
O século XX ficou marcado por ser um período de substituições, de ilusões por outras ilusões. Das promessas do Iluminismo, de que a Igualdade, a Liberdade e a Fraternidade poderiam ser signos eficientes para o convívio dos povos, sobrou pouco. Muito se esperava da tecnologia, que criou a bomba atômica, ápice do masoquismo humano, além da gradual destruição das possibilidades naturais para a vida do homem, pela via da degradação ambiental.
Outra ilusão que vingou foi o capitalismo, que conseguiu se firmar como altar de salvação para a conexão global, legando aos indivíduos uma metáfora perfeita de sua própria estrutura conflituosa e narcísica. A sociabilidade passou a um estágio de espelho, reproduzindo, autofagicamente, as demandas egóicas de cada um. A simulação de uma liberdade sem limites ganhou a adesão geral, o que construiu a plástica perfeita para os jogos de poder da minoria de sempre: as massas alienadas convencidas de que o 'valor de troca' era seu único eldorado possível.
Os chamados genocídios, matanças de grupos inteiros de etnias, continuaram por todo o século. E continuam até hoje. A novidade é que o terrorismo substituiu as guerras declaradas no cenário bélico.
Enfim, tudo isso é um problema de crença. Não apenas a crença em religiões.. A crença no dinheiro como valor positivo talvez seja a mais grave de todas, a geradora das mazelas desse pedaço de tempo.
Mas vamos deixar de lero. Li não sei aonde o título "Dez livros para entender o século XX", mas muito de relance. Entretanto, a coisa ficou na minha cabeça e decidi fazer minha lista. Esses livros ampliaram minha visão sobre esse extremamente problemático período que vai do início do século XX até os dias e hoje. Devem existir outros importantes. Mas esses me parecem os principais. Fique à vontade.
(Obs: escolhi apenas os livros filosóficos e analíticos, excluindo a literatura, apesar de reconhecer nela peça fundamental para ampliar o olhar, sem sombra de dúvida)
"O Mal-estar na Civilização" (Sigmund Freud): Nesse trabalho, Freud coloca em xeque o mandamento cristão do "amai ao próximo
como a ti mesmo", chamando a atenção para a sutileza egóica do cristianismo contida no mesmo. A violência implícita ao mandamento vem à tona, assim como a manutenção de um igual distanciamento de nossa própria violência, que seria, para o inventor da psicanálise, peça analítica fundamental.
"Uma breve História do Tempo" (Stephen Hawking): O físico, figura eminente da ciência contemporânea, expõe as conexões atuais entre a teoria da relatividade de Einstein e a mecânica quântica, indicando mudanças completas para os paradigmas científicos tradicionais, que - digo eu - atingem a parte mais radical do pensamento das ciências humanas, especialmente no que diz respeito à discussão sobre as singularidades, extremamente afetada pelas mudanças.
"A Sociedade do Espetáculo" (Guy Debord): Relendo conceitos de Marx e Hegel e avaliando a conjuntura do capitalismo da mercadoria em sua época (década de 60), Debord expõe com mestria a estrutura da passividade contemporânea através da noção de "espetáculo", que mescla a crítica do lazer e do entretenimento como agentes de uma socialização virtualizada ao extremo. O que ele chama de "prática social unificada", crise brutal da diferença, da política e da arte.
"As Palavras e as Coisas" (Michel Foucault): Fazendo um inventário analítico do Ocidente pós-Renascimento, Foucault mostra como o discurso da ciência ascende ao topo epistemológico do mundo, vingando como religião principal do modo de vida que sustenta as enunciações atuais. O afastamento de uma lógica metafórica essencialmente representativa, a do Renascimento, dá lugar a uma mitologia das classificações, que define a ideologia dos tempos modernos. É o 'poder' visto pelo plano de sua lógica normativa, que aproxima-o, em sinonímia, da ideia de 'saber'. Além disso, em suas pesquisas extremamente rigorosas, Foucault nos apresenta a gênese do credo econômico, o que talvez seja a principal mitologia do mundo moderno, até hoje.
"Dialética do Esclarecimento" (Adorno e Horkheimer): Os autores passam a limpo a noção de "Esclarecimento", que consta da palavra alemã para Iluminismo (Aufklarung), demonstrando o quanto de falácia existe no projeto ocidental pautado pela razão tecnocientífica. A transformação da arte em mercadoria, pela via da semântica da propaganda e do cinema, aparece como núcleo do principal texto, "Indústria Cultural: O Esclarecimento como Mistificação das Massas", que tem mérito semelhante ao trabalho de Debord, qual seja, o de chamar a atenção para o problema contemporâneo da passividade como valor positivo.
"Da Sociedade Pós-Industrial à Pós-Moderna" (Krishan Kumar): O pensador inglês analisa o trajeto histórico das noções de "Modernidade" e "Modernismo", e nos faz refletir o declínio da semântica da
tradição e a ascensão da mitologia do
progresso como ordenadora do discurso ocidental. Dentre outras reflexões importantes.
"A Transparência do Mal" (Jean Baudrillard): O francês ataca aquele que talvez seja o principal sintoma da crise da diferença como via de conflito socializante e político, oriunda da mitologia globalizada: a supressão da lógica do Mal, trocada por um discurso higienizado de suas contradições pelo caminho de uma produção ininterrupta e ilusória de positividade que anestesia a negatividade, exilando a possibilidade crítica a um estado de 'museu da inteligência', que só apareceria como eufemismo ou como melodrama.
"Guy Debord" (Anselm Jappe): Usando como mote o estudo da vida e da obra do pensador francês, Jappe perfaz o caminho teórico e político que levou a economia ao estágio de produtora ideológica de toda a vida humana, submetida às suas leis de uma forma extremamente grave. Um trabalho de pesquisa amplo, que analisa os caminhos que levaram o pensamento crítico do
Situacionismo ao topo do debate teórico do século XX.
"Cosmos, Caos e o Mundo que Virá - As origens nas crenças no apocalipse" (Norman Cohn): Além de ser pesquisa rica e rigorosa sobre a temática do apocalipse, o livro traz parte fundamental da influência discursiva do Oriente Antigo para o mundo ocidental, especialmente no que diz respeito à ideologia do 'discurso único' que permeia a mitologia da globalização atual, sendo essa última pista minha, relendo as conexões que o autor apresenta.
"BraZil no Prego" (Gilberto Felisberto Vasconcellos): Neste importante trabalho, o autor faz importante levantamento analítico a respeito das influências ideológicas da política e do pensamento hegemônico no Brasil do último século, desde as ideias que vingaram, como a economia neoliberal e sua sustentação acadêmica na CEPAL, até os pensadores que foram excluídos do cenário pelo ocultamento forçado, como a figura do cineasta Glauber Rocha, por exemplo.
E é isso. Espero que curtam a lista. Se tiverem sugestões, só falar.