Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Um pouco de Millôr


Algumas tiradas do Millôr, que gosto muito:



"Acreditar que não acreditamos em nada é crer na crença do descrer".



"Se a ocasião faz o ladrão, a falta de oportunidade faz a honestidade?"



"Sexo oral: mêtalinguagem".



"Invejar os corruptos já é meia corrupção".



"Com o advento do computador, hoje são os jovens que se vivem se queixando de falta de memória".



"Restaurar a democracia é fácil. Eu quero ver é convidar pra festa trinta milhões de miseráveis (1982)".



"Não conheço nenhum velho que tenha descoberto a eterna juventude. Mas conheço muitos jovens que já nasceram com a eterna senilidade".




Essas e outras frases e reflexões estão no livro "Bíblia do Caos", uma compilação bem variada de trechos do Millôr. A edição é da LP&M editora. Vale a pena.






Sábado, 10 de Maio de 2008

Mais uma "livre" manifestação da nobre imprensa brasileira...


Ontem recebi a visita de um blog interessante, chamado "Soldado no Front". Dentre vários textos bacanas, um me chamou a atenção. Falava sobre uma foto adulterada pela revista IstoÉ de um mês atrás, a qual reproduzo aqui para meus leitores. A foto mostrava uma manifestação dos Sem-Terra contra uma privatização, em São Paulo, e teria sido adulterada pela revista, numa de esconder um "Fora Serra", endereçado ao candidato tucano das próximas eleições da terra da garoa.

É essa a tal liberdade de expressão da imprensa??

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Continuando o caminho dos pecados


Neste dia, entro na casa dos 3.3. E já ouvi algumas vezes: "Aíí.. Idade de Cristo, hein!". Me lembrei de um trecho do Cioran, que reli outro dia. É de seu livro de ensaios "Breviário de Decomposição", sobre o qual já fiz menção aqui. O título é "Condições da Tragédia". Aí vai:

"Se Jesus houvesse acabado sua carreira na cruz e não tivesse se comprometido a ressuscitar, que belo herói de tragédia teria sido! Seu lado divino fez com que a literatura perdesse um tema admirável. Partilha assim a sorte, esteticamente medíocre, de todos os justos. Como tudo o que se perpetua no coração dos homens, como tudo o que se expõe ao culto e não morre irremediavelmente, não se presta nada a essa visão de um fim total que marca um destino trágico. Para isso teria sido necessário que ninguém o seguisse e que a transfiguração não viesse a elevá-lo a uma ilícita auréola. Nada mais estranho à tragédia do que a idéia de redenção, salvação e imortalidade! O herói sucumbe sob seus próprios atos, sem que lhe seja dado escamotear sua morte por uma graça sobrenatural; não se prolonga - enquanto existência - de nenhum modo, permanece distinto na memória dos homens como um espetáculo de sofrimento; ao não ter discípulos, seu destino infrutífero não fecunda nada, salvo a imaginação dos outros. Macbeth desmorona sem esperança de resgate: não há extrema-unção na tragédia.
O próprio de uma fé, ainda que deva fracassar, é eludir o irreparável. ( O que poderia fazer Shakespeare por um mártir?). O verdadeiro herói combate e morre em nome de seu destino, não em nome de uma crença. Sua existência elimina toda idéia de escapatória; os caminhos que não o levam à morte resultam em becos sem saída; trabalha em sua "biografia"; cultiva seu desenlace e faz todo o possível, instintivamente, para inventar-se acontecimentos funestos. Uma vez que a fatalidade é sua seiva, qualquer escapatória só poderia ser uma infidelidade à sua perdição. Por isso o homem do destino não se converte nunca a nenhuma crença, qualquer que ela seja: não realizaria seu fim. E se estivesse imobilizado sobre a cruz, não seria ele quem levantaria os olhos para o céu: sua própria história é seu único absoluto, como sua vontade de tragédia seu único desejo..." (pp. 91-92).

Não sou santo, muito pelo contrário. Peco e muito. E com muito gosto. Mesmo quando esse gosto é 'angostiado'... A angústia da crítica é meu alimento. E não confunda crítica com bunda. Não é desse gosto que falo. Apesar de ser um dos gostos que ao falo agrada (falo do falo freudiano, claro...)...

Não quero ser herói de ninguém.. quero apenas escrever. E muito. É a forma que tenho de esperar que a podridão da carne me devore. Uma forma que a mim agrada. E que não pode vir sem um pouco de ironia. A-final, não é "ironia" um bom sinônimo pra "vida"?

É isso.. 33 anos.. e vamos continuando.. no caminho do pecado.. O pecado da metáfora e da poética.. ...e alguns outros pecados, é claro.. A-final.. ninguém é filho de Deus mesmo...

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

MALAfaia...

Malafaia seguindo a risca os mandamentos das linhas evangélicas
de hoje: não há mais o que vender, venda a si mesmo!
Alguém leva essa mala pra casa??
Estava com saudade dos pélas? Pois é, eles voltaram.. E com muito estilo. O péla desta vez é uma mala sem alça, o supra-sumo da prepotência e do charlatanismo. Silas Malafaia é a prova viva de que vivemos em uma época extremamente emburrecida. Liguei a televisão por acaso e dei de cara com sua voz de garça com fimose presa no zíper. Posando de líder dos acéfalos que param para escutá-lo, o pastor cuspiu várias asneiras e lugares-comuns, incitando os fiéis a reproduzir suas idéias óbvias e muitas vezes preconceituosas.
O que transparece é o fato de que o pastor figura como um desses palestrantes de marketing, o tal do "motivacional", que existe mesmo como álibi pro sujeito trabalhar como escravo achando mil maravilhas o salário de merda que ganha.. A "palestra" do pastor é uma patetice sem limites, o que demonstra uma tendência que é bastante difundida nos dias de hoje. Quem pede a palavra num espaço público vai sendo cada vez mais obrigado a fazer papel de palhaço pra agradar a audiência. É o nosso tempo, limite extremo da sandice: neguinho se ferrando a rodo, e todo mundo rindo das palhaçadas de um inútil aproveitador.
Enfim.. uma super-mala histérica, sem nenhuma noção do ridículo: Esse é Silas Malafaia, gente que péla.

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

Lya Luft


Assisti, ontem, a entrevista da escritora Lya Luft para o programa Roda Viva, da TVBrasil. Serviu pra eliminar alguns preconceitos que eu tinha contra a figura dela, sem conhecê-la. Mas serviu, também, pra reiterar algumas outras coisas que pensava.

Lya sustenta uma visão interessante sobre a escrita, ressaltando que a criação anda de mãos dadas com a leitura. Além disso, colocou de forma coerente os problemas inevitáveis que ocorrem com as traduções, dando inclusive, exemplos bem interessantes, sobre o cheiro das árvores européias, dentre outros. E sustentou que não é o fato de ser um best-seller que acomete o escritor de um reducionismo intelectual em sua obra: ela, segundo cita, não se importa com a venda numerosa de seus livros e com o assédio da mídia, no sentido de que isso não parece mudar sua postura ao escrever. Gostei dessas colocações, apesar de entender que isso modifica a estética da obra de qualquer autor, na grande maioria dos casos, na medida em que os leitores virtuais vão ficando mais numerosos e a cobrança mais intensa pela circunscrição no jogo dos gêneros.

Mas também achei que ela joga pra platéia sim, um pouco. Acho que ela vê o papel da crítica literária com olhos inocentes e um pouco afetados e dá uma sutil 'fugida' quando esse assunto surge. Diz ela que a crítica geralmente é carinhosa com ela, e que ela é boa quando soma. Ora, crítica não tem que somar.. tem que decompôr em uma nova reflexão. E é, quando não for afetada, uma ferramenta muito importante para o debate de qualquer segmento.

Quando fala da crítica dessa forma, Lya dá um tropeço. Mas fiquei com vontade de ler algum de seus ensaios, pra dar uma conferida. Depois comento com vocês.

Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

O valor de troca


A fiança é a quantia de uma caução. E a caução é a garantia e a precaução de um futuro. Um exemplo é o sujeito que comete um delito e paga sua fiança. O valor da fiança representa-lhe uma cautela com o que virá, no intuito de não repetir o erro.

Falando em erro, erramos sempre. Humanos que somos. "Errar é humano", nos diz o imaginário popular. Isso por que errar não é apenas o oposto do acerto (aliás, "A"-certo, não lhe parece uma negação da correção?): é caminhar, exatamente o que fazemos a vida inteira - mesmo que a tolice das definições procure em vão estancar as curvas inevitáveis do tempo.

Vale dizer que dobramos muitas dessas esquinas da vida com mais coragem quando podemos confiar em alguém. A amizade é uma confiança possível, sem dúvida. E a amizade verdadeira não pede fiança.

Entretanto, vale também uma pequena lembrança: sempre que o dinheiro estiver envolvido em alguma questão da sua vida, não confie em qualquer um que lhe aponte um sorriso. Tive, nas últimas curvas que contornei pelo meu caminho, a certeza de que só se fia a amizade com muita certeza. O dinheiro produz as máscaras mais dissimuladas. O que me levou a uma conclusão derradeira: Confiança, meu caro? Só sem fiança...

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Os investidores externos e os que investem contra a educação aqui dentro


Ontem extraordinariamente comprei o jornal pra saber como foi a grande vitória do Flamengo, que derrotou o América do México, lá na terra dos Aztecas, dando passo importante pra passar às quartas-de-final da Taça Libertadores da América (aliás, bonito nome esse hein?).

Não pôde passar, entretanto, por meus olhos, uma curiosa dupla de reportagens do diário. A maior (o que denota a ordem de prioridades do jornal) comemorava um dado aparentemente positivo: "Brasil se torna país mais seguro para investimentos". O jornal diz que as "agências de classificação de riscos" (ou seria de 'ricos'??) agora recomendam o Brasil para os grandes investidores.

Um pouco abaixo, do lado direito da página, uma notícia menor: "Enquanto isso, na educação...: Repetência brasileira só é menor que na África". Estudo da UNESCO coloca que a repetência no Brasil só é menor que a dos países africanos.

Duas pequenas reflexões:

Primeira: sabemos que o dinheiro desses "investidores" não atinge as camadas mais desfavorecidas de nossa sociedade. Entram no país sem fiscalização, geram bons frutos para uma pequena parcela dos daqui de dentro (ricos e classe-média alta) e saem daqui multiplicados, levando embora parte de nossa riqueza. É quase sempre assim, e nada muda.

Segunda: o descaso com a educação é fruto proporcional da relevância que se dá ao tal capital virtual das bolsas e dos investidores. Exatamente por isso a questão do investimento (!!!) em educação não avança nesse país, que se informa por essa mídia subserviente e cúmplice com o capital estrangeiro.

Quando é que vamos parar de babar o ovo do capital estrangeiro e olhar com mais respeito para nossas questões internas? Quando cair uma bomba atômica na Barra da Tijuca e nos Jardins? Recentemente descobri uma comunidade do orkut que dizia assim: "Bin Laden, aqui tem mais duas torres". Essa era a legenda da foto, das duas torres do Planalto. E aí? Pra quem a gente torce?

Podem as religiões conviver no mesmo espaço público?



Ontem assisti ao "Espaço Público", da TV Brasil, que há algum tempo não assistia. Muito bom o programa. Foi especial, debatendo, em seus três blocos, a questão das diferenças religiosas. Lucia Lema juntou, em seu estúdio, representantes das principais religiões presentes no Brasil e um acadêmico especialista em História das Religiões, para confrontrar idéias e versões acerca do tema.

Não guardei os nomes dos convidados, infelizmente. Mas o representante da igreja católica era o reitor da PUC e havia um dos protestantes, um das religiões afro-brasileiras e um da comunidade muçulmana (além do acadêmico).
O debate foi excelente, e serviu pra deixar claro a tendência extremamente mercadológica dos protestantes, no meu entender. O ponto alto do debate foi quando o representante das religiões afro inquiriu o protestante acerca da maneira como os mesmos se apropriam das imagens simbólicas dos afro-brasileiros, relacionando-as sempre a imagens satanizadas e ligadas ao Mal.

O protestante desconversava, atribuindo a apropriação ao álibi da releitura dos símbolos como "estratégia de comunicação". Retórica vazia, sem argumentação séria, que mostra que o respeito aos outros credos não é uma constante no meio evangélico (além de tudo, o representante dos protestantes passou o debate inteiro portanto um sorrisinho sem graça no canto dos lábios, típico de quem se encontra extremamente afetado por dentro, desconfortável, mas se segurando pra não sair da pauta eufemística adotada por esse tipo de opinião sectária em lugares plurais como o de um debate).
Destaque ainda para o representante dos católicos, com abordagens bastante coerentes em todos os momentos, e para o acadêmico, que só teve um momento de falha, no meu entender, quando, no final, surgiu a questão da participação religiosa no setor público. O representante afro sugeriu que os religiosos destas religiões são "discriminados" nos concursos públicos. O historiador colocou a questão da participação social, mas não detalhou a questão da vinculação institucional, fundamental neste caso. O fato é que as religiões afro são, em sua prática mesma, desvinculadas das nortamizações institucionais. O que por um lado é muito interessante e inclusive uma postura que gera maior aceitação da pluralidade. Entretanto, é isso que lhe tira um pouco de peso simbólico nas instituições. Questão complexa, mas penso que deveriam continuar como estão. É isso que lhes distingue positivamente das monoteístas.

Vale a pena dormir um pouco mais tarde pra assistir os debates do programa. Existem, claro, alguns convidados que passam muita vaselina antes de entrar no estúdio, o que torna o confronto de idéias, às vezes, improdutivo. Mas em muitas vezes a chapa esquenta e a guerra da linguagem dá as caras, furando o bloqueio eufemístico da contemporaneidade.. (pô, ficou sofisticado isso hein?...)
E você, o que acha? Dá pra fazer as religiões conviverem numa boa dentro do espaço público e institucional?

Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Saramago, Renaut e o "milagre" democrático




Já que falamos da balela democrática no texto anterior, vale colocar uma articulação possível, que gera uma reflexão bem coerente acerca da questão.
O filósofo Alain Renaut (embaixo) publicou, no ano de 2004, um excelente trabalho, intitulado "O indivíduo: reflexões acerca da filosofia do sujeito", onde reflete o individualismo contemporâneo, a partir da avaliação cruzada entre as noções de "autonomia" e "independência". Excelente pedida.
Em cima dele, está o escritor português José Saramago, que publicou, no mesmo ano de 2004, um romance de nome "Ensaio sobre a Lucidez". A história gira em torno de uma cidade que vota em peso pelo voto branco, anulando a eleição e fazendo com que o governo abandone o país.
Ambas as obras, se articuladas, formam uma visão bem abrangente da mitologia democrática, para além do senso comum que existe em torno do tema. Um pé no saco da idéia da tal "liberdade", enfim...
Valem a pena, com certeza. São ótimas dicas.

Segunda-feira, 28 de Abril de 2008

Um pouco de verdade no reino das ilusões...


A coluna de sábado do jornalista merval Pereira, do Globo, merece uma citação. Apesar de considerar um fato isolado no jornal, vale colocar que Merval trata de duas questões fundamentais, que precisam continuar sendo discutidas pela sociedade.


A primeira delas é sobre um projeto dos norte-americanos, especialmente do Bush, de criar uma Liga das Democracias", que busca, segundo o jornalista, "somar o poder das mais de 100 nações democráticas que existem hoje no mundo, de modo a fazer avançar [seus] valores e defender [seus] interesses".


Além da ambiguidade histórica da própria idéia de democracia, vale pontuar a sutileza do projeto, que denota a tendência monolítica do discurso contemporâneo, inteiramente desafeito às diferenças culturais.


Em segundo lugar, Merval lembra o golpe desferido contra o presidente venezuelano Hugo Chávez, em abril de 2002, destacando que os Estados Unidos foram inteiramente a favor da arbitrariedade, o que chama a atenção para a influência explícita que os americanos possuem nos mecanismos institucionais internos dos países do terceiro mundo.


Boa lembrança do Merval, que destoa da mídia baba-ovo do Globo em geral. Merece destaque, porque não é só na hora dos erros e sandices que devemos nos manifestar.


Aos partidários de defender os Estados Unidos como guardiões da paz mundial, cabe o alerta, para que as interpretações futuras sejam menos impregnadas por um otimismo infrutífero. O barato dos americanos é sugar pelas entrelinhas.. Cai nessa quem quer..

Sábado, 26 de Abril de 2008

O poente e a forma


Uma poesia que fiz numa madrugada do ano passado...


O Vazio e o Pé


Transitar no vazio
É virar as costas para o tempo

Esvaziá-lo
da in-diferença típica
das cores fixas
do significado


Às costas,
Seguimos o caminho do verso.
Entregues ao acidente;
Ao poente eterno da forma.
Ao inferno santo do vácuo.
Onde o sentido vem e volta.

E o que mais podemos fazer,
Senão pisar
Sobre as chamas do desdém?

Chama que se chama tempo,
Que morre ao vento
em cada pé que falta.

Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Pessoa e os alheios que somos


Fernando Pessoa, na pele de Ricardo Reis. Brilhante, simplesmente.


"E a tudo, alheios, nos acresentamos,

Pensando e interpretando".

Quinta-feira, 24 de Abril de 2008

A alimentação do feriado


Nada como um bom feriadão pra colocar algumas coisas em dia.. Portanto, vale comentar sobre algumas boas aquisições de repertório deste período de relaxamento.




Assisti ao bom filme "Brasília 18%", do Nelson Pereira dos Santos, que mostra como Brasília realmente se transformou num covil de gangues partidárias. Vale a pena, pela trama bem dinâmica, e pelo discurso do Michel Melamed, no final do filme, que é muito inteligente e radicalmente atual.




Vi também alguns curtas do cineasta Allan Ribeiro, da Uff. A locadora onde alugo filmes, "Video & Game Center", na Tijuca, estreou uma promoção, que é a de podermos levar um DVD de curtas a cada locação, de graça.




Levei um que tinha cinco curtas, dos quais vi quatro. Gostei bastante do "Papo de Botequim", que fala sobre a pluralidade dos botequins. Com alguns depoimentos interessantes, outros engraçados e alguns angustiantes - como o da mulher que passa a entrevista toda falando quase sozinha, enquanto o marido acompanhava com o olhar, tentando pronunciar algumas palavras. Quando ele decide falar, ela o atropela, e ainda reclama que "tem gente que não deixa os outros falarem" e que "bar é assim mesmo".. Dá vontade de tapar a boca da mulher.. (e esse "tapar" você entende como quiser..).




Outro curta interessante é o "Boca a Boca", que mostra as peripécias de um casal que inventa uma desculpa para não receber a visita de outro casal, amigo, e se enrola todo, a tal ponto de ter que simular uma internação em hospital para sustentar a mentira. Interesante para pensar em como os boatos e mentiras plantadas colam e se espalham facilmente. Além de ser engraçado.




Não gostei do "Brilho dos Meus Olhos" e sobre o "Desconforto" ainda não refleti o suficiente. Acho que é por que me causa desconforto ver homem se vestindo de mulher, ainda mais se for de forma voluntária...




Reli um pouco de Cioran e li um livro interessante, sobre a história do ensino da filosofia no Brasil, de dois autores brasileiros, Marcos Nobre e Ricardo terra.




E finalmente, assisti ao bom jogo do Vasco, ontem. Pude ver o golaço do Edmundo, além de ser coroado com uma gafe estranhíssima do Wright, que é o comentarista de arbitragem da Globo. No início do jogo, quando ainda comentava sobre as qualidades do juiz que apitaria a partida, o comentarista disse que o juiz era bom, porque teria ido muito bem no campeonato nacional... imediatamente ele pede perdão pela expressão, e corrige para "Campeonato Brasileiro". Fiquei pensando cá com meus botões... Não me surpreenderia se a palavra "Nacional" fosse proibida na Globo.. mas enfim... deve ser mais uma loucura tipo "teoria da conspiração", diriam os mauricinhos...


Bom feriado esse.

Terça-feira, 22 de Abril de 2008

(Des)informando sobre os informais


Guardei uma notícia do jornal O Globo do dia 12 deste mês, pra escrever a respeito quando tivesse um tempinho sobrando.. E ele apareceu.




A notícia informa (!!) que agora passou a ser "recomendação internacional" incluir os trabalhadores informais nos cálculos de taxas de desemprego nos países onde a questão é estudada. Claro, como não concorda com a coisa, o jornal não publica quem foi que recomendou...




O fato é que essa questão da economia informal diz muito do que vivemos hoje. Segundo a notícia, o deemprego, que está em 8,7% atualmente, pula para 38% quando se considera os informais. 38%!!




O impressionante é a cara-de-pau da notícia, que começa com a seguinte frase: "Os trabalhadores informais engrossam o contingente de ocupados (!!!) do Brasil". Tudo, claro, pra continuar defendendo a lógica neoliberal que tanto seduz os que apertam a língua pra mastigar os farelos do capitalismo atual, globalização da burrice e da pobreza - intelectual e econômica.




Ainda segundo a reportagem, o Dieese informa que os números da informalidade chegam a 40% no meio urbano, e a mais de 50% no rural. Uma mostra de que o trabalho (a idéia de "trabalho" já esteve ligada a possuir uma profissão...) se encontra em profunda crise, especialmente no terceiro mundo.




Isso me fez pensar sobre um fenômeno que é quase uma epidemia aqui no Rio de Janeiro: o dos vendedores de bala dos ônibus. Tenho 32 anos, e me lembro de que quando tinha 18, 20, era raríssimo ver uma pessoa se prestar ao papel indigno de entrar num transporte público pra pedir ajuda pra pagar as contas de maneira honesta (alguns chegam a dizer: "poderia estar roubando, mas estou aqui"). Hoje, o raro é entrar num ônibus e não ser abordado por algum pedinte ou vendedor de bala... A dignidade no trabalho foi substituída por uma corrida frenética e desesperada por ficar pedindo esmolas para quem conseguiu transpor a barreira pesada da exclusão econômica (Aliás, acabo de me lembrar que comecei a dar 'bom dia' pro segurança do banco onde tenho conta, e que passei a frequentar há pouco tempo, porque fica perto do colégio onde dou aula. Bastaram duas semanas de educação, pro cara virar pra mim e dizer: "pô, mano, não vai deixar um café?"... Demorei uns dez segundos pra responder: "Mermão, tá arriscado tu me pagar um café, e não eu pra você").




Claro, não dá pra esperar que o jornal O Globo tome postura diferente da de defender essa lógica escrota. Afinal, lucra e muito com ela. Mas podemos pensar para além da notícia, sobre o que está acontecendo com esse país. Um país onde não há mais emprego, porque a lógica agora é a do cada um por si, na selva sem Estado.




Ah.. o título da reportagem é "Desemprego Zero". Pasmem...




Vou engolir os palavrões e terminar o texto.

Sábado, 19 de Abril de 2008

Analfabetismo Voluntário

BLOGAGEM COLETIVA CONTRA O ANALFABETISMO
Analfabetismo Voluntário


Não sou daqueles que defendem o "popular". Cada época traz suas correntes, que o presente vai arrastando até o próximo abismo, quando, então, o tempo tropeça no espaço, mudando a face da coerção.



Por isso, vou seguir, em minhas linhas certas e em meu texto torto, o caminho das máscaras da alfabetização. Quando Althusser propõe a Educação como um Aparelho Ideológico, ele se aproxima de Foucault, com sua Teoria do Discurso: há sempre um texto que nos escreve, mesmo que não consigamos transpor a miopia cotidiana, avistando um pouco mais de horizonte.



A Teoria Crítica, a Poesia, o Surrealismo, Freud, Lacan, Cioran e alguns outros textos marginais nos propõem atenção re(des?)dobrada para com esse tal de "olhar". Poderíamos resumir assim: Quais são as idéias, palavras, conceitos, tramas e traumas que arquitetam suas conclusões? Quem é você, cara-pálida?



Esses textos marginais, as notas de rodapé da história, a crítica que transita pelos becos assoprando o lixo de cada dia e de cada ideologia, são entretanto, os mesmos que sustentam vivo o estertor do pensamento um pouco mais sofisticado.



A linguagem é um símbolo muitas vezes maltratado pelo uso simplório. E isso nos remete ao endereço da questão: o problema maior está aonde, exatamente? No analfabeto completo, que não lê sequer o nome ou naquele que lê o nome, o endereço e o CPF, mas que não consegue transpor sequer o meio-fio da linguagem, por se apegar, empáfico, ao asfalto de sua própria ignorância?



No mundo de hoje, a grande praga é, de fato, o simplório. É o retorno aos umbrais da história, quando os fonemas ainda guerreavam por articulações mais elaboradas. Simplificando cada vez mais, continuamos a retornar ao choro do tempo, sem, contudo, a fome de outrora.



O verdadeiro analfabeto, como bem disse Mario Quintana, não é o que não sabe ler. É o que sabe ler e não lê. Mas o que seria, exatamente, "ler"? Seria apenas relacionar as letras e palavras? Ou há uma guerra mais profunda, para onde se deve apontar nossa atenção?



Não existe paz e não existe liberdade na linguagem. E isso não é apenas poesia. É poesia. Sem o apenas. Justamente por que não se trata de um acordo com o simplório. É preciso que a mente avance para novas ilusões, antes que a luz do esclarecimento termine por hipnotizar completamente nossos olhos, nos impedindo de ver além - e aquém também, porque não?



O analfabetismo do Brasil é quase que uma religião. A burrice e o sorrisinho sonso e tolo estão na moda. E os papas da mediocridade continuam a rezar suas missas para os fiéis da burrice. Sob aplausos de placa, que, entretanto, constróem o mesmo eco.



E aos professores cabe a insólita tarefa de jogar areia no olhar dos alunos, com a intenção de manter ao menos um vestígio de sombra no clarão, que seja capaz de mostrar que a verdade não está lá, nem cá, mas que se encontra sempre nos disfarces da história, sempre irônicos e prontos a nos incitar sorrisos e tropeços, quase sempre ambos ao mesmo tempo.



"O povo não entende!" Mas quem é que "entende", de fato? O problema não está na letra, mas no ritmo. O alfabeto da sombra é mais rápido, e seu deslocamento é sempre sutil. Apender a ler pelas entrelinhas: talvez seja esse o caminho para quem "forma" nesse país. Para que possamos vomitar nossa submissão. Que é ideológica, sim, como não? Está em cada reprodução dos signos anti-sociais do consumismo. Em cada eufemismo que sustente a mediocridade da mídia. E em cada silêncio cínico, que alimente a passividade de nosso pensamento.



Cada um tem a sua (sub)missão. O problema é: Por que bandeira você vai guerrear? Pela paz? Não dá bandeira, cara. Paz é papo de analfabeto midiótico. Mídia. Idiota. Ótico. Míope. A guerra tá aí, pra quem quiser ver (?). Mas tem que sujar um pouco os olhos. Olhar pra ignorância com olhos menos alvejados pelos alvejantes do discurso. Pra conseguir farejar a sujeira que se esconde por baixo dos tapetes e sorrisos.



Livre disso é o analfabeto. E se você chegou até aqui, é por que tá dentro do turbilhão.



Se fica uma mensagem, pode ser essa: por um Brasil menos 'midiótico'.

Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Qual é o pedaço da tua ilusão?


"A mídia devora verdades, mastiga e regurgita pedaços de fatos, vendidos como totalidade de nossa realidade. Contudo, o que é mostrado não passa de uma versão manipulada dos acontecimentos, disponibilizada com o intuito de esconder a amplitude, a abrangência e as motivações do que realmente está se desenvolvendo. Assim, a mídia surge como o mais poderoso instrumento de coerção e de desmobilização social da busca pela verdade, decorrentemente adversa ao estabelecimento de mais justiça social, de melhor qualidade de vida e do desenvolvimento dos potenciais humanos. Em nome das grandes mídias, agradeço ao público: OBRIGADO POR NÃO PENSAR!"



Esse texto é a chamada de uma comunidade do orkut, chamada "Obrigado por não pensar!". Serve pra observar que nem tudo é futilidade na internet. Claro, é difícil achar alguma coisa que não seja babaquice, pornografia ou preconceito oriundo de adesão a modas escrotas. Mas se a pessoa estiver comprometida com um pensamento de qualidade, acaba grudando alguma coisa boa na peneira.


Cabe colocar apenas que essa expressão, "manipulação", é perigosa. Ninguém tem a verdade definitiva do mundo. Toda informação é a manipulação ideológica de um olhar, e isso é poético, mas não é 'apenas'. Isso não significa que seja necessariamente uma informação escrota ou com intenções anti-éticas. Mas o problema passa a ser com que tipo de repertório você vai julgando as questões que te surgem.


Se a mídia vende pedaços de fatos como se fossem a totalidade, é justamente na denúncia de qualquer generalização como verdade real que reside a postura crítica. E isso inclui a própria crítica.


Entretanto, isso não elimina a possibilidade de consenso. Só não pode ser o "consenso da mediocridade", de que fala o Aldir Blanc. É fundamental que o repertório se alargue. E não é isso que a mídia brasileira deseja. Cabe a você buscar alternativas. Ou não. Cada um é dono das suas algemas...

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Colonizados


Ontem fiz uma resenha sobre um texto que fala sobre a origem do retrato no Brasil do século XIX. Rapidamente, dá pra resumir refletindo que quem utilizava a nova técnica, que vinha da França, eram os novos burgueses, aristocratas rurais.


Um traço marcante do fato é que os tais burgueses utilizavam roupas e objetos essencialmente rurais no seu dia-a-dia, enquanto que, nas fotos, mudavam completamente o visual, para se assemelharem aos europeus. Roupas, poses e adornos eram totalmente modificados, no intuito de deformar os caracteres próprios da pessoa, em prol do modelo a ser seguido, o dos de fora.


Será que isso explica alguma coisa do que se vive hoje, em termos de classe média, no Brasil?...

Sexta-feira, 11 de Abril de 2008

Agatha Christie, os fatos e os detalhes


Acabo de ler mais uma das interessantes tramas da Agatha Christie. Chama-se "A Terceira Moça". Uma agradável história, que mostra a grande habilidade da escritora em montar enredos de investigação mesclados de forma prazerosa com alguns aspectos "psicológicos" das relações humanas.


O interessante é que Hercule Poirot, o grande detetive-protagonista da trama, defende, ao mesmo tempo, os "fatos", como via principal de análise das intrincadas questões criadas pela autora, e a importância dos detalhes, que geralmente passam desapercebidos pela maioria esmagadora daqueles que só atentam para.. os "fatos".


Enquanto todos estão preocupados com as confissões da suspeita, o detetive acaba desvendando a história graças a uma peruca e um quadro. Nada que não esteja na sinopse, fiquem calmos...


O que mais agrada na história é o fato de que Agatha Christie se esforça, com sucesso, para nos fazer pensar exatamente com os dados e reflexões de que dispõe o detetive em seus pensamentos. É como se ela nos levasse a pensar no mesmo ritmo dele, entretanto nos dando dicas que, se estivermos atentos, nos permitem tentar a solução do mistério.


Claro, sou supeito, por admirar de longa data as histórias da "Dama do Crime". Mas vale a sugestão. Inclusive, me lembrei de um texto que li há algum tempo (um ano, talvez), do Ricardo Piglia, crítico literário argentino, no qual ele relaciona a lógica da investigação dos romances policiais com a psicanálise. Claro, há a diferença do problema da "solução", que não é o caso na tese freudiana. Mas em certos detalhes - especialmente no que diz respeito, justamente, aos detalhes -, concordo com o Piglia. Agatha Christie e Freud é um casamento interessante e que estimula diversas reflexões.

Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Filtro de merda...



Aprendi no ano passado que o papel de jornal é muito melhor que aquela areia que se vende em sacos, no que tange a eliminar o odor da urina dos gatos. Um caderno de classificados bem posicionado deixa a casa livre do cheiro por até três dias, o que é suficiente para minha preguiça para esses afazeres domésticos.

Então, cumprindo esse ritual, estava eu pegando um jornal antigo (de fevereiro, mais precisamente) para trocar os excrementos felinos, quando fui acometido por uma dúvida atroz, advinda de um anúncio classificado que o acaso posicionou frente a meus olhos. Antes de compartilhar minha dúvida cruel com o leitor, vamos às suas causas.

O jornal em questão é um caderno de classificados de carros e motos do JB, datado de um sábado - como já sabe o leitor assíduo, o único dia no qual me aventuro a comprar jornal -, dia 9 de fevereiro deste ano. E o que me provocou a reflexão que inspirou esse texto foi justamente a manchete da primeira página do caderno: "BOM PARA TIRAR ONDA: um passeio pela zona sul confirma: na hora de desfilar, o Peugeot Coupé Cabriolet faz bonito. Além de deixar qualquer um parecendo milionário, o carro é bem resolvido".

O ser humano vige no acometimento de suas máscaras. Não há rosto humano que não se esconda por sob máscaras. E não é de pureza que se quer falar aqui. Mas a coisa anda cada vez pior...

Etapa por etapa, o discurso do mercado se afasta cada vez mais da utilidade efetiva e primária dos objetos de consumo, o que produz uma lógica completamente refratária da identificação social que mantém possível o confronto sadio e civilizado de idéias como bandeira de uma sociedade possível.

O carro em questão, "bem resolvido", custa a bagatela de 146 mil reais e pode atingir, se forem desrespeitadas todas as leis de trânsito, os 200 km/h. Entretanto, o que mais interessa à reportagem, ao que parece, é o fato de que o carro atrai os olhares alheios, "na hora de desfilar". A parte interna da reportagem chega a dizer, de forma explícita, que "o carro ganhou nota 10 para o quesito olho grande [!!!]. A todo momento, o conversível automático motivava inveja [!!!] e admiração". Claro, os marqueteiros e interessados se defenderiam com aqueles eufemismos, do tipo "ah, mas é inveja boa...".. Mas não se pode levá-los em consideração. O fato é que a inveja e o olho grande são estimulados, numa exaltação clara à escrotidão individualista como mania no espaço público.

E não deixem de observar que o mesmo jornal será aquele que continuará incentivando a educação no trânsito, além de pregar, sempre que não houver nenhum álibi melhor, a solidariedade (que é oposta a signos como "inveja" e "olho grande") como solução para os problemas humanos no raiar do século XXI...

Minha dúvida? Era apenas a seguinte: coloco ou não o jornal para a merda do gato? O jornal, para filtrar bem os excrementos, tem que estar limpo... este, já está escorrendo, com tanta bosta numa mesma reportagem...

Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Para os viciados, como eu...



"O pensamento é um narcótico eminente"

Walter Benjamin




Eu iria colocar, aqui embaixo, um marcador com o nome de "drogas lícitas". Mas... pensei melhor, e acho que, na verdade, pensar, hoje, é cada vez mais ilícito. Experimente tentar mais de uma inserção inteligente seguida, e veja se não há, ao menos, um leve mal-estar...

Sábado, 5 de Abril de 2008

A liberdade e o dinheiro, o dono dela... (?!)


Pensando em alguns trabalhos para os alunos, revi, ontem, o documentário Ilha das Flores, do Jorge Furtado. Não consigo deixar de me impressionar com as cenas, mesmo revendo pela centésima vez. E o cineasta trata de uma questão importante, que diz respeito ao cerne das relações capitalistas: a tal da "liberdade".

Diz ele que a liberdade alimenta o sonho humano, que ninguém consegue explicá-la, e que todos entendem. E aí? Dá pra ser "livre" sem dinheiro? Mas não seria um condicionante, então??

O porco recebe preferência na cabeça do escroto dono da propriedade filmada, justamente por que tem um dono. Os indigentes comem os restos que os porcos recusaram, porque são "livres". Não possuem um dono, alguém que lhes retribua o lucro gerado.

É a chamada classe média que sustenta essa porcaria, porque a ela se reservam algumas esmolas que mantém vivo aquele sopro de esperança de ser dono um dia. Claro, sabe-se que uma parcela ínfima desse grupo ascende. Mas a excitação da corrida frenética pelo poder comparece, o que garante a sustentação cínica da desigualdade econômica brutal.

Enquanto isso, aqui embaixo, estão construindo um prédio na rua do lado (moro na Tijuca), o qual avisto pela janela. A atração do prédio é ser parecido com o estilo Barra da Tijuca, condomínio fechado, com áreas de lazer que dispensam a rua para os moradores sortudos. Mais um afogamento do espaço público. E o projeto está naquela fase de vendas na planta. O som ligado alto, tocando "ela balança o cu na vara...", com dois rapazes negros vestidos de palhaço, com uma seta na mão, apontando para a entrada do "empreendimento", e rebolando como mulheres.. atrás, o segurança, um cara de 2 metros, de terno, que toma conta para que a coisa ande nos trinques.

E o mendigo continua contando as folhas de seu caderno, sentado na porta de um caixa eletrônico ao lado da obra.. enquanto os carros zero quilômetro continuam entrando pela porta do futuro prédio.. orientados pelo sorriso forçado de nossos palhaços..

É...

Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

O sangue e os nossos olhos



Ao saber, pelo blog do Ricardo, o Todo Prosa, sobre o assassinato brutal de uma pequena menina, atirada pela janela de seu apartamento, fiz um comentário pequeno, pois não sabia da notícia, e dei uma olhada nos outros comentários. Todos indignados, claro, com o ocorrido.

Um desses outros era do Pablo Pamplona, que chamava a atenção para uma questão importante, a sede de sangue da mídia, sempre em busca de mais e mais audiência. Realmente há uma grande parcela de sordidez na escolha da abordagem por parte da grande mídia, que faz o possível para colher o máximo de sangue e sexo dos acontecimentos, no afã de seduzir a atenção dos expectadores.

Mas, alto lá! Isso indica uma coisa importante, nas entrelinhas. Se a mídia apela numa de aumentar a audiência, significa que à audiência interessa o que é apelativo. Sangue e sexo traduzem muito do que é o ser humano.

O brilhante escritor e teórico francês George Bataille tem um livro no qual trata dessa questão através de um ensaio. Se chama O Erotismo. A orelha foi escrita por Marcia Sá Cavalcante Schuback, e tem um trecho que é excelente leitura do que é o ensaio. Diz ela: "Para Bataille, o grande sofrimento humano frente à morte não é aquele de perder a "vida", mas o de ser arrancado de sua descontinuidade, isto é, de sua individualidade finita e transitória. O grande sofrimento é deixar de ser sozinho para ser a continuidade da vida, para tornar-se 'uma onda perdida na multiplicidade das ondas do ser'".

O sangue alheio interessa, sempre, porque nos "salva", de certa forma. O indivíduo que em nós parasita agradece, sempre que "não é com a gente". Por isso, Freud propõe a sublimação como civilização possível. Na sublimação, esquece-se um pouco do sangue alheio, do sexo alheio, da morte..

E não há sublimação na guerra pela audiência...

Roudinesco: muito a dizer



Outra do Publish News informa que a psicanalista Elisabeth Roudinesco (na foto, junto com o filósofo Jacques Derrida) será uma das atrações da 6a edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, que acontecerá entre os dias 2 e 6 de julho. Ela vem lançar seu livro A parte obscura de nós mesmos: uma história dos perversos, editado no Brasil pela Jorge Zahar.
A informação é repassada de uma notícia do jornal
O Estado de São Paulo, publicada ontem.

Vale a pena conferir o que Roudinesco tem a dizer. Já publiquei, aqui, um texto sobre ela, que suscitou alguns comentários interessados. É uma autora muito inteligente, com grande contribuição para a discussão sobre as implicações dos 'discursos de ego' no mundo contemporâneo. Uma das mulheres mais brilhantes do debate intelectual de nosso tempo.

Fidel e os nossos condicionantes