posições que lembram muito aquela empáfia cristã da Idade Média, de achar que só os "iniciados" podiam ler e professar os dogmas e teses da igreja e de seus livros. Isso felizmente está acabando e hoje todo mundo pode ler o que quiser - ainda mais com a internet.

Aquela lógica medieval, entretanto, migrou para as escolas. O palanque solene, o quadro-negro e sua megalomania frontal e empinada, as senzalas de aula dividas em séries, separadas para evitar a miscigenação do tempo, e tudo o mais. A gente sabe que os símbolos também possuem os seus sentimentos. A arquitetura possui personalidade, a luz às vezes se ofusca de clareza e tem dificuldade de ouvir o que a sombra tem a dizer, assim como também o vice-versa. O quadro-negro (ou branco), por exemplo: como ele geralmente fica na frente dos olhos, muitas vezes isso nos impede de perceber a presença dos pontos cegos laterais, das esquinas e subúrbios do fundo da sala - e do fundo dos temas e dos fatos etc. O palanque é um símbolo meio autoritário; a carteira escolar muitas vezes impede maiores voos, no que trava e aposenta as pernas de muitos potenciais pensadores. Felizmente, nada que seja incurável, sabemos bem.

E aí, voltamos a Derrida. Na mesma página do mesmo livro, ele ensina outra das suas: o verbo "professar", de origem latina, quer dizer "falar", que é o verbo que gera a "fábula", que é a ficção, que é a história, ou seja, esse mundo virtual de formas e nuances que constroem a imensa floresta oceânica do sentido (que tem corpo, ora pois, como já nos ensinou o professor Fernando Pessoa). Falando em virtual, voltamos à internet. Não sem antes citar de novo o Derrida: "professar" também significa, segundo ele, "declarar abertamente, declarar publicamente". Ou seja: "expor", "manifestar". Por isso, as "manifestações" do ano passado foram senhoras professoras para nós, assim como a própria internet, com a sua lógica de divulgação de tudo o que é possível divulgar, também é. Isso mostra que professor não é apenas profissão de gente; os fatos, acontecimentos, situações, informações, enfim, todos os atos da peça da vida, podem ser, eles também, tremendos professores pra todos nós.

Talvez a grande diferença do professor moderno para o professor medieval seja a de que o de hoje tem a possibilidade de colocar o rigor a serviço de novas conexões de ideias, de novos deslocamentos para os símbolos. Deslocamentos esses que, sem o rigor, ficam meio como andar em pista de gelo sem patins. Só não pense que o professor é esse par de patins, porque essa era a ideia na Idade Média. Pode até querer ser. Mas o mais legal é quando ele incorpora os dois, ou melhor, os três: o patim, o gelo e a faísca que explode, como verso quântico, do contato sexuado entre o rigor e a criatividade. O mais rico é tentar a posição de quem aprende ensinando e ensina aprendendo. Essa é talvez a única forma de continuar a ser professor. E de tentar fazer o dicionário pular o ano de 1300, que ele parece ainda não ter conhecido.

Minha homenagem a todos os professores e mestres que levam à sério aquilo que fazem, nesse país onde quase tudo vira piada ou simplismo. E aos alunos que ensinam, no mesmo embalo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Eleições 2014



Essa postagem contém os comentários feitos durante a última semana do primeiro turno dessas eleições de 2014, no facebook. Os últimos debates, o dia da eleição e os resultados.

- Ótima a colocação da Luciana Genro no debate [da globo] sobre a "cobertura" da grande mídia às eleições. Acompanha por ali quem quer. Depois acontece como eu constato diariamente: a maioria só conhece os 3 candidatos que aparecem com mais destaque na tal "cobertura" - cobertura essa que não "cobre" nem um décimo do que acontece. Refletir sobre o processo eleitoral passa sempre por questionar mentalmente essa palavra. "Cobertura" dá a impressão pomposa de que tudo está sendo dito. Novamente: acredita nisso quem quer.


- Outra expressão que pode gerar reflexão é essa tal de "inversão de valores" (que aparece o tempo todo na boca dos mais conservadores, como Levy Fidelix, pastor Everaldo e Marina Silva). Uma das coisas mais inteligentes que alguém pode exercitar na vida é inverter os valores que tem como definidos. Isso permite duas ricas possibilidades. Primeira: testar novas maneiras de ver as coisas. Quem nunca experimentou açaí, fica tomando suco de laranja a vida inteira e perde a oportunidade de experimentar coisas novas. Isso não precisa ser uma regra pra tudo, mas pode ser bacana pra um monte de coisa. Segunda: mesmo que algo não sirva para nós, pode servir para outra pessoa. E inverter os valores mentalmente permite que a gente entenda que a nossa visão de mundo não é a única possível. E é algo que pode ser bastante pedagógico para os fundamentalistas de plantão.



- Mais uma: falar sobre 'corrupção' sem considerar temas como o 'cinismo' e também o modo de funcionamento do capitalismo financeiro (baseado em boatos e especulação) é falar no vazio. Sobre o cinismo, há um livro bem interessante, que se chama "Crítica da Razão Cínica", de um filósofo alemão chamado Peter Sloterdijk. Vale a dica, porque é melhor do que toda a pobre "cobertura" jornalística, que não levanta as questões mais profundas desse tema, que são de ordem pessoal. Há outro texto bem legal sobre este mesmo tema, do Jean Baudrillard (outro filósofo), em seu livro "Tela total". Assim como "No círculo cínico", do Ricardo Goldemberg, autor da psicanálise. O psicanalista MD Magno também trata do tema em seu seminário "Psicanálise: arreligião". Ou seja, não faltam fontes, todas elas melhores que a tal "cobertura". Mas, ler que é bom, a gente sabe como é...


- Agora, não sei o que é pior: a Marina falando de "nova política", o Aécio dizendo que vai investir em saúde pública (Tá legal...) ou a Dilma dizendo que vai investir em educação (vai começar excluindo filosofia e sociologia dos currículos, o que mostra bem a cara do PT no tema da educação). Vale uma enquete pra saber qual é a melhor piada das três.


- E depois alguém me diz quanto foi o cachê do pastor Everaldo.


- Mais uma piada foi o Aécio posando de defensor de inovações no tema dos presídios. Não se resolve o problema da segurança sem investimento maciço em educação pública. Investimento esse que não está nos planos do PSDB - e nem do PT, muito menos da Marina. Afora o fato de que o modelo de sociedade que o PSDB do Aécio defende é o dos EUA, país que mais encarcera pessoas no mundo, sem modificar uma gota do problema da violência. Acredita quem quer.


- Quanto ao Levy Fidelix, sinceramente eu sinto pena dele. É um cara extremamente conservador, mas não tem um décimo da malandragem do tal pastor Everaldo (ou de figuras patéticas como ele, mas que são charlatães profissionais, como os pastores Malafaia e Feliciano e o projeto de nazista Bolsonaro). Ou seja, voltando ao Fidelix, tá completamente deslocado no jogo - com o agravante de que insiste em participar de um jogo para o qual não tem a menor vocação. Ou seja de novo: nem escroto ele sabe ser direito. Se aposenta e se limita a tentar catequizar os seus netinhos, meu caro, que é o melhor que você faz.


- Outra engraçada do Aécio foi falar em "aparelhamento do Estado". Ora, foi o que mais fez o FHC, do partido dele. "Aparelhou" o Estado com o Geraldo Brindeiro, procurador-geral da república que ganhou o apelido de "engavetador geral da república", porque engavetou centenas de processos de corrupção contra os amiguinhos do FHC. Aliás, falando em corrupção, a Luciana Genro lembrou bem do caso do aeroporto feito por ele com dinheiro público - e até agora sem explicação. Aliás, mais: vamos estudar direitinho, pra não cair em falácias: quem criou o plano real não foi o partido do Aécio, mas sim o Itamar Franco. Os louros do programa foram direcionados ao FHC pela mídia - e novamente: acredita nela quem quer. E por último, questionado pela Dilma sobre os juros de 2001 e 2002 (com todos os defeitos do PT, nesse tema qualquer comparação entre PT e PSDB é covardia), o que fez o Aécio? Pôs a culpa no "efeito Lula" (pra quem não lembra, em 2002 o 'mercado financeiro' achava um risco o Lula ser eleito e fez pressão pra aumentar os juros e causar pânico no povo que não entende muito bem esses processos). Ora, se a gente estuda um pouco, vai sacar que a fala do Aécio é um tremendo tiro no pé, porque o que ele está dizendo é o seguinte: "o sistema que NÓS do PSDB montamos permite que qualquer especulador pilantra cause um estrago na economia do país com um simples boato". O que ele chama de "efeito Lula" se chama na verdade "efeito FHC". É só olhar direitinho. Imagina então o Brasil nas mãos do PSDB numa crise como a de 2008. Isso aqui ficaria insustentável.


- A verdade é que esse modelo de debate eleitoral televisivo já tá bastante esgotado. Escolher candidato nesse tipo de ocasião é um erro dos piores, porque não dá pra resumir um programa de governo e a vida pregressa dos candidatos em meia dúzia de perguntas com um minuto e meio pra resposta e míseros 40 segundos pra réplica e tréplica. Os assuntos são muito mais complexos que isso. Acaba sobrando o quê? O humor. Então não falta gente destacando o "olhar de psicopata cheirador" do Aécio Neves; o formato "Barril de peruca" da Dilma; o "pescoço de Anaconda" da Marina Silva; a 'cara de traquinas' do pastor Everaldo; e os outros 3 candidatos, 'David Luis de saia', 'seu Barriga' e 'seu Madruga'. Não resta muita coisa. A única novidade efetiva que aconteceu nesse debate foi exatamente a primeira frase, quando a Luciana Genro disse o que tinha que ser dito: "Globo, você não é uma boa fonte, porque limita a cobertura aos candidatos que mais lhe interessam". E é isso. Quer conhecer os candidatos? É desligar a sua TV e pesquisar direito. A internet tá cheia de páginas que contam a história de cada um, entrevistas em vídeo e em sites de notícias, os sites dos próprios partidos com os respectivos programas de governo, e por aí vai. A TV serve pro circo. E pra enganar aqueles que acham que falar bonitinho significa necessariamente ser apto a administrar o Estado. Pra aprofundar de verdade, esse tipo de programa não dá nem pro começo.


- Alguns me perguntam "Por que mesmo depois das manifestações de 2013 o Pezão aparece como favorito?" Vejo três motivos: primeiro, porque eles esconderam o Cabral da campanha (como a maioria tem memória curta, acaba esquecendo rápido); segunda: eles usam as pesquisas para induzir os incautos a acreditarem que só 2 ou 3 têm chances (isso convence aqueles que votam com o ego e acham que "vão perder o voto" se votarem em candidatos "sem chances" - como se eleição fosse corrida de cavalo); e terceira: a maioria dos votos do PMDB do Pezão se concentra na zona oeste, território das milícias: e esse pessoal não estava nas passeatas, mas em casa batendo palma pros Datenas da vida, enquanto estes tentavam criminalizar os manifestantes. Meu voto pra governador: Tarcísio Motta, Psol, 50.


- Para além dos votos nos candidatos a governador e presidente, é fundamental que a pessoa vote bem para a câmara e o senado. Muita gente reclama que "o presidente não faz nada", ou "o governador não resolve os problemas da cidade" etc, mas se esquecem de que muita coisa, muitos projetos de lei importantes, muitas medidas relevantes - inclusive no que diz respeito à fiscalização do trabalho de governadores e presidentes - passa primeiro pelas câmaras e pelo senado. Por exemplo: não adianta votar bem pra governador e escolher deputados estaduais ruins, porque dessa forma muita coisa não anda. O brasileiro é meio esquisito nesse ponto: tem muita gente que vota bem pra governador e presidente e acaba escolhendo para deputado estadual e federal o amigo do amigo, o cara que pagou a obra da rua ao lado, o sujeito que tem programa na TV ou o mais engraçado da propaganda eleitoral. Isso prejudica demais o trabalho dos governantes. Então, escolher deputados e senadores sérios e comprometidos com as questões públicas é fundamental. Porque se não depois só vai restar reclamar (muitas vezes sem nem saber por quê). Bom voto a todos.


- A Tijuca, no Rio de Janeiro, tá lotada de panfletos pelo chão, uma sujeirada sem limites. Muito material de campanha do Aécio, da Dilma, do Pezão e do Crivella - além de seus respectivos candidatos a deputado (nessa categoria dos deputados, o PMDB do Pezão é responsável por 70% do lixo que eu vi). Não encontrei nenhum material do Psol da Luciana Genro (e, há que se fazer justiça, nem do PSB da Marina, nem do PR do Garotinho). Portanto, na eleição da imundice, o Pezão ganharia no primeiro turno, seguido por Aécio e Dilma, ambos no empate técnico. O troféu porcalhão vai pro Pezão. Que, aliás, apenas reproduz aquilo que o Cabral já vinha fazendo com o dinheiro público há 8 anos, ou seja: porcaria.


- O Tarcísio Motta do Psol teve cerca de 750 mil votos no estado e terminou a eleição com quase 9% do total, colado no Lindberg do PT, que teve 10%. Na capital, onde os currais eleitorais são mais fragmentados (o que ajuda as candidaturas mais inteligentes a ganharem espaço), vejam só, o Tarcísio finalizou em terceiro lugar, na frente do Garotinho (com todo o boicote da globo - e da população que só por ela se informa). Foram 451.024 votos, 14,62% do total apurado. Anthony Menininho terminou com 10,79% na capital, enquanto o Lindberg não passou de 7,64% (a metade dos votos do candidato do Psol). Parabéns ao Tarcísio pela bela campanha.


- No caso dos deputados estaduais, uma ótima notícia - a belíssima vitória do Freixo, o mais votado com 350 mil votos (o que aumenta a bancada do Psol) - e entretanto a constatação do quanto o carioca continua votando muito mal no geral. Picciani pai e filho, Brazão, Waguinho, Wagner Montes, o primo do Malafaia, 7 deputados do PR (que é um partido de crentes), Bolsonaro Filho, Zito, Cidinha Campos, Bebeto Tetra (?), dentre outros... Haja saco de vômito pro Freixo e cia ltda conviverem com essa patota..


- Pra deputado federal, o Chico Alencar manteve o bom desempenho, o Jean Willys aumentou dez vezes a sua votação, mas no geral a maioria dos votos foi a pobreza de sempre: Bolsonaro, outro filho do Picciani, Pedro Paulo (que é da patota do Eduardo Paes),o filho do Cabral, Júlio Lopes, Indio da Costa, Clarissa Garotinho, Rodrigo Maia, Benedita da Silva... Triste isso... Depois reclamam que nada anda no congresso. Com uma bancada dessas...


- Já os paulistas reelegeram o Alckmin no primeiro turno. Já tem gente dizendo que paulista não gosta de tomar banho...rs E seus deputados mais votados foram o Marco Feliciano e o Tiririca. Pessoal de "bom gosto" esses paulistas hein...


- O Levy Fidelix teve 446.878 votos (0,42% do total). É por isso que ele defende que 'sexo só pra reproduzir'. Vai ter família grande assim lá longe...


- Outra notícia ruim é o fato de que um cara como o pastor Everaldo acabou com mais votos do que o Eduardo Jorge. O crente teve 780.513 votos (0,75%) contra 630.099 (0,60%) do Eduardo Jorge. E a Dilma ainda quer tirar filosofia e sociologia das escolas...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Levy Fidelix e o estranho familiar


Preencha como quiser



[Es]tava lendo aqui, no facebook, muita gente falando sobre um comentário do candidato Levy Fidelix (que lembra um pouco o 'Seu Barriga' do Chaves), a respeito dos gays. E enquanto via o vídeo no youtube, comecei a pensar, mais uma vez, sobre as palavras.


Num primeiro olhar, a gente, que tenta estabelecer uma relação inteligente com a vida, fica meio impressionado com o tamanho da burrice do Levy Fidelix. Vi que algumas pessoas sugeriram que ele merecia ir pra cadeia pelos comentários absurdos etc. Acho que, mais do que isso, vale a pena estudar a fala dele. Ou seja, escutar o que ele diz e tentar sacar o que há de sintomático ali. E esse “ali” não se resume ao Levy Fidelix e seu cérebro de azeitona, mas a todo o discurso que o sustenta, inclusive naquilo que parece que é “oposto”, sem o ser (o recheio da azeitona pode ser mais pesado que a própria azeitona, já ensinou a física quântica).

Pra tentar entender o que o Fidelix pensa, vale resumir os argumentos dele. A pergunta feita pela Luciana Genro foi a seguinte: “Por que as pessoas que defendem tanto a família se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo?” ‘Seu Barriga’ responde então que aprendeu na vida que “dois iguais não fazem filho”, para então lançar a pérola: “e digo mais: aparelho excretor não reproduz”. Fidelix continua, dizendo que os “pais de família” não podem deixar que a minoria continue “achacando” a maioria do povo brasileiro (argumento dos mais democráticos, diga-se de passagem). Ele associa “religiosidade” a “um bom caminho familiar”; sugere que a defesa dos gays pode diminuir o número de brasileiros, de duzentos milhões pra cem milhões (esses caras são os mesmos que defendem o “planejamento familiar”, é só conferir); e declara então guerra às “minorias”, clamando pela “coragem da maioria” de enfrentá-los; para terminar dizendo que estes que têm problemas psicológicos e afetivos (os gays) sejam tratados, mas “longe de nós” (da tal “maioria”).

É um assunto bem legal, porque permite bater em uma série de mitos. A fala do Fidelix se baseia em grande medida na ideia de “família”, entendida – e isso é importante – como simples mecanismo de reprodução da espécie. É um argumento tão estúpido que impressiona. Mas tá longe de ser exceção. E a gente pode usar isso pra refletir além – inclusive pra sacar que muito do que sustenta a fala desse tipo de gente está na forma como as próprias “minorias” se colocam diante da situação.

A ideia de “família” não é tão simples quanto parece. O conceito fala de pessoas aparentadas pelo “mesmo sangue”, mas engloba também situações como as de adoção, guarda ou tutela, que não precisam de laços sanguíneos para acontecer; fala-se de uma família “nuclear” ou “elementar” (pai, mãe e filhos), mas isso não exclui outros componentes indiretos do “plano sanguíneo” (como os avós, tios, primos etc). O marido da irmã da mãe da menina não possui nenhuma relação sanguínea com ela, mas é considerado parte da família e ganha o apelido de “tio” (no Brasil, inclusive, instituiu-se a figura da “madrinha” e do “padrinho”, para ajudar a estreitar esses laços). Isso acontece porque, apesar de toda a pressão da estupidez que nos rodeia, nunca ficamos satisfeitos com as imposições orgânicas. Queremos sempre mais. O próprio Fidelix deve ser padrinho de alguém, já que possui nítido vínculo com a religião católica (apesar de usar o seu aparelho excretor, ou seja, a boca, pra dizer que o único barato que importa é a “reprodução” e nada mais).

Entretanto, a matriz ideológica biologicista é a que prevalece. O curioso é que ela é o que sustenta boa parte da visão retrógrada de biólogos (que são cientistas) E de religiosos mais fanáticos. É quando a ciência mostra o quanto tem de crença, mesmo que se ache que essas coisas são sempre totalmente separadas. É nessa confusão que se alocam figuras atrasadas como Bolsonaro, Silas Malafaia, Marco Feliciano, e o mais novo integrante do grupo, o Levy Fidelix. Partem do princípio de que só é possível pensar a ideia de família vinculada a pressupostos orgânicos e, como não estudam para além de suas doutrinações, dali não saem. Se fosse só isso, ok: o problema é que com eles esse tipo de visão vai se infiltrando na esfera das políticas de Estado, o que é sempre perigoso.

Voltando aos argumentos do ‘Seu Barriga’. Ele diz que “dois iguais não fazem filho”. Na verdade, dois iguais não fazem filho e não fazem nada, simplesmente porque dois iguais não existem. Achar que duas pessoas são “iguais” porque possuem o mesmo ‘tipo’ de genitália não passa de mais uma tolice de base organicista – uma tolice que inclusive é reproduzida por boa parte das próprias “minorias”. Uma das formas de entender que isso é um reducionismo é analisar a palavra “homossexual”, que geralmente é usada pra designar pessoas “do mesmo sexo”. Na verdade, não existe “o mesmo sexo”, porque, como o Freud já mostrou de forma ampla há cerca de um século, a sexualidade humana não se resume ao organismo. Ela é um jogo eterno entre o corpo e os símbolos, entre a genitália e os fetiches, enfim, entre os hormônios e o teatro da mente. Já parou pra perceber que bicho não troca de posição, na hora de copular? Pois então. Não troca porque quem manda ali é o organismo. A posição que ficar mais fácil é a que vai ser usada. Aliás, não trocam de posição e também não copulam fora da época reprodutiva da fêmea (o que é outra prisão orgânica). Nós, já conseguimos fazer até o Kama Sutra, que é um estudo mais aprofundado sobre as várias possibilidades de enlace dos corpos. Além disso tudo, é cada vez mais fácil ter relações sexuais genitais sem o risco de gerar crianças, porque as próteses de controle são cada vez mais numerosas: camisinhas, anticoncepcionais etc, além do próprio controle mental, que pode ajudar pra caramba, se é que me entendem. Portanto, se a gente estuda de verdade a palavra, percebe que “homossexual” é um termo que não faz o menor sentido. Mesmo na masturbação, porque há sempre um outro em jogo ali. Mesmo que a gente pense numa pessoa se masturbando na frente do espelho e pensando em “si mesma”, ainda assim o que está em jogo é uma lógica especular e em rede, na qual fica impossível pensar em qualquer tipo de homogeneidade ou unicidade. Sexo é sempre uma “relação”, como se sabe bem. E aí, talvez uma das formas de combater o preconceito seja tentar mostrar não que existem pessoas que gostam do “mesmo sexo”, mas sim que nunca existe “mesmo sexo”; que sexo é sempre uma “relação”, ou seja, algo que acontece sempre entre dois ou mais corpos e dois ou mais símbolos; e que, a partir disso, só faz sentido dizer que todos os seres humanos são “heterossexuais” – palavra na qual prefixo e sufixo atuam de uma forma praticamente redundante, porque se sexo é sempre relação, e se não existem duas pessoas iguais, então sexo vai ser sempre hetero. E aí sim, seria possível dizer que, se tem uma coisa que nos torna (não iguais mas) parecidos, é o fato de que funcionamos numa lógica sexual cuja base é sempre a heterogenia. Pode parecer estranho, mas a história da linguagem mostra bem o quanto a simples modificação no uso de uma palavra pode trazer mudanças para vários setores da vida.

A visão que toma o organismo como base inviolável, como já disse, não é rara. Pelo contrário: o ser humano geralmente adora redomas conceituais que lhe dêem segurança. Não é à toa que se tacha logo quem pensa diferente de “maluco” (sem se dar conta do quanto seria esquisito isso que se chama de “normalidade” – quando alguém fala em “normalidade”, eu fico imaginando uma espécie de deserto sem ventos, cujo céu fosse exatamente uma cópia da areia, também destituída de ventos; como se vê, uma imagem das mais estranhas – e ainda assim algo que tem muito de especular pra ser considerado “normal”). Entretanto, mesmo que se ache o contrário, o fato é que no próprio cotidiano menos elaborado a gente também funciona de outras formas que não as organicistas. Basta ver as fotos do facebook pra sacar isso: “a irmã que eu escolhi”; “a família que eu escolhi”; “esse é meu primo de consideração” etc etc. Mesmo que não se nomeie certas relações com palavras de origem “familiar”, dá pra perceber nitidamente quando os vínculos são mais próximos (amizade, coleguismo, respeito etc). E isso porque o corpo não é um limite inviolável para o raciocínio humano, por mais imbecil que a pessoa seja.

Outro ponto importante dessa questão está na forma como o discurso de gente como o Levy Fidelix entende a família como um exemplo de “união” e “estabilidade”. Aliás, na própria legislação esse equívoco é muito claro: “união estável” é a expressão legal para o casamento. Como se a vida familiar fosse de fato um exemplo de “estabilidade” e como se a regra fosse de fato a “união” entre os componentes, baseada em interesses comuns. Se a gente estuda a história das relações privadas e familiares, começa a perceber que a história disso que se chama de “família nuclear” é um imenso arquivo de tortura e autoritarismo, misturado a exemplos de amor e carinho, onde a fronteira entre a violência e o cuidado e entre o xingamento e o elogio, é sempre ‘por um fio’. A base da expressão legal está na ideia do tempo de convívio. Mas, como se sabe bem, a união de duas ou mais pessoas num mesmo espaço está longe de poder ser resumida ao tempo. E se a lei pudesse olhar de forma mais ampla para a questão da família, deveria nomeá-la não como “união estável”, mas sim como “relação instável”, pra ficar mais coerente (ainda nesse ponto, vale pensar em exemplos de pessoas conhecidas e tidas como ótimos “pais de família” (expressão que o Fidelix adora): José Sarney, Paulo Maluf, George Bush etc: todos aparentemente amados pelos filhos e pelas esposas, todos milionários que garantiram o futuro dos filhos e netos roubando, matando e cometendo crimes de toda natureza por aí; aliás, esse argumento serve também pra pensar a religião (outro dos fetiches do Fidelix): a história da religião mostra que já se matou muito mais gente em nome de deus do que em nome de qualquer ideologia gay ou coisa do tipo).

Nesse sentido, à pergunta da Luciana Genro, sobre “Por que as pessoas que defendem tanto a família se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo”, eu responderia o seguinte: Isso acontece primeiro porque ainda se pensa muito mais com o resto do corpo do que com o cérebro e a mente; e segundo, porque ainda não há um esforço das ditas “minorias” para eliminar do seu ideário essa ideia equivocada de que existe sequer a possibilidade de se pensar numa relação que fosse entre “pessoas do mesmo sexo”. Acho inclusive que a própria ideia de “família” deve ser repensada em outros termos, da mesma forma como se tem repensado a questão da filiação nacional, por exemplo. Hoje em dia, os mecanismos de “desfiliação” e “naturalização” são cada vez mais acessíveis – na União Europeia hoje em dia todo mundo é “europeu” e não mais apenas “alemão”, “português” ou “francês”. Talvez seja o caso de dizer: não existem “famílias”, mas sim ‘heterossexualidades em contato’ – contato esse que é sempre provisório (mesmo que eventualmente a relação se estenda, o que é apenas mais uma dentre várias possibilidades). É claro que esse tipo de reflexão não é tão simples para uma pessoa tão atrasada como o Levy Fidelix. Mas me parece que a única forma de tentar evoluir nesse sentido é atacar as palavras, naquilo que elas têm de mais retrógrado. Se ficamos limitados a defender o reconhecimento legal como o ponto mais importante desse enredo, tá arriscado a gente acabar exagerando na dose, o que pode transformar a lei não numa fonte de avanço, mas sim numa forma de limitação das piores, porque muita gente vai acabar se acostumando a reconhecer essas diferenças apenas no âmbito “legal” – quando na verdade o buraco é muito mais embaixo e faz parte da vida como um todo (ou melhor, da vida como um nada, aberto a todo tipo de heterogenia).

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Expressões de baixa definição


Escultura de Guy Leremee
(sem data)



Há uma série de expressões que dariam belos quadros (não abstratos mas abstraídos), como vocês sabem.

Uma delas é essa: "imagem de alta definição".

O quadro seria um dicionário de pedra, aberto a esmo, com uma seringa, de tamanho maior do que o normal, espetada em sua pele petrificada. Na seringa, leia-se em garrafais: "Anestesia geral".

Uma pena que a expressão geralmente apareça apenas na anestesia dos slogans publicitários de lojas de eletrodomésticos. O que não impede que percebamos a paródia da situação e a potência poética subsequente.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

A falta de educação eleitoral, ainda






Ainda sobre o absurdo proposto pela Dilma, de lutar para diminuir o currículo do ensino médio, a começar justamente por filosofia e sociologia, que são matérias que colocam os estudantes em contato com o pensamento e a produção mais ampla da história e com o pensamento crítico e reflexivo.

O argumento dela é exatamente o de que um currículo grande "não é atrativo para os estudantes" (aliás, é curioso ver muita gente que diz defender a educação integral apoiando essa ideia, numa clara contradição). Bom, estava eu aqui pensando com os meus botões e é aí que a gente pega certas sutilezas. Em vários pontos da campanha, a Dilma tem realçado o fato de que é preciso um Estado mais atuante, pra que o mercado não fique totalmente descontrolado (o que pode acabar gerando o tipo de crise que vemos hoje na Europa). Ora, pois o argumento de que o currículo "não é atrativo para os estudantes" é tipicamente um argumento de mercado ("o cliente tem sempre razão"). É o mesmo argumento sedutor de qualquer vendedor do mercado - mercado esse que ela diz contrapor.

E é o tipo da coisa que a gente só percebe quando sai um pouco dos números. Por isso aliás é que os jornalistas da globo, que não passam de capachos dos números (como 80% dos políticos), não questionaram essa proposta dela. Porque no fundo, pra globo é até bom que as crianças não tenham acesso ao pensamento mais refinado. Isso ajuda a manter a audiência lá em cima.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

A falta de educação eleitoral



Agora há pouco ouço a Dilma dizer que uma de suas medidas para a área da educação vai ser lutar pra diminuir o currículo do ensino médio (a outra é investir ainda mais na educação técnica). Segundo ela, o currículo é "muito grande", porque possui 12 matérias, o que "não é atrativo para os jovens". E aí, ela diz que filosofia e sociologia seriam as primeiras a sair da grade.

Essa moda de considerar sempre em primeiro lugar a "atração" que os alunos sentem pelo currículo - que nasceu com as correntes construtivistas - interfere diretamente na avaliação dos estudantes, que vem caindo ano a ano. Claro: só estudam o que querem e da forma que querem. Dá no que dá, salvo as exceções de praxe. Isso não significa dizer que todas as matérias são fundamentais e que "sem elas não vivemos". Significa dizer, basicamente, que quanto mais matérias melhor (até para que a seleção futura seja feita com base em um repertório mais amplo e com conhecimento de causa). E não o contrário.

Essa é apenas mais uma amostra de que o PT não sabe como lidar com o tema da educação (que pra ele se resume, fundamentalmente, a "formação para o emprego" e mais nada). Pra mim, a realidade brasileira atual, na qual muita gente trocou a babação dos coronéis pela babação dos pastores, que agora fazem o papel de "conselheiros" que ditam as regras para os alienados seguirem, sem o menor senso crítico, é fruto exatamente desse tipo de lógica, que diminui o conteúdo de reflexão e aumenta o conteúdo mecanicista pragmático, de saber apertar porca e parafuso sem aprender a questionar os "por quês" e os "comos". O crescimento das vertentes fanáticas pentecostais é paralelo à adoção desse tipo de modelo no Brasil.

Só que aí a gente olha pro lado e a coisa não melhora muito. Os outros dois candidatos que são os "favoritos" do discurso massificado não apresentam nada melhor que isso para o tema da educação. É bom lembrar que quem implantou a famigerada "aprovação automática" (também herança torta do construtivismo) no Brasil foi exatamente o PSDB do Aécio (no primeiro ano do governo FHC, 1994, ideia do Mario Covas). Quanto à Marina Silva, possui um vínculo muito forte com a religião, o que a torna uma pessoa perigosa para a educação laica, na medida em que pode querer implantar o ensino de religião obrigatório nas escolas, o que seria um tremendo retrocesso. Pode parecer exagero, mas pense no twitter do Malafaia. É só ele ameaçar, que ela segue à risca.

Portanto, pelo andar da carruagem, se infelizmente tivermos a ressonância das pesquisas nas urnas e vencer um dos três, o tema da educação, ao que parece, não vai andar.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O artifício do "natural"


A epígrafe deste texto poderia ser algo assim:
"A nascente do rio é o suor dos deuses"
(frase achada numa caverna, atrás de um templo asteca)


Duas das maiores "pintas" de moralismo que alguém pode dar. Primeira: te perguntar se você acha isso ou aquilo "certo" (quando se trata de algo incomum); e segundo, vir te dizer que algo não presta porque "não é natural".

É sempre bom lembrar que nenhuma palavra é natural. Nem a palavra "natural". "Natural" é uma palavra artificial (ok, é redundante isso), que vem do latim 'naturalis', que significa "inato" - ou seja, aquilo que já nasce com, congênito. É, portanto, uma das palavras mais estranhas, porque ora, se a linguagem não é inata ao ser humano (já que vem de fora - apesar do hardware estar presente no organismo), então nenhuma palavra nasce com o ser humano (nem a palavra "natural", apesar de crenças em contrário). Tudo indica que tenham aparecido com a espécie humana, mas curiosamente isso não basta pra vir de graça junto com o corpo. Enfim, daí é que são geradas outras palavras, como 'nativo', 'natureza' etc etc.

Bom.. se algo não presta "porque não é natural", então falar não presta, porque ninguém nasce falando. Aliás, se a gente amplia a coisa e vai pro feto, nem o choro do neném, aquele choro que é a primeira coisa que ele faz quando lhe dão um tapa na bunda - e que o Mário Quintana disse certa vez ser a verdadeira "voz do além" -, é "inato". Primeiro, porque o choro não veio com o corpo; é uma 'reação' do coitado ao tranco forçado, que lhe tirou do bem-bom do útero; e segundo, porque em muitos casos nem o tranco é suficiente pra que ele chore - daí o 'tapa no cu', como dizem os portugas.

Portanto, esse papo de que algo não presta porque "não é natural" não passa de um artifício, logo não-natural, que visa apenas tentar tachar moralmente algo que a pessoa não concorda (ou algo de que ela não gosta). Isso tem cura - e ela pode começar com um pouco de Nietzsche, por exemplo: "para além do bem e do mal". Ou "para além do certo e do errado". Dá até samba: "Para além do bem e do mal, nada é natural, tudo é artificial". Só assim pra escapar das banalidades do "o importante é o que eu penso e nada mais" ;)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Estudar sempre é bom



O Danilo Gentili precisa realmente estudar mais. Não só por causa das bobagens que disse na entrevista com a Luciana Genro, mas por uma série de outros motivos. De qualquer forma, vale uma ressalva ao que ela disse. Quando ela diz que ele tem que "estudar", se refere, obviamente, aos livros. Em outras palavras, ela disse que ele precisava estudar porque - argumento geralmente usado por aqueles que defendem o socialismo com unhas e dentes - as experiências que são chamadas de socialistas não seriam exatamente socialismo porque não seguiram o Livro (no caso, Marx).

Ora... o próprio Marx já sabia, com o seu conceito de "práxis", que não existe teoria sem prática (e vice-versa). A questão é que achar que a relação entre a experiência específica do texto e a experiência específica de cada localidade geopolítica tem que ser absolutamente mimética, de cópia pra cópia, é ignorar que nos entremeios dessas duas experiências existem outras experiências, que se misturam, mudando a receita do bolo e a forma como cada estômago vai digerir seus pedaços.

Se a gente não saca esses detalhes, fica entrando em contato com os textos do Marx como os crentes, que acham que tudo vai acontecer exatamente como está descrito no texto do livro do apocalipse da bíblia, por exemplo. O Marx não era profeta e sim um pensador. E aí, se a gente quiser entrar em contato com ele como pensadores também, e não como repetidores ou beatas, é preciso considerar que, mesmo que ele patenteasse a palavra, não seria o dono da ideia do "socialismo".

Quando se pensa que o prefixo da palavra carrega o sentido do "eu mais os outros", é preciso perceber que toda e qualquer medida ou situação que tenha como foco o 'social' vai ser, em certo sentido, "socialista". Isso serve tanto para a construção de uma praça na qual todos podem entrar e que todos podem curtir (desde que respeitem um mínimo de regras) até o programa de auditório idiota, que um monte de gente assiste, "socializando" a idiotice. Alguns dirão "Para o Marx, o socialismo é quando rolam os extremos das contradições capitalistas etc etc". Sim, isso era o que ele pensava na época dele. Mas muita coisa aconteceu de lá pra cá e isso deve ser considerado.

Por isso, os gulags da URSS foram sim uma experiência socialista, assim como a louvável medicina cubana. Assim como o capitalismo produz coisas bizarras e coisas geniais. Aliás, tem muita coisa que carrega os dois, sem que quase ninguém perceba isso. Um exemplo claro é o da TV. Um programa estúpido desses da TV gera um lucro sinistro pra um ou dois empresários (capitalismo), ao mesmo tempo em que "socializa" as bobagens que ali são veiculadas (socialismo). E assim é com o caso da praça, que ao mesmo tempo em que socializa encontros entre as pessoas (socialismo), gera também um 'lucro' pessoal pra cada uma delas - o prazer do canto dos pássaros, ou, mesmo em termos de dinheiro, um ambulante que use o lugar pra ganhar a sua graninha (capitalismo).

E aí está o barato do Psol (citado pela própria Luciana Genro, na entrevista em questão). O nome do partido junta o socialismo E a liberdade. Isso é bem interessante, porque já deu de fanatismo socialista e fanatismo liberal, né não? As lutas políticas devem continuar, mas acho que é preciso ter em mente que as duas ideias possuem méritos e deméritos. E isso tem a ver com a diversidade humana. Tem gente que se diz socialista, mas "na minha mulher ninguém toca"; e tem milionários que se dizem "capitalistas", mas não se incomodam de socializar a mulher em clubes de swing. Bacana, que ambos sejam felizes. Só não venham me dizer que é possível ser "absolutamente socialista" ou "absolutamente libertário", porque isso não existe. Quem ainda acha isso, merece a bronca da Luciana Genro: tem que estudar um pouco mais..;)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Religião e escola



Sobre o aluno que foi proibido de frequentar a escola no Grajaú por estar usando contas de candomblé, é um tema complicado. Algumas pessoas consideram preconceito, outras não. Mas o caso não se resume a isso e tem vários lados.

A relação entre a religião e a vida laica sempre foi bastante problemática. E, ao contrário do que alguns acreditam, isso não é um problema apenas brasileiro, mas mundial. Mesmo na Europa e nos EUA, são frequentes os casos em que dá pra perceber nitidamente a intromissão das igrejas em questões educacionais - tanto a católica quanto as protestantes. No Oriente Médio então nem se fala.

No caso brasileiro, há uma diversidade maior de cultos, fruto da nossa história miscigenada e multifacetada. Nesse contexto, entram em cena também as chamadas religiões de matriz afro (candomblé, umbanda etc). E é aí que entra o caso em questão.

O fato é que é comum ver pessoas criticarem a Marina Silva por misturar política partidária com religião, ao mesmo tempo em que defendem o aluno que, apesar da forma mais branda, também queria misturar a religião, desta vez com a escola. E parece haver um certo choque aí.

É sempre bom lembrar que isso que a gente chama de 'educação escolar e laica' nunca foi muito o barato da religião. Se a Reforma protestante por um lado lutou pela possibilidade de tradução mais ampla da bíblia cristã, por outro o que eles queriam no fundo é que todo mundo lesse a bíblia e apenas ela. Ou seja, no fundo, a diversidade é sempre amputada quando se trata de religião. Por isso, é sempre bom deixar a religião longe do Estado e longe da escola. A não ser, é claro, como tema, cuja orientação deve ser sempre em função de defender a liberdade de culto na vida social, mas também o debate constante sobre os perigos da religião, quando se mistura a fé e o fanatismo com temas como o conhecimento, a política e a arte.

Nesse sentido, ou a gente coloca tudo no mesmo balaio e cria regras que mantenham a religião fora da escola, em todos os níveis, ou então libera pra todo mundo e inventa outra forma de educação laica (porque nesse caso a escola deixaria de merecer essa alcunha).

Há uma certa tendência, de certa esquerda, de considerar a atitude da proibição em pauta um exagero, simplesmente porque parece um preconceito contra um grupo historicamente oprimido. É preciso investigar se a tal diretora proibiu o menino por motivos cristãos ou por motivos laicos. Se foi por motivos cristãos, ela deve ser afastada. Não pela proibição em si, mas sim porque ela também misturou religião com escola - exatamente como o menino. Mas se foi por motivos laicos, aí ela no fundo tem tanta razão quanto aqueles que defendem que criança não deve ir pra sala de aula com bíblia na mão, ou qualquer outro símbolo que misture religião com educação. Ou a gente define uma separação radical entre educação e religião, ou então não vamos poder cobrar depois, quando outros pais de alunos entrarem numa de exigir que os filhos ganhem permissão pra ficar perambulando pela escola com uma bíblia na mão e repetindo os mantras paternos e maternos de "salvação dos pecadores" e outros blás blás blás, que nada têm a ver com educação de verdade. Certos problemas exigem uma postura um pouco mais radical, porque ou ninguém pode ou pode todo mundo. Abriu concessão pra um, acaba tendo que abrir pra todos. E aí, nesse caso, é melhor acabar logo com as escolas e transformá-las de uma vez por todas em igrejas. Como isso seria um atraso dos diabos (com o perdão do trocadilho), o mais coerente mesmo é manter a proibição, e estendê-la a tudo que seja badulaque religioso (inclusive a bíblia), pra sustentar uma efetiva e inegociável separação entre religião e escola. Um lá, outro cá.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mais um pouco sobre o 'efeito Marina'




Tenho visto aqui, em algumas postagens, que certas pessoas metem o pau na Marina Silva quando ela usa termos mais sofisticados, mas sem apresentar nenhum contra-argumento a eles. Isso me cheira àquele comportamento de massa típico, de recriminar toda e qualquer manifestação que se pretenda mais elaborada, pelo simples prazer de exaltar o simplismo como único parâmetro válido. Ou seja: "Falou 'difícil', eu não entendi, então eu condeno, ou então faço piadinha". E isso é muito ruim. É um índice de alienação claro (pra não usar outra palavra).


Talvez ela realmente se expresse de uma forma mais, digamos, "rebuscada", em certas situações. Ora, ainda que ela não seja uma sumidade, pra mim isso não é motivo de recriminá-la. Pelo contrário. Se todos elaborassem assim, o nível das campanhas ia subir, ficando menos pragmático, menos "repetição decorada de números", e mais 'ideias' (ainda que, óbvio, as ideias não dispensem o uso eventual dos números - o problema de hoje é que os números prevalecem e pouco ou nada se escuta além disso). Enfim, seria uma campanha mais inteligente. Não exatamente pelas ideias dela em si mesmas. Mas pelo 'efeito colateral' nítido de que os termos que nós não conhecemos nos obrigam a pesquisar, se a gente quer entender de verdade o que a outra pessoa tá falando. E isso sempre enriquece (ainda que no geral as pessoas prefiram a preguiça - e aí vem a calhar dizer que "é uma maluca, que só fala "bobagens intraduzíveis", uma "elitista" disfarçada com cara de povo", ou coisas do tipo).

Aliás, é o que tem acontecido, muitas vezes de forma espontânea, nesse caso da Marina. Algumas pessoas até criticam a forma dela falar - mas ao menos vão no programa da candidata, apontam detalhes dos quais discordam e fazem articulações entre os pontos do programa e outras ideologias. Por vezes isso é feito de forma meio "acavalada" e sem muita elaboração; mas já é alguma coisa. Melhor que ficar na discussão absolutamente acéfala das oscilações das pesquisas de intenções de voto, que na verdade não passam de partes de um mecanismo feito exatamente pra evitar que se discuta as coisas a fundo.

Espero que a Marina não ganhe. Mas espero também que essa lição deixada pela presença dela na campanha - mesmo que "sem querer" - seja aproveitada pelas pessoas para outras campanhas e tudo o mais. O cérebro da gente agradece.


Mani-festa hetero-regurgitofágica

Foto de Roberto Kusterle
imagem da série Galápagos



Revirão Gramatical:


Só haver
Terceira Pessoa
do
Sim, gular!

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

co-fusões

"coruja-livro" (sem data)
Redmer Hoekstra
(ilustrador e desenhista holandês)


loucura-analista
loucurnalista
loucualista
louclista
louista
losta
lta
a
loucuranalista

Lucy



filme

inter

ex

santíssimo

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O racismo e as misturas



Ultimamente tem rolado a divulgação de vários atos de racismo pelo Brasil afora: o pai e os dois filhos negros que são abordados pelos policiais acusados de roubo na porta de uma loja de sapatos; a menina que atacou verbalmente o goleiro Aranha do Santos, no jogo contra o Grêmio; o caso da foto dos dois namorados, a menina negra na frente e o garoto branco atrás, na qual várias pessoas fazem comentários racistas; e por aí vai. Não são poucos e merecem atenção e repúdio. E para além de exigir punições, que é a primeira medida, é preciso também elaborar a questão, porque, se a gente fica apenas na revolta e na acusação, acaba contribuindo com a lógica que rege a cabeça dos agressores. Elaboremos, então.

Primeiro, importante colocar que todos esses atos de racismo geraram respostas, algumas delas imediatas. O vídeo que mostra o pai e os garotos sendo vítimas do racismo dos policiais mostra também várias pessoas gritando "preconceito!, preconceito!", numa acusação direta aos PMs agressores; o caso da foto do casal gerou uma série de textos na internet, em sites, blogs e redes sociais, nos quais a maioria se mostra indignada com os comentários racistas; e no caso do goleiro Aranha, pelo que eu fiquei sabendo, parece que o Grêmio foi eliminado da Copa do Brasil, como forma de punição pelo racismo da torcedora. O mesmo deve acontecer com os policiais e com as pessoas que publicaram os comentários racistas. Devem ser punidos de alguma forma.

Além disso, é preciso que a gente analise também a forma como esses casos reverberam em certas releituras. Por exemplo, há textos que dizem que esses casos mostram que "Sim, o Brasil é um país racista"; outros afirmam categoricamente que "A chamada "democracia racial" do Brasil é um mito" e que a prova estaria exatamente aí, nestes casos relatados; e outros ainda dizem que o fato do Brasil ser "Um país de maioria negra" deveria ser mais um motivo para que os negros fossem respeitados, o que não acontece por haver uma minoria branca e mais poderosa, que sustenta o racismo pra continuar no poder. Importante pensar nesses pontos.

Primeiro, me parece que dizer que "O Brasil é um país racista" acaba sendo uma generalização. Se há imbecis racistas, há também pessoas que ficam indignadas com o racismo e que reagem quando rola algum caso como esses. A punição ao Grêmio e a indignação das pessoas na rua no caso da sapataria são provas de que há muita gente se movimentando pra responder a esse tipo de postura estúpida, e isso mostra que colocar o racismo na conta do país inteiro acaba sendo uma atitude precipitada.

Quanto à "democracia racial", me parece que o grande problema com essa expressão está muito mais no uso irrefletido da palavra 'democracia' do que com aquilo que a expressão representa de fato. Não vou entrar no mérito de escrever sobre a palavra, porque não é disso que se trata aqui. O que acho importante colocar é que, no meu entendimento, somos sim uma "democracia racial". E uma boa prova disso é exatamente o fato de que muitas pessoas têm se rebelado contra os racistas desses casos citados. Mas não fica aí. A característica miscigenada do Brasil é tão manifesta que até me perco na hora de escolher exemplos que demonstrem facilmente isso: no Brasil, brancos jogam capoeira (invenção negra), negros se formam em medicina (invenção branca), já tivemos índio deputado, os nomes de vários estados são indígenas (Paraná, Piauí, Amazonas, Roraima etc), enquanto outros são de origem cristã-branca (São Paulo, Santa Catarina) e há nomes de cidades que misturam tudo (São José do Rio Preto, São Bernardo do Campo etc); nossa língua também apresenta uma mistura que é nítida, com palavras de origem indígena (abacaxi, canoa, Grajaú, Iguatemi, Ipanema etc), outras de origem negra (babá, Búzios, cafuné, carimbo, farofa, guimba etc), além das que nasceram em Portugal - e sem contar aquelas que a gente vai incorporando de outras línguas, como o "abajur" dos franceses, o verbo "deletar", que deriva dos ingleses, o "álcool", que a gente pegou dos árabes, e o "sábado", que vem do hebraico. Querem mais? "Fralda" vem do alemão, "maestro" do italiano, "nanquim" do chinês e "quiosque" é uma palavra de origem turca. E se você troca a fralda do seu filho do lado de um quiosque na praia de Ipanema, tá aí um ato dos mais miscigenados. O problema é quando a gente fica preso apenas à cor da pele na hora de pensar sobre isso. Aliás, isso deveria mostrar a todos que aquele papo de "língua pura", se já não fazia sentido antigamente, o que dirá nos dias de hoje. O Umberto Eco tem um livro bem legal, que se chama "Em busca da língua perfeita", que, se lido de maneira inteligente, pode dar uma dimensão bem bacana de como esse tipo de delírio pode ser castrador. Bom, o fato é que "língua branca", "língua negra" ou "língua indígena", nenhuma delas resiste a um bom cruzamento ou a um bom poeta. O resto é purismo.

E aí entra o terceiro ponto. Na verdade, nós não somos "um país de maioria negra", como às vezes se diz. Isso sim é um mito - e não a "democracia racial". Segundo o Censo de 2010 do IBGE, os brancos somam 47,7%, seguidos pelos pardos (43,1%), depois por negros (7,6%), amarelos (1,1%) e indígenas (0,4%). Portanto, vejam só, o perigo do argumento a gente percebe exatamente quando vê que no fundo o Brasil é um país de maioria.. branca. Me parece que o grande avanço não é dizer que o país é de maioria A, B ou C. Isso é bobagem. E é bobagem justamente porque se limita a resumir uma pessoa à sua cor de pele, o que nem de longe diz o que nós somos. Dizer que nós somos um "povo misturado" não tem a ver simplesmente com os 43,1% de pardos que aqui existem. Porque mesmo aí temos um percentual que continua resumido à cor da pele. Nós somos misturados porque a cultura é misturada. E aí está a verdadeira "democracia racial" (apesar da expressão questionável) - como se pode perceber nitidamente na questão da língua. Isso não apaga as contradições, é claro. Cerca de 70% dos miseráveis são pardos ou negros e em geral os brancos mais ricos ganham 42 vezes mais do que os negros mais pobres. São fatos de uma realidade econômica brutalmente desigual e que deve ser pensada e modificada a cada dia. E pensada inclusive pelos negros, que não devem se limitar a cobrar do Estado o que ele tem obrigação de fazer, mas também refletir sobre as suas próprias responsabilidades nesse processo.

Refletir sobre esse tema pode passar inclusive pela consideração da hipótese de que esses casos de racismo estão aparecendo e ganhando repercussão justamente porque a forma do Brasil conviver com o problema é diferente da de outros países. Aqui tá começando a ficar complicado pros racistas, porque a galera rechaça mesmo. Entretanto, isso não pode descambar para uma lógica de afirmação pura e simples da "cor oprimida", porque se não se recai no mesmo problema. É preciso afirmar as cores, cada uma delas, mas não só elas em si mesmas. É preciso que a gente perceba que toda cor é, ela também, uma mistura. Uma mistura de pele com hábitos, de hábitos com formas, de formas com gestos, de gestos com mesclas, e por aí vai. Qual é a cor da capoeira? Já foi negra, mas hoje ela pode ter todas as cores. E a cor da medicina? Já imaginamos que era branca - mas hoje ela também pode ter todas as cores. E não se trata de usar percentuais nesse caso, porque mesmo que ainda haja mais capoeiristas negros e mais médicos brancos, a gente só muda essas visões sectárias quando sustenta, nos embates do dia a dia, que a miscigenação de tudo o que há deve vazar pra fora de todos esses 'segmentarismos" que a gente cansa de ver todo dia. Se houver uma forma melhor de combater o racismo, então me avisem, porque eu não conheço.