domingo, 18 de março de 2012

recorte sem fundo

"Dinamismo de um Automóvel" (1912-1913)
Luigi Russolo


Curioso que certo recato,
discreto, paciente,
afeito à meditação
e ao relaxamento
das exigências ferrenhas da adesão diária

faça

paradoxalmente

enxergar,
mesmo que de relance, claro,
essa velocidade incalculável
com que os instantes perdem-se
no gigantismo de suas variáveis
e ângulos
e traços
e tintas
e versos

essa falta de fundo
que contorna tudo o que há

e que as orelhas do gato conhecem bem,
sem precisar de poemas.

sábado, 17 de março de 2012

anoi-tecer

"Noite Estrelada" (1889)
Vincent van Gogh


Anoitecer de si mesmo,
proeza que amputa
os olhos
da vigília forte

As sobras de luz
que caem das estrelas
denunciam intestinos das coisas

O mundo à meia-luz
é mais sincero.

sexta-feira, 16 de março de 2012

vestígios

"O Violinista Azul" (1947)
Marc Chagall


A vida roubou-me amigos,
brindou-me com versos
e, dentre outras coisas outras:

presenteou-me

com os mosquitos,
para que eu acreditasse menos
na soberania dos corpos;

com a nostalgia,
para que eu pudesse
jogar damas com o presente;

com os gatos,
para que eu entendesse
que na natureza também há filosofia;

com os lápis, canetas e teclados,
para que eu pudesse inscrever no ar
os cubismos que me angustiam;

com os sonhos,
para que eu tocasse
na epiderme da verdade;

e com os livros,
para que soubesse que,
apesar de não haver de fato nenhum deus,
alguma religião é possível

quinta-feira, 15 de março de 2012

trocas

"Uma e Três Cadeiras" (1965)
Joseph Kosuth


Qual filtro,
passo pela cena,

roubo-lhe quilos,
devolvo-lhe rios,

mantenho-lhe plena

quarta-feira, 14 de março de 2012

passagem

"Zero Dollar" (1978-1984)
Cildo Meireles


apesar de bichos,
de olhos, de fezes,
de tosses e partos

apesar do sangue,
de peles, pulmões,
ereções

apesar da cultura,
de ritos e datas,
pontes
batinas

independentes dos genes
e de seus pares,
existem os poros:

invisível cotidiano a mostrar-nos
que nem tudo se resume
à higiene da folha em branco

a morte

"O triunfo da morte" (1562)
Pieter Brueghel

pulo a página,
esperando que o novo poema
do livro que leio
fortaleça-me o erro

idioma de brisa.

será que a vida é,
para a morte,
como aquele verso que passou batido,
na página anterior?

aquele
de que nem me lembro mais?

será que o esquecimento
é o braço do futuro distante
a manipular-nos qual fantoches,
preparando-nos para o inevitável?

se deus,
esse supremo álibi linguístico do narcisismo insistente,
realmente existisse,
a morte seria sua única invenção coerente:

o único poema
da história do firmamento

um fim irônico
para a prosa humana,
a maior heresia
da história do universo

segunda-feira, 12 de março de 2012

a[s coisa..

"A Árvore da Vida" (1909)
Gustav Klimt


Não há coisa no mundo
que não sofra
de outras coisas

como saber
o quanto de sol
contém uma pedra?

o quanto de ontem
contém um sorriso?

o quanto de mar
guarda um abraço?

coisas se infiltram
sem filtro
nas outras.
Coisas são outras.

coisas escrevem
capítulos inteiros de segredos
nos porões das outras

essa dança furtiva
que só vemos de raspão
no esboço dos sonhos

E a única explicação
para a existência dos nomes substantivos
é o medo humano
de se cortar nos cacos de vidro do tempo

domingo, 11 de março de 2012

Reflexão sobre a Revolução

"A Condição Humana" (1935)
René Magritte


Estava olhando uma postagem do facebook sobre a palavra "Revolução" e me deu vontade de refletir um pouco sobre isso. Para além dos ideologismos de plantão, cada um querendo propor a sua tese como a única a ser aceita, a palavra 'revolução' significa 'mudança'. E aí me parece que há um equívoco perigoso na visão de certas posições de oposição ao capitalismo, hoje em dia. Vamos tentar desenvolver isso.

De fato, já é muito claro, pelo menos para quem não é absolutamente alienado, que o capitalismo não é um bom sistema. Garante a possibilidade de gozos individuais, mas não sustenta coletividades. A não ser em países muito ricos, que de tanto explorar outros, conseguem garantir serviços sociais para seus cidadãos (o que, inclusive e paradoxalmente, os faz muito mais parecidos com o socialismo do que com o que é de fato o capitalismo em sua forma pós-moderna, o 'neoliberalismo', que vai minando as forças do Estado, em prol de uma liberdade quase irrestrita do mercado). Exemplos desse tipo estão lá no norte da Europa: Finlândia, Suécia, Noruega etc. Mas no resto é um "pega pra capá" danado, sem regras e cada um por si e que vença o mais forte.

Só que o mundo de hoje não se resume ao capitalismo. Se a gente pega uma constituição como a brasileira, por exemplo, percebe que mesmo no âmbito político, que geralmente é muito mais atrasado do que o debate teórico e do que a produção artística, por exemplo, percebe, nela-constituição, inúmeros símbolos que representam um diálogo que o nosso tempo mantém entre o social e o capital. É uma grande verdade que estamos cada vez mais afastados de um respeito relevante à constituição. E é verdade também que, no âmbito político partidário, o neoliberalismo tem prevalecido de forma quase hegemônica. Os contra-discursos, na lógica dos partidos, são, hoje, quase inexistentes. Alguns ainda insistem em dizer que defendem os trabalhadores e tal, mas o capitalismo já se adaptou a essa contradição há algum tempo, tornando esse viés, do ponto de vista efetivamente reflexivo, ultrapassado e, o que é pior, anestesiante. O fato é que os sindicatos se transformaram em joguetes políticos, o fato é que os "trabalhadores" acreditam na possibilidade de enriquecer, o fato é que o consumismo só aumenta.

Entretanto, insistamos, o mundo hoje não é só isso. Existe uma miríade de símbolos dialogando nas diversas culturas e isso tem que ser considerado por quem se predispõe a pensar a ideia da "revolução". Como disse antes, a arte e o pensamento teórico chegam sempre muito antes dos partidos políticos e do senso comum. É, portanto, didático acessar esse aspecto do nosso tempo através desse viés, para ver aonde vai dar.

Podemos fazer isso, por exemplo, analisando a dicotomia histórica entre as palavras 'regra' e 'transgressão'. Antigamente, no mundo das tradições (que, segundo o filósofo Anthony Giddens se esgota no século XVIII, justamente quando nasce a palavra "tradição"), a regra sempre prevalecia sobre a transgressão, fosse a regra que fosse. Ser ateu na Idade Média, nem pensar. Fogueira na certa. E assim foi até o surgimento disso que chamamos de "Modernidade".

A palavra "moderno" significa basicamente "novo". A Modernidade é a época que elege o progresso como santidade e empurra a tradição para um valor secundário nos discursos. E isso tem duas implicações, uma boa e outra ruim. A boa é que estar aberta para o novo permitiu à essa época conviver de uma forma mais branda com a transgressão. Gente que seria antes queimada viva, hoje pode defender suas ideias sem menores prejuízos, desde que não abuse demais. Mesmo que ainda exista resistência em vários grupelhos, que insistem em querer mandar nos outros de forma arbitrária, efetivamente estamos melhor do que na Idade Média, quando eu nem sequer poderia estar escrevendo isso.

A implicação negativa é que o excesso de apego ao novo geralmente gera uma pessoa completamente alienada do passado, que é onde residem todos os exemplos da história. E essa palavra, "exemplo", é fundamental para formar qualquer coletividade. Os exemplos também não foram eliminados, mas eles são cada vez menos acessados. As coisas, hoje, ao que parece, se não tiverem pelo menos uma aparência (!) de novidade, não servem. E essa é, inclusive, uma das causas da crise da educação, na medida em que a educação vive exatamente disso, de exemplos. E sem educação, não há coletividade que se sustente.

E aí vou terminando o círculo da reflexão, voltando ao tema inicial. Como falar de 'revolução' hoje, se a própria ideia da transgressão (que significa "confrontar a regra", exatamente o que faz qualquer revolução verdadeira) se transformou, ela mesma, na própria regra? Essas coisas não pegam mais (ao menos sem o uso da força) justamente porque a maioria já sabe que transgredir é sempre possível hoje. Vamos aos exemplos: muito se fala que a TV é uma merda. E eu sou um dos que mais falam isso. O problema é que obrigar as pessoas a desligarem a TV seria absolutamente contrário à ideia de "revolução". Na verdade, o fato de que as pessoas podem desligar essa porcaria na hora que quiserem já é, por si só, "revolucionário". Mudanças devem ser feitas na educação, sem dúvida. Mas ligar a TV e se informar por ela não é uma "regra". É uma escolha. Liga quem quer, se aliena quem quer. E esse é um dos grandes paradoxos do nosso tempo.

Enfim, o capitalismo deve ser cada vez mais atacado, sem dúvida nenhuma. Mas isso não vai ser feito em detrimento das conquistas da Modernidade. No geral, é preciso tentar conciliar as duas lógicas, a social e a da escolha. Porque se a gente estuda bem a questão, percebe que essa palavra, "social", guarda também nuances perigosas. No chamado 'social' residem também as ideologias cimentadas, que impedem as possibilidades criativas e reflexivas das pessoas. E outra sutileza reside no fato de que o sujeito absolutamente alienado, que concorda com tudo, é considerado geralmente um sujeito "enquadrado socialmente". E isso é muito perigoso. Da mesma maneira que é uma tolice divinizar a 'escolha', como se ela não fosse fruto de influências e como se ela não tivesse nunca consequências, é também tolice divinizar o 'social', como se ele não fosse muitas vezes um veículo de alienação ou o lugar de restrições exageradas à criatividade e à reflexão. Já vi muito "militante" tão ou mais sectário que muito capitalista de terno. O que é claro, não pode servir para os capitalistas usarem como defesa, dado o sectarismo notório do capitalismo.

O resumo da revolução parece estar no seguinte: "ser violento apenas em relação às ideias pobres e com pretensões alienantes e ditatoriais". Eu, por exemplo, acho que hoje é muito mais revolucionário e transgressor ler um livro sobre os heterônimos do poeta Fernando Pessoa do que militar num sindicato. Ou desligar a TV, que é muito mais transgressor do que o voto. E assim caminha a Modernidade...

sexta-feira, 9 de março de 2012

Crítica e arte hoje (e sempre)

"O Riacho" (1895-1900)
Paul Cézanne


Suzana Velasco assinou um excelente texto para o 'Prosa e Verso' do último sábado, falando sobre a questão da crítica de arte no mundo de hoje. E na medida em que o texto suscitou-me algumas reflexões, gostaria de trocá-las com os leitores interessados.

Em primeiro lugar, vale traçar um quadro geral sobre os temas mais importantes que ela aborda. Especialmente a relação da crítica com o mercado de arte; o diálogo da crítica acadêmica com a crítica que aparece na mídia (entendendo mídia não só como os jornais, mas também incluindo aí as revistas específicas da área); e a relação da crítica com as instituições ligadas à arte, especialmente às artes plásticas.

Separei três falas que me parecem ser as principais do texto, para pontuar dois tópicos que acho fundamentais para a questão e deixá-los para a reflexão daqueles que se aventuram a pensar.

Sérgio Bruno Martins diz o seguinte: "A função artística é irredutível a um discurso especializado e com a abordagem superprofissionalizada há um risco de um certo positivismo na história da arte. Há um embate entre apenas produzir mais conhecimento ou pensar a arte como ponto de criação de problemas. A gente tem que lutar para manter as dúvidas, e não as certezas".

E a outra vem de Ronaldo Brito: "A arte está cada vez mais se confundindo com o mercado de arte, e isso não é favorável ao pensamento crítico, que precisa entrar em contato poético com a obra. (...) Há pelo menos duas décadas, o museu [por exemplo] vem se tornando o lugar do entretenimento e do consumo, e não da experiência estética".

Já Paulo Sérgio Duarte coloca que "as secretarias de educação e cultura deveriam permear os currículos das diversas disciplinas com questões de arte".

É importante ler a questão de maneira ampla. Uma boa formação leva a pessoa ao conhecimento de que as noções de 'crítica' e de 'arte' se entrecruzam de maneira definitiva depois do Romantismo, para nunca mais se separarem. Toda arte tem que ser uma intervenção crítica e toda crítica tem que ser algo da ordem de uma 'obra', ou seja, uma contribuição no sentido de deslocar a obra-primeira de um eventual perigo de paralisia, que inclusive pode servir de denúncia acerca do caráter 'não-tão-crítico' de uma ou outra pretensa 'obra'. as fronteiras entre essas duas noções já estão borradas há tempos e o único momento em que elas se mantêm separadas é quando se começa a exposição pela parte didática da questão, que exige começar explicando o que elas eram destacadas, para então chegar ao momento em que se chocam na pulsão conjunta do Romantismo para cá.

Para além disso, acho que a intervenção crítica pode aparecer tanto na Universidade quanto na mídia, a despeito de considerar que as duas estão hoje em grande medida reféns do discurso de mercado, que atua nesses meios através dos dois elementos flutuantes considerados pelo Ronaldo, ou seja, o entretenimento e o consumo. A esses eu acrescentaria a figura da "opinião", que parte de um pressuposto restritivo, qual seja o de que arte é tudo aquilo que suscita uma visão absolutamente subjetiva e pessoal acerca da obra. É muito mais que isso, porque a obra, enquanto produção crítica, deve ter, na verdade, o poder de produzir algo que aparece na pista de um dos versos do Mario de Sá-Carneiro, quando ele diz algo assim: "Não me perdi de mim; permaneci em mim, perdido". O entretenimento não produz crítica porque só leva ao esvaziamento reflexivo; o consumo não leva à crítica porque se baseia do imediatismo e na relação de mero gozo com a obra; e a opinião também não leva à crítica porque tende a desconsiderar qualquer aspecto histórico que se relacione com a produção, o que esvazia o vetor de singularidade que deve permear a mentalidade crítica.

Acho que o Sérgio vai na mosca quando fala que a arte tem que ser uma "criação de problemas" e não de mero "conhecimento". Já sabemos que o que se chama de 'conhecimento' guarda ambiguidades graves, na medida em que a cultura atua principalmente através da ideologia para estancar o movimento do discurso e não permitir nenhum tipo de emancipação efetiva, a não ser por uma via que seja disfarçada. Ou seja, em outras palavras, no mundo de hoje, você pode até dizer que é livre, desde que continue comprando sem parar e desde que se mantenha defendendo a lógica do entretenimento-consumo-opinião. Um dizer vazio de sentido e de intervenção, como facilmente se percebe. A arte e a crítica (sempre lembrando que as duas são a mesma coisa, em essência) devem, então, ser elementos de superação dessa mesmice, que elevem a relação do sujeito com o mundo, no sentido de mantê-lo em movimento reflexivo e em estado de produção constante de nuances e enquadramentos acerca do que lhe aparece. Ou seja, no geral devemos sempre manter a chama que permite que, ao pararmos diante de uma obra ou de um texto crítico, nos questionemos com a já clássica expressão: "Que porra é essa?".

E isso se insere na fala do paulo, que lembra a importância de um trabalho que seja transdisciplinar, especialmente no campo da pedagogia. Claro que estamos falando de Brasil, um país que adotou uma mentalidade extremamente pragmática de uns anos para cá, o que interfere de forma brutal no processo didático. A grande maioria das pessoas tende a ver a arte como entretenimento, como bem de consumo ou através da lente míope da opinião. E o pior é quando isso vem dos professores e mestres. A educação de hoje é especialmente tecnicista e não tenho percebido na fala dos professores de maneira geral sequer a percepção do caráter "para-disciplinar" de suas própria disciplinas.. o que dirá entrecruzar a disciplina com a arte. Tem muita gente que ainda acha que a História é a ciência do tempo, que a Geografia é a ciência do espaço e que a física é a ciência dos corpos materiais e das fórmulas. Desse jeito, como entender a força estética de um quadro do Picasso, por exemplo, no sentido de colocar abaixo esses dogmas?

De qualquer forma, o texto tem vários méritos, como o de levantar essas questões, que certamente são tão importantes para aqueles que, como eu, ainda acham que a vida é mais do que esse tesão depressivo e narcisista da cantilena da mediocridade, pautada principalmente pela tríade entretenimento-consumo-opinião. Ainda bem que ainda podemos ir além...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Um dia para além da "mulher"

"A Floresta" (1929)
Tarsila do Amaral



As generalizações levam quase sempre ao erro. E eu digo "quase sempre" pra não cair justamente em outra delas. A generalização da vez diz respeito ao "dia da mulher". E aí lemos várias delas: "toda mulher é isso", "toda mulher é aquilo" etc etc.


Primeiro, vale dizer que a própria existência desse tal "dia da mulher" é equivocada. Dia da mulher é todo dia e dia nenhum, o que dá no mesmo.

E para além disso, essa mania de generalizar deixa de lado que existem mulheres que são mercenárias, mulheres que são vingativas, outras que são estúpidas e muitas que são fúteis e que resumem suas vidas a shopping-center, novela, fofoca e dinheiro.

Portanto, sem delongas e sem generalizar: Em que pese a minha total discordância disso de "dia da mulher", um parabéns especial a todas aquelas que conseguem superar a sua sintomática e serem mais que apenas 'mulher'. Em linguagem freudiana, parabéns àquelas que conseguem frequentemente sublimar a sua genitália e produzir algo mais..

quarta-feira, 7 de março de 2012

do outro lado de cá

"O Colosso" (1808-1812)
Francisco de Goya


o silêncio é um prédio
sem portaria

um oceano que se move
em ondas que não vemos

o homem inventa, então,
castelos de areia
no vento das horas:

ciências, congressos,
dicionários, telescópios,
mapas, asfaltos,
vacinas, diques,
equações, nomenclaturas

e outras ataduras.

Tudo diminutivo
das sombras de Goya.

terça-feira, 6 de março de 2012

?

"Minotauro nº 9" (1936)
Henri Matisse


Poema é
isso
mesmo:

um boi
passeando na Rio Branco;

um avião
atracando no porto;

a onda
que bate em sua porta;

o sorriso irônico
da pedra;

chuva
de pontos de interrogação;

um passo
em falso;

o vazio
sem tampa;

o ponto
que espanta;

Poesia não vale.

sobra..

domingo, 4 de março de 2012

Vanguarda Líquida

'Homem com Cão' (1953)
Francis Bacon


Em um dos versículos da bíblia do caos, Millôr Fernandes escreve, em letras maduras, que "não há vanguarda sem retaguarda". O que esperar, então, de um mundo que elegeu no passado um defunto maldito? Uma época sem exemplos e sem projetos de efetiva mudança. A vanguarda se resume a meia-dúzia de espasmos criativos, enquanto que a ausência de acesso à retaguarda gera um desprezo brutal pela verdade, que pinta a nossa época com as cores do cinismo. Ou seja: um bando de ecos fantasiados de fetos.

Na guerrilha silenciosa do dia a dia, entretanto, alguns símbolos mantêm-se estrangeiros a isso. É possível enxergar, na sombra do voo da modernidade líquida, resquícios dessa vanguarda respaldada pela história e pela manutenção da crítica como aporte. Sem ética, estética, história e crítica, nada de novo se faz. É cada um defendendo o seu próprio vazio e gozando o masoquismo da pobreza de todos esses confessionários públicos sem sentido que vemos aos montes por aí.

Se sua consciência em estado de vanguarda acessa a história, diz não imediatamente a qualquer ideologia; a qualquer credulidade; a qualquer repetição acrítica das pseudoriquezas dominantes. Passa, ao contrário, a mergulhar em trajetórias curvadas, cujo alerta é sempre em relação a qualquer símbolo que insinue um ou outro grau de potência anestésica.

A dica final parece estar em Cioran: "Uma biografia só é legítima se põe em evidência a elastividade de um destino, a soma de variantes que comporta. Mas o poeta segue uma linha de fatalidade cujo rigor nada abranda. É aos néscios que a vida cabe como quinhão e é para suprir a vida que não tiveram que se inventaram as biografias dos poetas" ('Breviário de Decomposição', p. 104).

Exatamente por isso, a antibiografia dos heterônimos do poeta Fernando Pessoa me parece, sem sombra de dúvida, melhor do que todos os manifestos políticos feitos até hoje. Um dos maiores rastros críticos que a história poderia ter deixado para nós. Por trás de todas as embalagens que produzimos até hoje para cada espírito, reside uma verdade que pode ser refletida no espelho convexo dos poemas de Pessoa. Vanguarda e retaguarda entrecruzados em elipse. Alguma coisa que, apesar de tudo, continua...

quinta-feira, 1 de março de 2012

patologia alfabética

"A Traição das Imagens" (1928-1929)
René Magritte


Mistérios do alfabeto:
letras que se unem em passeata,
atando os passos
de um destino qualquer.

Fantasias que colamos às coisas,
animais poetas que somos.

Como conseguiram colocar
a palavra velocidade
no dicionário?

Mistério...

E a palavra silêncio?
Quer contradição maior?

O que significa
exatamente
o verbo desconhecer?

E impossível,
como supor
um sinônimo para ele?

Vazio,
impasse,
espanto,
Há resumo para tanto?

Ora,
nesse reino do estranho,
lugar sem mapa,
no qual dançamos
nosso tango perdido,

onde a poesia
é a epiderme
de todas as cenas,

um breve momento
de lucidez:

a mais absurda de todas elas
é a palavra óbvio:

o maior delírio esquizofrênico
do alfabeto...

O quadro sem fim da atualidade

"Concetto Spaziale - Teatrino" (1962)
Lucio Fontana


O facebook tem me dado muita satisfação, de saber que ainda tem bastante gente que gosta de pensar para além das cartilhas e que ainda mantém indignação com tudo isso que está por aí, muita coisa errada, muita injustiça, muita roubalheira, passividade, ignorância etc. Mas tem também um outro lado, que é o das pessoas que se aferram a ideias equivocadas e ficam repetindo tolices, sem o menor sentido, sem o devido cuidado e elaboração. Algumas dessas pessoas, inclusive, acham que são de esquerda, quando na verdade apenas repetem o status quo, muitas vezes sem nem perceber.

Primeiro, vale pensar sobre o que é isso, ser "de esquerda". Para saber se você é "de esquerda", basta entender como funciona o mundo da sua época e, mais largamente, como funcionaram todas as ideologias dominantes da história. Uma das grandes descobertas da nossa época é a da relatividade das versões. Não que toda verdade seja descartável, não é isso que estou dizendo. A relatividade das ideias preza que toda tese tem prazo de validade. Mesmo que ela diga bem o que está se passando no mundo, ela não é eterna. Pode até durar séculos. Mas não é absoluta. Vamos voltar a isso. Por enquanto, continuemos.

O nosso mundo funciona a partir de algumas repetições bem claras, que definem a ideologia do nosso tempo: o neoliberalismo; a economia como totem; o entretenimento como ilusão de relacionamento com as coisas; a mídia como ilusão de informação de qualidade; o pragmatismo; a postura de massa; a aversão ao pensamento intelectual; o 'popular' como retórica dominante. Essa é a 'direita' da nossa época. E para ser "de esquerda", é preciso contrapor alguma postura a isso. E eu não estou falando só de partidos políticos, porque essa postura é de consciência, uma coisa que todos têm. Para ser de esquerda, não é preciso estar filiado a algum partido político, assim como também não é preciso essa filiação para que a pessoa seja "de direita". Esse papo de "centro" é que é, para mim, o grande embuste. "Centro-esquerda" pior ainda, porque é cinismo. O que chamam de "centro", se a gente olha direito (e não com os olhos da mídia), não passa de uma posição de adesão, acordos excessivos e nenhuma postura de confronto com a lógica errada que está aí. Todo "centro" é na verdade, "direita".

E aí, vale dizer que existem dois tipos de pensamento que se auto-definem como esquerda. Um é o tradicional, que propõe que existe um tipo de sociedade ideal, que seria a solução para todos os conflitos humanos e que "resolveria os problemas do povo". O outro é o da esquerda que entende que a questão não está em arrumar solução definitiva para nada, mas sim estabelecer posições críticas em relação ao que está aí, para gerar exemplos, que podem ser seguidos ou não. O Michel Melamed deu uma entrevista há alguns anos, na qual dizia que o barato hoje seria exercitar o que ele chamava de "patriotismo platônico". Ele explicava dizendo que apesar da superação das fronteiras simbólicas, que o mundo hoje já entendeu ser fundamental para o avanço das consciências (a "relatividade" de que falei antes), era preciso manter em estado de conflito essa própria verdade, para que ela não caísse em xenofobia, ou em um relativismo absoluto e vazio. Em outras palavras, entender que nascemos no Brasil; entender que, apesar disso, ser brasileiro não nos resume (senão fica aquela babaquice de dizer, por exemplo, que música clássica não serve, porque não foi feita aqui, uma besteira sem tamanho); e entender que apesar de não podermos ser resumidos em nada, temos que exercitar nossa diferença, de uma forma crítica, reflexiva e respeitosa para com os demais.

A questão é que há uma galera que se diz "de esquerda", mas que fica repetindo ideias que, por baixo dos panos, representam apenas a vontade de dizer o que os outros devem fazer no âmbito das consciências. E nessa época-PT, na qual virou moda todo mundo dizer que é "de esquerda", não falta gente assim. É preciso desmistificar isso. A verdadeira posição de esquerda é aquela que olha para qualquer verdade com "olhos de suspensão". Vou contar um exemplo que ganhei da vida: certa vez, ao participar de um grupo de estudos de história da arte, fui levado a uma exposição do pintor Iberê Camargo. As pinturas eram enormes e ocupavam paredes inteiras. E então, o orientador do grupo nos exigiu um exercício inusitado: "Vocês vão ficar ali, parados, durante meia-hora, avaliando um desses quadros. Escolham um e boa sorte". Na hora não entendi muito bem a mensagem, mas tentei. E depois fomos para o debate e as considerações de cada um. Hoje, posso dizer que aquilo foi um dos maiores presentes que ganhei da vida para a minha formação ética, moral e intelectual. A mensagem passou a ser clara para mim, pouco tempo depois: o primeiro olhar é sempre viciado. Viciado de reducionismos, viciado de neuroses, viciado de visões pré-concebidas, viciado de falta de elaboração. Viciado, enfim, de falta de ética, na medida em que ética é um exercício efetivo de diferença. Quanto mais olhava para o quadro, mais detalhes que tinham sido imperceptíveis ao primeiro olhar iam aparecendo para mim. E uma pintura que inicialmente eu resumiria em três ou quatro frases, passava a se tornar um capítulo inteiro de nuances, sutilezas, impasses e dobras de realidade que multiplicavam o meu repertório. E então lhes digo: essa é a única postura de esquerda possível.

O que se tem feito com relação às massas, e pelas próprias massas, hoje, é exatamente o contrário. Como o marketing virou parte da lógica dominante, você tem sempre que achar um jeito de agradar a audiência. E a retórica do "popular" caiu como uma luva nessa "exigência" de época. Assim, a educação vai definhando, como mera repetição técnica; o verdadeiro intelectual vai sendo visto pelas pessoas como um ser hermético e inatingível (como se "atingir" fosse a verdadeira questão); e o lugar que deveria ser o da consciência emancipada e pronta para os debates e conflitos de ideias vai sendo preenchido por uma mentalidade rasteira, que exige apenas pão e circo. Pão é fundamental, porque se não a pessoa morre de fome. Mas a história da humanidade mostra que se der pão e não criar condições de emancipação intelectual, a fome pode voltar. E obviamente, viver não pode se resumir a comer, porque senão voltaríamos a ser bichos novamente.

O ensaísta gaúcho Luis Augusto Fischer tem uma crônica muito boa, que sempre distribuo para os alunos, e que ele escreveu no ano de 1998. Ela é bastante atual e está publicada numa coletânea sua, chamada "Contra o Esquecimento", da editora 'Artes e Oficios'. O nome da crônica é "Democracia sem Iluminismo" e sua tese principal é a de que estamos vivendo um mundo no qual aprendemos que pensar é um exercício de liberdade e de escolhas, mas sem o entendimento de que para exercitar essa liberdade e essas escolhas é preciso estar sempre ampliando o seu olhar e o seu repertório crítico. Fischer sacou uma das maiores verdades do nosso tempo: a noção de "esclarecimento", que surge com os filósofos iluministas, está sendo jogada no lixo, e sendo substituída por um pragmatismo pobre e sem potência de reflexão, o que só contribui para manter as coisas como estão.

Não é possível se iludir com esse pragmatismo. Não existe democracia sem esclarecimento. Não é possível liberdade de escolha sem aumento de repertório. Quanto menos a pessoa conhece, mais fácil se torna massa de manobra da ideologia dominante e dos malandros de plantão. E com um detalhe sórdido da nossa época: a besta senta na poltrona e recebe diariamente a masturbação egóica do marketing: "Você em primeiro lugar"; "É porque você existe..."; "Você S.A."; "Globo e você, tudo a ver"; "Você é a nossa razão de ser". E aí, a salada está completa: o iludido afunda cada vez mais na ignorância e, o que é pior: gosta. Lembram daquela personagem? "Eu gostchooo!".

E o pior de tudo são esses pseudo-pensadores, que leram um ou dois autores e acham que enquadraram o mundo e a história nos dois. São os que mais me deixam desapontado com o reducionismo atual. Isso porque não aprenderam que dois minutos não resumem um quadro...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A poesia que de mim parte

"As Casas do Parlamento" (1905)
Claude Monet


Algumas pessoas, depois que leem os meus poemas, me perguntam porque não escrevo poemas românticos. E isso sempre me estimula a explicar que a poesia é bem mais do que se entende no senso comum.

Como em todos os campos de conhecimento humanos, a linguística, a teoria literária, a filosofia, a teoria da psicanálise e a estética já produziram algumas besteiras. Mas, se você entende que essas besteiras são imediatamente abandonadas conforme a pessoa vai avançando (mesmo) nos estudos, vai sacar que nesses campos está a produção de ponta da história da humanidade, quando determinados pensadores param durante um bom tempo para refletir e pesquisar sobre um assunto qualquer, com o objetivo de elaborar uma produção enriquecida sobre as coisas. E assim aconteceu com a poesia.

Não vou usar esse texto para dar uma aula de história da poesia, porque ficaria extenso e não é necessário, para explicar o que pretendo. Mas vale um pequeno mergulho no tempo.

Falando em história, o primeiro poeta conhecido, Homero, é também considerado por alguns como uma espécie de fundador da historiografia, na medida em que compôs seus principais textos, a Ilíada e a Odisseia, para narrar os acontecimentos que envolviam a famosa Guerra de Tróia e o retorno dos vencedores para casa. Além de ser curioso saber que um poeta foi o primeiro historiador, isso aponta para uma pequena sutileza, pouco observada: isso era possível porque a mentalidade grega trabalhava com um tipo de hábito narrativo bastante diferente do nosso. Enquanto hoje somos excessivamente denotativos (o que a forma do discurso noticioso, que agrada à maioria, mostra bem), os gregos eram mais metafóricos, ou seja, faziam mais 'teatro' com a linguagem. Isso permitiu, portanto, que enxergassem em Homero um homem de História, além de poeta.

Pois bem. De lá para cá, muita coisa mudou. A História se destacou da poesia e assumiu formas mais mecanicistas. Durante muito tempo, o discurso dos historiadores foi pautado quase que exclusivamente pela noção de "documento" (que ainda hoje é a que norteia a retórica da imprensa, por exemplo - mesmo que ela utilize várias vezes o discurso subjetivo, no disfarce). Enquanto isso, a poesia avançou para novas formas narrativas, passando pelas temáticas amorosas na Idade Média, pela tentativa de Camões de resgatar a epopeia, no Renascimento, pela temática religiosa do Barroco, até desembocar num período que é chave no processo, que é o Romantismo.

O Romantismo, como dizem os estudiosos de estética, foi um período de enamoramento entre a filosofia e a poesia, ou, de forma mais ampla, entre a filosofia e a arte. Mas isso não aconteceu por acaso. Depois que Descartes e Kant nos trouxeram a percepção da importância do pensamento para definir o indivíduo ("sujeito", "ser") humano, começou então uma corrida para tentar entender que tipo de produção conseguia se assemelhar mais à forma do pensamento. E então, o ser humano, que passou mais de mil anos achando que era apenas um traste sem autonomia, totalmente entregue aos desígnios divinos e religiosos, descobriu que era, na verdade, o grande criador de suas próprias ilusões e verdades. E a virada fundamental está exatamente no famoso "penso, logo existo", do Descartes. Essa frase, traduzida, significa basicamente "existo porque penso". E como o pensamento é exclusivamente individual, isso apontava definitivamente para a autonomia da mente, alçada ao posto de principal motor da existência humana.

Todos os grandes filósofos e pensadores posteriores ao Descartes dialogaram com essa frase, uns de maneira mais aprofundada, outros menos. Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Freud, Heidegger, Sartre, Foucault,  Adorno etc. E é importante colocar que o Descartes não estava propondo uma receita para um bolo que ainda não tinha sido inventado. Estava, ao contrário, traçando as linhas de uma evidência, ou seja, estava mostrando ao ser humano que o pensamento era muito mais importante do que se imaginava até então. E se isso parece óbvio hoje em dia, devemos muito a ele.

Voltando à poesia, ela avança nessa mesma direção. Ou seja, se as descobertas da filosofia apontavam para o papel protagonista do pensamento na vida humana, a poesia, enquanto arte, passava, então, a querer exercitar essa verdade. E assim, os poemas passavam, aos poucos, a tentar reproduzir a forma como funciona a mente humana, em todas as suas nuances.

E então, isso leva a duas consequências fundamentais para entender a poesia atual. Primeira: a poesia passa a exercitar-se especialmente enquanto "sugestão". Isso é bem claro: se o pensamento do outro (e o meu mesmo, para o outro) é inatingível, só posso "reproduzir" essa verdade através da sugestão. E segunda: junto com o entendimento da sugestão, aparece também a necessidade de desconstruir todos os discursos que se forjem denotativos demais. Claro, porque, se o pensamento é inatingível, então é na desconstrução da linguagem que está a proteção contra toda e qualquer narrativa que se pretenda absoluta e completa em relação ao real.

Por último, vale dizer que no senso comum as pessoas geralmente consideram que "romântico" é tudo aquilo que fala de amor. Mas "romântico" é, na verdade, tudo aquilo que se conecta com as descobertas do período Romântico, que na realidade são variações da mesma descoberta, ou seja, a de que filosofia e arte pactuam da mesma força de ampliação da verdade descoberta por Descartes: a de que a individualidade do pensamento é inesgotável.

De lá pra cá, o que fizemos foi tentar exercitar, das mais variadas formas, as verdades do Romantismo. A poesia se tornou definitivamente 'sugestão' e 'desconstrução'. Sem isso, não há poesia. E é por isso que é possível dizer que todo poema moderno é também um pouco "romântico". Não no sentido comum da palavra, mas no sentido histórico.

Cada poeta vai exercitar isso da sua maneira, através das suas influências intelectuais. No meu caso, a desconstrução tem atuado muito nas fronteiras das formas e das próprias palavras. E conforme vamos lendo outras coisas, vamos ampliando nossas desconstruções. Há, inclusive, uma espécie de "ética", que acho radical na poesia: conotar a linguagem significa mandar a seguinte mensagem para o leitor: "Você pode pensar sozinho. A sugestão existe para que você complete, com a responsabilidade da sua leitura, o restante da narrativa". Claro que isso assusta muita gente, especialmente os pragmáticos, que adoram dizer que existe uma "realidade concreta". Sejamos, entretanto, pacientes com eles. Não leram bem o Descartes e, muito menos, as belas contribuições do Romantismo..

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

ideias

"A nave dos Loucos" (1490-1491)
Hyeronymus Bosch


ideias dormem
sangram
praticam aborto

morrem
ressuscitam
e puxam a perna
do presente

ideias fingem
dançam
e explodem,
sementes

ideias mentem
confirmam
afirmam
e negam
egos e eras

ideias contaminam preguiças
a-portam
navegam
naufragam

ideias são isso:
mestiças.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sobre os dois lados do tapete



A principal diferença entre a filosofia (e os demais campos críticos) e a grande mídia pode ser ilustrada num exemplo simples.

Imagine uma sala vazia, que tenha apenas um tapete daqueles persas, antigos e bonitos. A sala recebe o tratamento de limpeza de um empregado diariamente. Mas o tal empregado é meio preguiçoso e se limita a empurrar a poeira que varre para debaixo do tapete persa.

Vamos então à diferença:

A grande mídia mostra todo dia o tapete limpo, exaltando as qualidades do empregado, que, todo dia, cumpre o seu papel de forma digna e sem equívocos.

Já a filosofia levanta o tapete, mostrando que, em muitas ocasiões, a aparente limpeza de uma cena esconde um monte de sujeira que não pode ser percebida na superfície. O lixo descoberto pode gerar, inclusive, um cheiro desagradável, que incomoda muita gente, que prefere uma mentira cheirosa a uma verdade fedorenta.

É por essas e outras que "se informar" pela mídia só vale a pena se você entende que aquilo é apenas uma das aparências possíveis, um efeito de verdade que só interessa a determinados grupos dominantes. "Se informar" mesmo só se você acessa as fontes verdadeiramente críticas, aquelas que ampliam as cenas até a esfera dos detalhes e sutilezas. Não para posar de descrições absolutas da realidade; mas para mostrar que "as aparências enganam" não é apenas um ditado popular...

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O meio e a ausência de fins...

"A Captura de Sansão" (1609-1610)
Peter Paul Rubens


T. J. English, autor do livro que estou lendo, "Noturno de Havana" (que conta a história de como era Cuba antes da Revolução, dominada por mafiosos e pelo ditador Fulgêncio Batista, que recebia propinas frequentes dos bandidos), nos traz um comentário interessante sobre Arnold Rothstein, um judeu de Nova York que era o cabeça da parte financeira da máfia dos EUA na década de 30.

Depois de descrever os tipos de crime que o sujeito cometia, o autor continua da seguinte forma: "Rothstein também era um criador de mitos. Ele entendia o apelo do lado obscuro para um tolo mediano. Vindo de uma origem modesta no Lower East Side, ele sabia que parte do que faz o mundo do crime irresistível - uma arena na qual jovens podem ser atraídos como mariposas ao fogo - envolve criar um meio, em parte realidade, parte ficção, em que todos querem estar" (p. 71).

Pausa para um pouco de história. A dicotomia entre o Bem e o Mal comparece em toda a história da humanidade. Nos mitos antigos; nas tragédias gregas; nas várias artes que manifestam as impressões dos seres humanos sobre a vida em toda a história; no pensamento político; na filosofia; etc. O tema do Bem era caro para Sócrates e Platão, que criticavam os sofistas por seu utilitarismo; para os medievais, o Mal estava na ausência de crença cristã (além de em outros símbolos, como era o caso das mulheres, na caça às bruxas); Maquiavel nos traz o seu "Príncipe", que começa a relativizar a questão, apontando para o fato de que a distinção entre Bem e Mal vai depender da situação; Hobbes e Rousseau protagonizaram o embate sobre a essência do homem, "boa" para o primeiro, "má" para o segundo; Nietzsche relativiza ainda mais, com o seu "Para além do Bem e do Mal", que define o próprio "valor" como medida a ser sobreposta pela mente crítica; enquanto Freud nos esfrega na cara o lado "mal" do princípio do prazer, que deve ser sempre confrontado por um certo mal-estar, para que haja vida em sociedade.

Hoje, vivemos uma época que relativizou isso a um nível de compreensão que supera todas as eras anteriores. Sabemos, hoje, que o "bem" do ladrão é roubar; que o "bem" do criminoso é não ser pego pela lei; que o "bem" do senhor é manter o escravo; e por aí vai. Há uma tese bem interessante sobre isso, num livro chamado "Crítica da Razão Cínica", do filósofo alemão Peter Sloterdijk. Não sei o livro já foi traduzido para o português, mas já li análises muito boas dele, em dois livros: "No Círculo Cínico" (de Ricardo Goldemberg) e "Psicanálise: Arreligião" (de MD Magno). A tese é simples: estamos vivendo a época do discurso cínico, que é o discurso que trata a transgressão como um fator positivo e de forma velada. É o cara criticando os políticos e dizendo que se estivesse lá também roubaria. Cinismo claro.

E aí podemos analisar a contribuição da frase de English. O nosso "lado obscuro" tem um forte apelo sobre todo mundo, porque ele faz parte da gente. Somos tudo junto, um pouco controlados, um pouco violentos, um pouco inteligentes, um pouco insanos etc. E o que torna a transgressão criminosa algo irresistível é justamente um meio no qual ela se torne algo "válido" para a maioria. É claro que não dá pra ser inocente e achar que nenhuma transgressão tem valor. O fato é que já nasceu muito casamento bem sucedido de um adultério. Mas é preciso debater alguns assuntos, porque expôr crianças a exemplos criminosos, por exemplo, sem uma contrapartida crítica pode de fato aumentar a probabilidade de que ela veja aquilo como uma atitude saudável. Como o Freud já ensinou, não se constrói sociedade sem um mínimo de mal-estar, sem um "não pode", sem punições para determinados excessos que sejam cometidos.

Entretanto, o "meio" em que todos querem estar, hoje em dia, é o meio da riqueza financeira, de preferência de uma maneira que permita manipular outras pessoas para o seu bel-prazer. O tal "meio" é o meio da liberdade absoluta, na qual se faz o que quer, sem se preocupar com os outros e com as consequências. O "meio" hoje em dia, enfim, é o da "lei" do Gérson, a 'não-lei' de se querer levar vantagem em tudo, sempre. E é isso que qualquer educação decente deve combater. E não ficar centrando o seu projeto político-pedagógico em preparar aluno pro ENEM, como se a escola fosse meramente um meio utilitário para se chegar na universidade.

Se hoje as crianças falam abertamente e sem o mínimo pudor sobre o crime como algo que pode ser até mesmo vantajoso, é porque a maioria esmagadora das pessoas já aderiu, muitas vezes sem nem sentir, a essa retórica em seu dia a dia. É o Fantástico mostrando o Eike Batista como exemplo; é a escola que não expulsa o aluno baderneiro porque tem medo de perder dinheiro; a universidade que pede pro professor pegar leve com os alunos, porque um conteúdo pesado demais pode assustar os "consumidores"; são os pastores que usam o dinheiro dos fieis para comprar mansões e carros do ano; e todos aqueles que espalham que "fazer o bem" é coisa de otário. Esse é o meio em que hoje a maioria quer estar. Um "meio" que em muito se assemelha àquele projetado pelo mafioso do livro. E é na crise atual da figura da lei que reside o grande paradoxo moral do nosso tempo: todos querem transgredir, contanto que o próprio rabo não fique na reta. Meio difícil... e é por essas e outras que a ideia da "liberdade" deve ser sempre rediscutida. Porque ela está sempre em confronto com o que muitas vezes não queremos para nós. Mas esse tipo de debate parece cada vez mais longínquo, na época do cinismo galopante...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Inteligência, para além da carência...

"O Nascimento do Mundo" (1943)
Salvador Dali


Quer realmente fazer uma revolução na sua vida? Pois então, vamos exercitar isso (parece discurso de auto-ajuda, mas não é: muito pelo contrário).

Todo o problema da ditadura econômica que vivemos hoje se resume ao tópico da adesão ideológica. O que soa até redundante, porque tudo o que é ideológico é da ordem da "adesão". E para analisar bem isso é preciso um pouco de história, mas de forma crítica. E por que de forma crítica? Porque senão a gente fica repetindo o que já foi dito e não contextualiza. Vamos então a ela.

Vivemos hoje um sistema que é chamado de "capitalismo". O capitalismo é baseado na crença de que o mais importante está nas trocas baseadas no binômio lucros-juros, que não existiam antes do século XV (eram proibidos na Idade Média) e que se expandem exponencialmente a partir da chamada "Revolução Industrial", no século XVIII. O que sustenta o capitalismo, na ideologia, é o protagonismo da ciência da economia, que nasce, mais ou menos na mesma época, para justificar, no plano representativo, o que o capitalismo é no plano político, ou seja, a ganância dos países hegemônicos da época, que gastaram todo o seu espaço interno, em busca de lucro. Não estavam 'satisfeitos'...

Ficou claro, desde cedo, para a maioria dos capitalistas interessados em criar uma "descontinuidade" para o seu discurso (ou seja, para que ele parasse de "continuar", ou seja, para que ele não mudasse mais, mantendo-se capitalista para sempre), que precisariam gerar uma lógica na qual a "carência" fosse o símbolo dominante. Nas sociedades anteriores, as relações entre as pessoas e os objetos eram mediadas pelas tradições milenares, ou seculares, que em geral desenhavam para o sujeito, em sua vida comum, uma aparência de "saciação" simbólica, na medida em que ser o proprietário de um objeto que representava uma exigência inquestionável gerava um sentimento de satisfação efetiva nos indivíduos. Ora, se o objetivo é expandir o lucro e os juros, então as pessoas não podem nunca se sentir "satisfeitas", no nível dos objetos de posse. A própria ideia de 'posse' deveria ser reorientada, para que o apego fosse apenas à carência-ela-própria, e não aos objetos que forjavam o preenchimento dela.

Em suma, então, o capitalismo funciona porque, no plano ideológico, conseguiu convencer as pessoas de que a 'insatisfação constante' é um valor absoluto, inclusive em relação às mercadorias. Mas há aí um importante paralelo a ser feito.

A chamada "Modernidade" - que, coincidentemente ou não, aparece junto com o capitalismo - expôs a falácia do caráter absoluto das tradições, mostrando aos indivíduos que a 'insatisfação' é um fator importante para que se crie coisas novas e, principalmente, pensamentos novos. Ou seja, não se aprende nada novo, não se faz nada de novo, se a gente fica apegado de forma absoluta a um conjunto de símbolos que foi imposto há séculos e que não é necessariamente o fim da história. Toda a história das grandes descobertas humanas se baseia nessa descoberta principal, a de que a verdade nunca é definitiva: assim agiram todos os grandes pensadores da história, como Platão, Galileu, Kant, Nietzsche, Einstein, Beethoven, Van Gogh, Picasso, Kafka, Dostoievski, Machado de Assis, Charles Chaplin etc etc etc. 'Insatisfeitos' com o que estava feito, foram lá e fizeram mais. Criaram e empurraram o discurso para o movimento, para uma "continuidade", enriquecendo assim o conhecimento da história.

Pois bem. Estamos diante da grande contradição do nosso tempo. De um lado, os grandes da história nos mostraram que há um lado extremamente positivo na 'insatisfação'. É ela que nos mantém diante da verdadeira verdade da vida, ou seja, a de que nada explica tudo e nada resume tudo. Toda cena possui infinitas nuances, todo acontecimento guarda detalhes incontáveis, toda verdade é apenas uma parte muito pequena do quadro inteiro, que só existe enquanto uma cascata em movimento ininterrupto e impossível de ser acompanhado em sua forma total. Assim, podemos sempre criar visões novas da realidade. Podemos sempre fazer poesia, podemos sempre investigar novos detalhes da realidade, porque ela nunca está descrita de forma completa (apesar de ser fundamental entender as formas já descritas, para que não se caia num relativismo tolo e contraditoriamente repetitivo).

Entretanto, no plano dos objetos de consumo, isso ganhou outros contornos. A insatisfação capitalista gera - ao contrário da outra - carência, frustração constante, sensação de fracasso, depressão e, o que é o mais relevante, uma constante diminuição do repertório crítico e intelectual no imaginário dos consumidores. E por quê? Porque o desejo de troca incessante, na relação de consumo, não é pautado pela vontade de criação, mas apenas pela mera substituição dos objetos, pura e simplesmente.

Não é à toa que a depressão é considerada a doença do século XXI por um crescente grupo de estudiosos da psicanálise. Podemos resumir as diferenças a partir da grande promessa do capitalismo atual: "satisfação garantida ou seu dinheiro de volta". Entretanto, as pessoas sempre 'voltam', para trocar seus objetos, que rapidamente se tornam obsoletos, o que mostra que a satisfação não era de fato 'garantida'. Completamente diferente da lógica que rege os avanços do conhecimento, feitos por aqueles grandes nomes que citei anteriormente: eles mostraram que a satisfação, no conhecimento, nunca é 'garantida'. É sempre possível - e, mais do que isso, fundamental - tentar mais, tentar novas posturas, novas atitudes, novas criações. O oposto do que prega o mercado, que só fala em "inovações" se a coisa estiver atrelada ao lucro. Ora, se o mundo é o mundo do lucro, inventar algo aparentemente diferente, mas que gere apenas lucro, não tem nada de efetivamente novo. O capitalismo, enfim, é um enorme produtor de carências, e não de criatividade.

E é exatamente por isso que a educação crítica é o tempo todo boicotada pelos que lucram com esse sistema. Porque uma educação efetivamente crítica ajuda a perceber que a única insatisfação que deve ser exercitada é a da inteligência - e não a do consumismo. Aliás, uma cresce em igual proporção à diminuição da outra. Ou seja, quanto mais 'insatisfeito' você fica com a realidade limitada do conhecimento estagnado, mais percebe que os valores vendidos pelo mercado não passam de uma retórica de sedução, criada para que você se mantenha o mais carente possível. Quanto mais carente, mais consumista; quanto mais consumista, mais deprimido; quanto mais deprimido, menos você pensa, menos você reflete; e quanto menos você pensa, mais o sistema se sustenta em sua mediocridade - mediocridade essa que é a principal responsável pela manutenção da carência.

A mudança não é simples, porque os instrumentos de sedução estão por toda a parte: na mídia, na política, na propaganda, no marketing e até na educação (porque tem muito professor por aí que adora dizer pros alunos que o importante é ganhar dinheiro e nada mais). Mas ela é possível. Para os capitalistas, uma pessoa 'rica' é aquela que ganha muito dinheiro, dinheiro suficiente para trocar de objetos todo dia, num exercício de carência que é nítido. Para uma pessoa inteligente, ao contrário, rico é o pensamento que "empobrece" os símbolos de seu retesamento, constantemente. Rica é a mentalidade que 'desgasta' as certezas, para delas retirar novas possibilidades. Rico, enfim, é aquele que troca sua carência pela verdadeira riqueza, que é a da criação constante, que é a da mentalidade independente, que consegue refletir o mundo e a vida para além das verdades de plástico do mercado. Se é possível fazer poesia com uma pedra, como nos ensinou Drummond, porque não seria possível pensar diferente e se desvincular da carência plantada pelo capitalismo, que em comparação com a pedra, é muito mais recente?

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

big-bang-poema

"2 Quadrados" (1967)
Almir da Silva Mavignier



Quando os primeiros poemas
germinaram o mundo,
verdades duradouras
foram inoculadas
no sangue do tempo:

nada será tão entorpecente
quanto o pôr-do-sol
mergulhando no horizonte;

nada será tão poderoso
quanto o silêncio
desenhado pelos mergulhos no rio;

nada será mais alto
que o olhar
que enxerga para dentro;

e nada,
absolutamente nada,
será tão rico
quanto a chuva
que escorre
pela pele da dúvida.

Somente dela
surgirão novos venenos,
eterno retorno
do poema original

terra que a-guarda

"A morte de Sardanápalo" (1827)
Eugene Delacroix


a terra planeja,
embaixo de nossos narizes
e pés,
segredos de espora

andamos sobre o velório da vida,
traçando mapas e ruas
cidades pontes
rios e cercas

enquanto nos submarinos da terra,
o destino coça

e espera
apenas o último verso
para ecoar em curvas

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Populismo, o que é isso...



Outra coisa curiosa acontece com a palavra "populismo", que deriva de outra palavra esquisita, "popular".

A mídia não cansa de acusar os políticos que agem de forma assistencialista de "populistas". Ou seja, se o cara aprova uma lei que facilita a vida dos pobres, é rapidamente tachado de populista. Facilitar a vida dos pobres não pode.. dos ricos e banqueiros, pode, e ganham até elogio dos jornalistas baba-ovos do sistema.

Outro detalhe, ainda ligado à grande mídia, é o de que tem um monte de programas de televisão que fazem "populismo" o tempo todo, com a cara mais deslavada, e ninguém se toca. Dão carros, casas e os mais variados tipos de presente para as pessoas que não tem condições de comprar, e ninguém se toca que isso acaba sendo um puta populismo. Inclusive pelo fato de que gera audiência, quase sempre "popular".

Falando em "popular", talvez esteja nessa palavra a chave para entender a coisa toda. O popular é hoje a moda da vez. Tudo tem que ser "popular", adaptado às maiorias, "democratizado". Só que se ignora que a palavra "popular", além de significar "próprio do povo", quer dizer também "vulgar e trivial". E quando o discurso vai sendo impregnado pelas pressões do popular, isso acaba gerando um empobrecimento automático das mensagens, o que empobrece também, em cadeia, a própria capacidade crítica das pessoas.

O mundo hoje está mais "vulgar", em todos os sentidos, e não é à toa. Enquanto um monte de gente não se cansa de falar mal da cultura erudita e da universidade como um lugar hermético, tudo o que é "popular" é visto pelas pessoas como digno de reverência e algo impossível de se criticar.

O que interessa aqui é dizer que o "populismo" de fato é ruim. Quando as pessoas recebem "esmolas" do governo, tendem a ficar mais preguiçosas. Mas populismo é ruim em todo lugar e em toda ocasião, desde a política até a grande mídia. Ou há alguma diferença entre o bolsa-família e o programa do Luciano Huck?

Uma última e extremamente importante colocação. Atualmente, elevamos o "popular" ao nível mais alto do discurso. E isso se repete diariamente, por um motivo que não é tão complexo: o único meio de todos se enxergarem como participantes da lógica toda é centrar tudo no popular. Só que isso não apaga a falta de complexidade do chamado discurso popular.

E então estamos chegando ao núcleo da questão: o populismo e o popular são, na grande maioria das vezes, escapes da reflexão mais profunda, que acaba parecendo, aos olhos incautos, algo enfadonho. E aí está boa parte das contradições da chamada democracia.

Só há uma saída para o populismo e essa saída não está na mídia: "emancipação intelectual" é o nome da coisa. E para chegar a isso é preciso sacar quando um político quer te seduzir com sua retórica; o mesmo se pode dizer da grande mídia, populista ao extremo; e, por último, duvidar sempre de você mesmo, porque outro problema do populismo está no fato de que ele gera logo uma ilusão de autossufiência que só atrapalha a pensar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

"Incluídos", "excluídos" ou nem uma coisa nem outra?



Agora há pouco, li uma frase do José Castello, que dizia que a poesia não desconstrói as palavras para destruí-las, mas para alargá-las. E na época atual, na qual vigora a ditadura da interpretação sem rigor, as palavras viraram meros apelidos, e é preciso exercitar esse viés crítico da poesia e seguir desconstruindo.

E então, num papo muito bom com o amigo Lauro, me surgiu essa coisa de "inclusão social". Muito bonitinho, não? A mídia e os políticos adoram esse papo de "inclusão social". Porém, não me parece uma expressão muito coerente, por dois motivos.

Primeiro, essa expressão ignora que todo discurso "social" tem uma parte que é extremamente coercitiva, ou seja, que obriga a aderir, o que é sempre refratário da emancipação intelectual. Nesse sentido, ser um "incluído" pode ser, também, ser um alienado. Em outras palavras, o alienado é uma espécie de "incluído".

E o segundo motivo está ligado à própria lógica que rege o capitalismo, sistema que ainda insistimos em manter por aqui. O capitalismo não inclui ninguém "socialmente". Ele te "incluí" te excluindo do social, te obrigando a gastar com plano de saúde, te obrigando a pagar escola privada, te obrigando a gastar com cadeado e cofre, porque não te dá segurança etc etc etc. Inclui excluindo, essa é a verdade.

E além disso, me surge uma outra imagem pra pensar. O cara que morre numa fila de hospital, porque não teve o atendimento devido, é um "excluído"? Claro que não, porque isso aconteceu 'dentro' do sistema em que ele vive. Nesse caso, a palavra "exclusão" acaba sendo inclusive um anestesiante da análise crítica, porque faz parecer que o descaso com o cara é algo "fora" do sistema e não dentro. O cara que morre numa fila de hospital porque foi ignorado pelos médicos é, na verdade, um "incluído" na lógica do sistema capitalista. Incluído na lógica anti-social desse sistema.

Na verdade, isso tudo é retórica. É como a tal "responsabilidade social" das empresas. Elas adoram cagar goma de que são empresas que "respeitam" a sociedade e tal. Mas só respeitam porque é uma lei e não porque isso está intrínseco em sua lógica de funcionamento. Não fazem mais que sua obrigação e pior, só fazem porque são obrigadas. Mas, através do marketing, fazem parecer que são santinhas com ótimas intenções. O inferno tá cheio.

E ainda tem gente que acha que poesia não tem valor...

É possível negar?

"Mãos Desenhantes" (1948)
Mauritz Escher


É possível negar
que há uma função espiritual
no lápis?

que dele nascem peixes
de um mar distante?

É possível negar
a função quimérica
dos olhos?

que dele se forjam nomes
- e outros seguros de vida -
nas imagens que profanam
os ventos do deserto?

É possível negar
o manifesto de calabouços
que grita em todas as sombras?

que elas representam
a soberania dos intervalos?

É possível negar
que o poema não termina
no último verso?

que há sempre um avião partindo,
mesmo que haja tempestades,
dicionários
e lentes de contato?

É possível negar?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O dono (do) pedaço

"Movimento em Squares" (1961)
Bridget Riley


Em tudo:
na pedra, na dança, na praça:
há um espaço vazio
que im
pressiona os olhos

a única fortuna possível está lá,
no choque do toque
nesse vazio

silêncio das formas,
tango do acaso,
pincel do eterno
a mastigar os olhos
que pensam que pensam

Quando o tempo se cansa do homem,
decepa-lhe em curvas,
em versos,
em mudos vulcânicos cardíacos.

O vazio manda.
e só se vê a coroa..

Mais uma ótima resenha



A editora Cosac & Naify está relançando o texto "Luto e Melancolia", do Freud. E no último sábado, Guilherme Gutman assinou uma ótima resenha crítica sobre o fato, para o 'Prosa e Verso', realçando aspectos que me parecem da maior importância.

O texto do autor fala sobre as dificuldades de tradução dos textos freudianos, sempre ricos literariamente; fala sobre a bela capa do livro, que cria movimento para título, como num poema concreto (a editora é conhecida pelas capas artísticas e bem trabalhadas); e cita um elogio que foi feito ao trabalho da tradutora, Marilene Carone: "Uma de suas primeiras cautelas é desentranhar, dos escritos de Freud, uma teoria da linguagem, segundo a qual o criador da psicanálise preenche de conteúdos novas palavras antigas". É possível perceber muito bem essa releitura ligada à linguagem no trabalho do Lacan e de alguns ótimos teóricos da psicanálise que lhe sucederam, como o brasileiro MD Magno.

Gutman faz ainda uma lembrança importante, que diz respeito à força da psicanálise: "A psicanálise não precisa de advogados de defesa, e Freud é capaz de, sozinho, permanecer de pé, em função da força e da extensão do conjunto teórico-clínico que criou". É bom lembrar, entretanto, que o Lacan foi - e continua sendo, mesmo depois de morto - importantíssimo, porque manteve o vetor crítico da teoria, assim como o Magno e outros nomes do campo. Repetir o Freud não é suficiente, porque a psicanálise é o campo do processo, o campo da 'análise', o que exige revitalização constante.

E a resenha termina com algumas pistas muito boas para quem quer pensar o mundo de hoje de uma forma realmente crítica: "Em 'Luto e Melancolia' há alimento suficiente para todos aqueles que, de algum modo, percebem que a felicidade não é o ponto de chegada de uma vida, mas, quando muito, um lugar de pouso. À leitura desse grande escrito, poderão também perceber que uma vida interessante pode ser mais ampla que uma vida feliz". Talvez esteja na exaltação da tal "felicidade" a grande pista para a passividade de muita gente que vive nesse início de século XXI...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

o poema do poema do poema...

"Pedernal - A partir do rancho 1" (1956)
Georgia O'keeffe


daquele poema
que a
tingiu-me os olhos
um pedaço falou mais alto

ou deveria dizer
mais baixo,
já que exigiu-me
o volume da escuta?

Sei que foi
como se o poema escrevesse
um novo poema
em sua própria carne

como se arrancasse
uma perna fora,
para que ela andasse
pelos próprios dedos

E o novo poema
quedou-se da página,
perfumou o ar
com o aroma do desvio,
forçou passagem,
dilatou o mundo

e só parou
quando de sua morte escap
ou
um novo espasmo,
que esperava escondido
numa das milhares de gavetas
daquele primeiro poema

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O lado rico da Babel contemporânea:



Sábado, durante o programa de rádio do qual participei, me surgiu um tema que deve ser cada vez mais pensado pelas pessoas atualizadas: trata-se da importância dos partidos políticos numa sociedade avançada em termos críticos.

A presença do parlamento federal parece ser ainda fundamental, ao menos no sentido de manter a utopia de soberania em relação aos outros países, na medida em que sabemos que a ganância gera sempre gente que quer invadir e mandar no que não é seu, através das mais variadas e sórdidas formas. O caso atual da Grécia é ilustrativo disso.

Sabemos que a ONU é uma fachada que pouco impede as ações hegemônicas dos países mais poderosos em termos econômicos e bélicos. E assim é com os governos corruptos e/ou com aqueles que não possuem armamentos suficientes para encarar os bandidos mais bem armados (EUA, Israel e cia ltda). Mas ainda assim acho que ela deve continuar existindo, porque só a sua existência impede que a ganância seja o único valor a ser pensado discutido e praticado pelos poderosos.

Entretanto, não é só de relações institucionais que vive uma nação. E no mundo globalizado, nem só de si como nação vive um país. Existe a cultura, que no fundo é muito mais ampla que a política partidária e que pode nos mostrar um outro lado dessa história.

Em termos culturais, a ideia de um país soberano não faz mais o menor sentido. As diferenças, que antes viviam separadas de forma quase absoluta, hoje se interconectam e trocam símbolos a todo momento, criando novos elementos, alguns híbridos, outros duradouros, mas todos sem o rótulo da localidade absoluta. E isso mostra que a política partidária é uma instância fadada a estar sempre atrasada em relação ao "parque da cultura", que avança muito além das fronteiras limitadas do debate político.

No âmbito da cultura, já deixou há muito tempo de fazer sentido falar em uma produção absolutamente brasileira, ou 100% italiana, ou ainda totalmente francesa. Está "tudo junto e misturado", como gostam de falar por aí. O samba se mistura com o design, o futebol com a dança, o jazz com o blues, o ensaio com o conto, o popular com o erudito e até a política com a religião (o que é bem perigoso, mas enfim..). Nada mais faz sentido como algo lacrado e sem conexão. E isso porque há uma descoberta que a filosofia fez há mais de 200 anos e que está sendo perigosamente esquecida por todos aqueles que defender que a vida é simples e que o importante é não dar atenção para as coisas que aparentem dificuldade de construção: o pensamento crítico.

Gosto muito de uma crônica do crítico literário gaúcho Luis Augusto Fischer, na qual ele defende que estamos vivendo, no Brasil atual, uma época de "democracia sem iluminismo". E o que ele quer dizer com isso? Basicamente que estamos numa época em que as pessoas possuem certa liberdade de pensar e de dizer o que pensam, mas sem ter muito conteúdo para dizer. E a causa disso é clara, quando vemos determinadas (muitas) pessoas defendendo o pragmatismo e questionando o valor de qualquer fala que traga para o primeiro plano a complexidade.

Para quem gosta de psicanálise, isso é um sintoma claro da nossa época. O "estamos juntos e misturados" gera, na maioria das pessoas, duas consequências visíveis. Primeiro, o medo de não ter mais uma certeza absoluta para dar segurança; e segundo, consequência do primeiro, a nostalgia que explode daí decorrente. E então vemos por todos os lados um monte de símbolos já ultrapassados pela história da pós-modernidade, mas que são defendidos com unhas e dentes pela maioria. Mesmo que essa defesa seja muitas vezes um pouco cínica, na medida em que ninguém mais vive em função de um símbolo só. Hoje já tem até "filme pornô gospel", para agradar ao máximo de pessoas, a partir da lógica do entrecruzamento inevitável dos símbolos.

Essa nostalgia insistente se dá porque o "facilitarismo" é a última defesa possível contra o óbvio, que é encarar de frente o deslocamento e o entrecruzamento como verdades essenciais desse novo mundo. É como dizer que no fundo todo mundo sabe que a coisa não é mais fácil de ser respondida e que a cultura hoje é uma tremenda salada-mista, com infinitas possibilidades. As negociações simbólicas são hoje incessantes e inevitáveis. Mas como fazer é diferente de elaborar, todo mundo faz mas pouco se elabora. E é por isso que a nostalgia persiste.

E persiste inclusive na crença de que os partidos políticos são de fato ainda relevantes. Se analisamos a questão sem a inocência dos pragmáticos, verificamos que hoje eles não passam de capachos dos ricos e que não representam mais os avanços da cultura. Não preciso de político nenhum para dizer o que fazer e pensar em relação ao mundo, porque decidi, há muito tempo, ser um sujeito pensante, que não repete cartilhas e modismos babacas e atrasados. Decidi encarar de frente o esvaziamento de certezas da minha época e testar, dia a dia, novas nuances e articulações entre os símbolos que me aparecem. Decidi, enfim, fazer como os grandes filósofos e poetas e me relacionar com o mundo sempre de maneira crítica e reflexiva, para que não dependa de nenhum desses pastores de terno para me dizer o que devo concluir sobre as coisas. Porque se há algo que possa ser chamado de "liberdade", isso reside exatamente no pensamento crítico, que te permite suspender os símbolos de qualquer certeza, para então reavaliá-los de forma criativa e inteligente, sem depender de nenhum manual ideológico.

Mais ou menos o que dizia o Nietzsche, sobre levar a vida como uma obra de arte...

corpo sem órgãos

"O Olho do Silêncio"
(Max Ernst, 1944)


ao escapar
de um comboio espiral,
aquele pequeno pedaço de coração esbarrou,
numa esquina do corpo,
com um neurônio fugitivo
que por ali passava,
ofegante

cheiraram-se,
como animais
tateando a estranheza incurável

de seu toque surge,
então,
um inchaço crescente,
que invade todos os órgãos,
um por um

o corpo
perdeu-se
no vazio,
livre
da gravidade entorpecente de outrora

a pele virou poema
e a dor agora não passa de um fóssil,
que os últimos estertores descobrirão,
em sua arqueologia inevitável..

domingo, 12 de fevereiro de 2012

E agora, Brasil?



Brasil é um país
cujo nome-árvore some,
como ele.

Resta a pergunta:
seria isso
funeral
ou parto?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O escritor



A luta do escritor
não é contra a solidão,
mas a favor dela

o olhar dos outros
não é o mais importante:
é o álibi
de seu terrorismo marginal

não dorme com a tv ligada;
consulta relógios o mínimo possível;
o óbvio causa-lhe sono;
prefere as paisagens às placas;
e só lhe servem mapas vazios

sua terra não gira: transpira;
seu olhar é funeral de contornos.

O livro, afinal,
uma arma branca,
distintiva,
abissal

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Pequena ausência



Aos amigos do blog: hoje farei uma viagem de trabalho, que vai durar até o dia 10. Não tenho certeza se terei tempo de usar a internet por lá, então é possível que me ausente daqui também por esse período. Se lá tiver acesso à internet e tempo disponível, certamente darei as minhas passadas por aqui para ver como andam as atualizações. Mas se não for possível, só retorno dia 10 ou 11, para retomar os debates.

Abraços para eles, beijos para elas e até lá.

Marcelo

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sobre a atualidade-mofo

José Damasceno
'Nota sobre uma Cena Acesa', ou 'Dez Mil Lápis' (2000)


Há diversas críticas recentes ao comportamento chamado de "especialista", ou seja, aquele que trata o conhecimento como sendo da alçada de uma disciplina específica. Edgar Morin, em um bom livro chamado "A Cabeça bem-feita", fala sobre isso, lembrando que temos que olhar para as coisas sempre a partir de um foco "interdisciplinar". Em suma: vários feixes têm que comparecer no mesmo olhar que se lança sobre as coisas e situações. O discurso da Dilma em Cuba, por exemplo, não é apenas um acontecimento político, mas também com detalhes históricos, filosóficos, midiáticos, sociológicos e, até mesmo, poéticos. Vale dizer ainda que, se você lê com atenção o livro "A Ordem do Discurso", do Foucault, vai sacar que nem de interdisciplinaridade se deve falar, porque para a pessoa pensar realmente de forma crítica, tem que usar (com conhecimento de causa) o campo disciplinar e não ser usada por ele - como geralmente acontece. Por isso, ainda prefiro, à interdisciplinaridade, algo como uma "heterocriticidade". Fica mais interessante e maduro.

Dito isso, vamos à loucura de hoje.

Na grande maioria das vezes, estamos cercados de justificativas de especialistas para o mundo em que vivemos. E no geral, hoje em dia, esses especialistas são ou economistas ou jornalistas. Salvo exceções, o cidadão comum não sabe o que é um lead, ou como funciona o processo de edição de uma notícia; e também não sabe o que significa exatamente "ativos tóxicos" ou "ajuste fiscal". O que se ouve, no cotidiano, é apenas uma repetição acrítica dos dados, que possuem o único objetivo de parecer atualizado para os amigos e companheiros que se informam pelos mesmos especialistas. E como essa repetição, que é causada pela crença e adesão das pessoas comuns ao noticiário padrão, gera a ilusão de uma opinião bem formada, vale repensá-la em um aspecto sutil (Um parêntese curioso que me surgiu agora é o de que as pessoas enchem a boca pra chamar fulano ou beltrano de "formador de opinião", se perceber que esse é o verdadeiro problema, ou seja, o fato de que o cara está "formando" opiniões e não estabelecendo debate e diálogo crítico. Enfim, coisas de massa...).

Esse aspecto é o da "atualidade". Esses especialistas são vistos pelas pessoas como sendo os mais atualizados observadores da realidade. O curioso é que essa é uma incrível distorção e não é difícil perceber isso. Ora, o que define a nossa época, como se pode perceber com a própria noção de "interdisciplinaridade", não é a lógica que rege a postura do especialista - fechado hermeticamente em seu campo e usando as preferências midiáticas e do ego dos cidadãos preguiçosos e egocêntricos para perpetuar versões como se fossem verdades absolutas. O que rege os tempos modernos é exatamente a insuficiência absoluta de todos os referentes limitados de conhecimento. Tudo o que de mais inteligente se produziu na modernidade foi para mostrar isso, ou seja, que não é suficiente acessar apenas um pedaço da realidade, mas vários. Desde o Romantismo, que combatia o racionalismo cartesiano com o destaque dado ao poético, passando pelo Impressionismo de Monet, Van Gogh e Renoir (que relativizava a importância da imagem estática, chamando a atenção para a relevância das luzes e das sombras na visão das imagens); pela Relatividade de Eintein; pelo Cubismo de Picasso, que mostrava a necessidade de se atentar para o movimento das imagens e os vários ângulos decorrentes; pelo Dadaísmo de Duchamp, que criticava a própria ideia do Manifesto, esvaziando o caráter engajado da arte; pelo teatro do absurdo, pela poesia concreta, por Deleuze, alertando para a necessidade de certo Expressionismo na construção dos conceitos filosóficos; por Bachelard, nos mostrando que as fronteiras entre física e poesia deveriam ser borradas definitivamente; por Borges, mostrando que as fronteiras entre o ensaio e o conto eram muito mais tênues do que se pensava; pela Antropofagia de Oswald, pela Bossa Nova, pelo Cinema Novo, pela Tropicália; pelo Documentário, mistura de cinema e jornalismo; até chegar ao mundo de hoje, que continua a entrecruzar os saberes e campos antigos (como acontece com a disciplina acadêmica da geohistória e experiências como a que fez o escritor Mario Prata, de escrever um livro junto com os leitores, na internet, e o artista Michel Melamed, que misturou recentemente teatro com rock and roll, em uma peça cujo nome resume bem a nossa época: "Regurgitofagia"), para então recriá-los na frente, numa posição de eterna vanguarda.

Surge, a partir disso, uma dúvida: como então essas pessoas, economistas e jornalistas, que estão absolutamente atrasadas em relação ao que é efetivamente atual, conseguem ser vistas pela sociedade como "atualizados" e donos de uma visão madura sobre a realidade? A resposta não parece ser tão difícil. Estamos no tempo da retórica cínica. E hoje virou moda se dizer bem informado. Mas ao mesmo tempo, estar realmente bem informado demanda muito trabalho. Então, é preciso arranjar um meio de conciliar as duas coisas: a sensação de estar atualizado e bem informado e a concordância dos outros de que isso é uma verdade. E como se faz isso? Com a ajuda muito bem intencionada dos nossos queridos amigos jornalistas e economistas, sempre prontos a nos manter atualizados através da lógica do mínimo esforço. Está feito, assim, o inventário da ilusão pós-moderna: os jornalistas e economistas fingem que atualizam; os expectadores fingem que estão atualizados; e os amigos dos expectadores, doidos pelo mesmo reconhecimento, aplaudem a mesmice como se fosse a maior vanguarda. E assim tropeça a humanidade.

Vale concluir: na medida em que espalham o mito da atualidade bem informada, a partir de uma posição meramente especialista em relação à realidade, economistas e jornalistas estão entre os mais atrasados atores da tragicomédia contemporânea. Não relativizam sua postura, são pretensiosos, extremamente radicais quanto à veracidade de suas versões e, o que é pior, posam de samaritanos, fermentando a preguiça na maioria das pessoas, usando como justificativa cínica a adesão irrefletida dessas próprias pessoas. Assim funciona o jornalismo da chamada "grande mídia" e assim funciona o comentário econômico dos principais veículos. São pedaços do mundo recente que cheiram a mofo, de tão atrasados. Mas continuam existindo, porque agasalham a preguiça dos indivíduos comuns como luvas. E se você vai tentar contrapor o "consenso da mediocridade" (expressão que empresto do Aldir Blanc), vem logo um xiita alertar para a sua loucura: "O que é isso, cara?.. Deu na Veja!!! Deu no Fantástico!!!..."

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Alguma coisa dá pra fazer...



Quando você percebe as verdadeiras causas dos problemas do mundo, o resto é tomar as providências para ajudar nas mudanças.

E quais são as causas dos problemas do mundo de hoje? Um dos principais se chama 'corrupção'. E o que é a corrupção? Vamos pensar para além do senso comum. Corrupção é querer sempre mais e mais dinheiro. Na base da corrupção está o problema histórico do Brasil, que é a concentração de renda.

E aí, descobrimos outro problema, que é decorrente desse. Quando uma pessoa ou empresa possuem muito dinheiro, acabam ganhando muitas facilidades para corromper os fracos de espírito, que se deixam vender por dinheiro. E aí chegamos na parte chave da coisa toda.

Quando um político recebe propina de uma grande construtora para fraudar uma licitação ou um leilão, a mídia gasta 90% do seu tempo culpando os políticos, mas quase não fala do poder dessas grandes corporações. Ora.. errado quem recebe a propina, errado também quem oferece. Mas a grande mídia não faria isso, porque ela faz parte desse sistema, na medida em que são também grandes corporações.

Então, qual é a saída? Ela não depende de político nenhum, mas da sua vontade. Algumas atitudes eficazes:

1 - Parar de pegar empréstimos que sejam de mais de duas parcelas (o ideal é só comprar à vista). Isso porque muito do que sustenta essa gente são os juros cobrados nos empréstimos;

2 - Abolir o uso do cartão de crédito;

3 - Valorizar as marcas menores e mais artesanais. Elas respeitam mais o consumidor, na medida em que usam menos produtos químicos nos alimentos e cobram menos em produtos como roupas e similares, porque dispensam uma série de intermediários que oneram o preço final;

4 - Parar de se (des)informar pela grande mídia. 90% do que está ali é mentira e existem várias fontes melhores em outros lugares. Obviamente que não estou dizendo que você pode dispensar a "informação". Muito pelo contrário. Achar fontes alternativas é sempre mais trabalhoso, mas você diminui o risco de ser enganado;

5 - Valorizar o comércio local, em detrimento dos produtos importados. Eles são sempre mais caros, não respeitam o seu bolso e geram sempre mais dinheiro para os bandidões das megacorporações;

6 - Mesmo que a política não seja a solução para os seus problemas, pesquise bem antes de votar em alguém. E use o parâmetro do financiamento privado, porque ele sempre leva a perceber os pilantras. Se o cara tá recebendo muita grana de empresários ricos, então vai ficar com o rabo preso quando for eleito e não mudará nada. Então, o ideal é escolher entre aqueles que menos dinheiro privado recebem;

7 - E o último e mais importante: leia muita filosofia, muita literatura e muita poesia. Sofistique o seu repertório. Valorize o caráter humano do pensamento e não o resultado econômico que ele pode te dar, porque isso só atrapalha a leitura. Exercite o pensamento plural, através da poesia. Teste novas visões da realidade. Isso ajuda a perceber quando alguém quer te empurrar uma verdade de plástico. Pense nos galhos da árvore como uma raiz que deseja abraçar o céu, e quem sabe isso não te ensina a enxergar um cifrão no sorriso falso de um político bandido, ou de um empresário mafioso.

Não é fácil resolver os problemas. Se fosse fácil, eles não seriam problemas. Mas também não é fácil ouvir todo dia que estão roubando o seu dinheiro. E não é fácil viver num sistema injusto, que só premia os corruptos e os bandidos. De mim eles não recebem prêmio nenhum. E de você?