terça-feira, 1 de dezembro de 2009

'Tamo' quase lá, mengão...


A polêmica da vez no futebol é a possibilidade de o time do Grêmio "entregar" o jogo para o Flamengo, ajudando o meu time a conquistar o título de hexacampeão do Brasil. O Marcelo torcedor quer mais é que o Grêmio facilite o jogo, pra gritar campeão sem maiores problemas. Entretanto, "outro Marcelo" quer pensar melhor sobre o assunto.

Recentemente, muitos levantaram a voz pra defender a tal da "mala branca", que seria um incentivo para times pequenos ou sem chances jogarem com vontade em jogos nos quais poderiam tirar pontos de times envolvidos na busca pelo título. Sinceramente, é uma questão ambígua. Por um lado, penso que o incentivo maior tem que ser exatamente o título, o que leva a concluir que time que tá lutando pelo caneco não pode escolher adversário; por outro, esse tipo de atitude, de "comprar" o empenho de outrem, me parece anti-esportivo ao extremo, na medida em que o jogo limpo não é a principal medida da coisa.

Para além da ética, sobreveio-me o pensamento de que a palavra "esportivo" possui mais detalhes do que aparenta a princípio. O que seria exatamente isso, o "esportivo"? O esporte é, para além das aparências, uma senhora "guerra", uma disputa muitas vezes homérica.. Como estamos na época dos eufemismos ideológicos, muito se mascara sobre esse caráter, digamos, bélico as competições. O que não o elimina, claro...

Mas há um outro ponto. Há um juiz no jogo.. E o juiz serve exatamente para conter os excessos do esporte. Portanto, é uma questão mais ampla do que se pensa.

No final da história, sobra o seguinte: O resto tem que torcer contra.. senão, o mengão vai ficar ainda mais chato de aturar...

Hexacampeão!!

domingo, 29 de novembro de 2009

De como mudar e ser o mesmo ao mesmo tempo


Os dois bonequinhos da foto são, respectivamente, Beavis e Butt-head. Fizeram sucesso na MTV, na década de 90, com um desenho que sacaneava as músicas (que eles consideravam) ruins e os adereços exagerados dos roqueiros da época, os famosos cabelos de boneca velha. Butt-head significa literalmente "cabeça de bunda". Os dois eram exemplos de pré-adolescentes completamente idiotas, sem o menor senso de suas atitudes e das consequências do que faziam. Ri muito com o desenho, porque achava engraçado. Mas ele retrata, para além da piada, uma época.

Hoje, enquanto ía para a praia numa van, tocava a música na rádio. Uma dessas músicas para adolescentes, tão na moda ultimamente, depois que adolescente virou gente, depois que viraram referência para alguma coisa. Em um dos trechos completamente sem nexo e sem continuidade da letra, uma pequena sequência chamou a minha atenção. O início dizia algo assim: "Mudei por você..." e mais duas ou três frases, pra depois vir o complemento, que era algo assim: "E agora não tenho mais medo.. de ser quem eu sou". O detalhe é que as frases diziam respeito ao mesmo momento. Ou seja: o gênio que criou essa obra-prima da música brasileira conseguiu mudar por alguém e "ser ele mesmo" (a despeito da complexidade que isso guarda) na mesma situação. Brilhante...

E essa é a geração que a mídia exalta como o futuro da humanidade...

sábado, 28 de novembro de 2009

O crápula da vez


O troféu cara-de-pau da semana vai para essa figura com papo de bode à direita da foto acima. Muito bem acompanhado pelo presidente Lulinha paz e amor e por semelhante nulidade política, o almofadinha Geraldo Alckmin, o papudo é o presidente da empresa de luz do Rio de Janeiro, a Light, que tem nome inglês, o que condiz com seu papel totalmente desconectado da lógica pública.

O jornal 'O Globo' de hoje anuncia que o sujeito, que se chama José Luiz Alqueres, teve a cara-de-pau de dizer que o apagão ocorrido há alguns dias no Rio só teve repercussão porque um dos prejudicados foi o povo do Leblon, bairro da zona sul do Rio. Em outras palavras, se o problema só tivesse ocorrido no suburbão, nada seria dito de mais danoso para a imagem da "empresa".

Inacreditável...

A verdade é que a luz deveria ser um bem público gratuito para todos. Entretanto, se a pessoa fica desempregada, a light não quer nem saber: corta mesmo... eu mesmo já fui vítima disso.

A declaração desse canalha mostra como funciona a cabeça dessa gente: tem grana, a gente ouve; não tem, que vá pro inferno...

Cadeira elétrica pra ele...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Chavez e a mídia: um embate a ser pensado


Anteontem, depois de ver o massacre que o Fluminense levou da LDU, na final da Sulamericana, mudando os canais parei na TV Brasil, pra ver o Observatório da Imprensa, do Alberto Dines. Dines, para quem não conhece, é uma figura simpática, que confia no jornalismo como uma profissão importante para uma sociedade plural. Seria, meu caro Dines... Seria... se a coisa estivesse em mãos diferentes, especialmente no que tange ao caso brasileiro. Mas o caso não era exatamente esse.

O programa de Dines, nesta quarta, falava sobre a relação do presidente Hugo Chavez com a imprensa de seu país. E o programa serve para percebermos como uma crítica a uma possível ditadura pode ser feita de uma forma igualmente ditatorial, e, o que é pior, de uma forma bastante simulada.

Uma das pessoas entrevistadas pelo jornalista da TV Brasil, Claudio Bojunga (aliás, jornalista este extremamente parcial em suas colocações) foi a Ministra da Comunicação e da Informação da Venezuela, Blanka Eekhout. A ministra se mostrou uma pessoa extremamente bem informada sobre o papel hegemônico da mídia, no mundo de hoje. Aliás, como poucos políticos que costumo ouvir na mídia brasileira. As ponderações da ministra demonstram ser ela sabedora do fato de que a mídia é um dos principais braços de articulação dos conglomerados de poder empresariais da atualidade. E, para além disso, sabedora também do imenso poder ideológico desta mesma mídia, construtora de passividade e de versões parciais disfarçadas de objetividade, como sabe bem quem estuda o tema de forma aprofundada.

A ministra causou medo ao Dines, segundo ele mesmo. Isso porque ele acredita no poder de pluralidade da mídia. Não é o que esta mesma mídia vem demonstrando a olhos atentos, meu caro jornalista otimista.

Outra crítica dos jornalistas brasileiros é a de que o golpe que a RCTV tentou contra o presidente venezuelano não pode servir de pretexto eterno para manter olhos desconfiados contra a mídia. Ora, não sejamos inocentes... Porque vocês acham que o cinema dos norte-americanos faz filmes contra o nazismo até hoje?... Aquilo que causa traumas a um povo deve ser relembrado constantemente, como forma de catarse e reflexão, para que não ocorra novamente.

E há outra inocência em questão por aí. O presidente da câmara brasileira, até bem pouco tempo, era um integrante do Partido Comunista do Brasil. As redes de TV sempre abriam o microfone pra ele. E por quê? Ora.. porque ele faz parte de um governo capitalista, claro.. Se o Partido Comunista tiver um candidato à presidência, com certeza vão malhar o cara e colocar o comunismo como inviável. Não que eu ache viável, mas isso prova que a mídia é extremamente ditatatorial em sua postura ideológica. Não tem nada de plural. Só afaga quem lhe convém. É uma mídia capitalista, em essência. Com interesses de mercado que falam muito mais alto do que a balela da "utilidade pública" na qual muitos acreditam.

Aliás, mais: que papagaiada essa de um partido como o PCdoB fazer parte de um governo extremamente capitalista como o do Lula, hein?... No fundo, há mais fingimento do que peito pra mudar o que tem que ser mudado.

Passei agora há pouco perto do hospital do Andaraí. Tá caindo aos pedaços. E por que, exatamente? Pelo simples fato de que não tem "clientes" ricos... É um hospital público, ora... Deixa essa gente morrer, que se dane.. Mas tudo bem... só não podem acabar com a nossa liberdade de consumir.. de comprar um celularzinho da moda.. e só não podem acabar com a nossa "liberdade" de imprensa.. com os jornais e programas de TV, tão instrutivos, ora... Somos um povo livre, livre pra não fazer nada, livre pra votar mal, livra pra defender uma mídia escrota que em nada contribui para acabar com as desigualdades econômicas desse fosso de barbaridades chamado Brasil.

A verdade é que experiências como a de Chavez e a de Cuba figuram como fantasmas para grande parte dos 'otimistaszinhos' pós-modernos, que adorariam dizer, com o lap-top na frente, sentados na mesa do bar, enquanto o mendigo catuca a lata de lixo, que o socialismo acabou. Não acho que esse país de vira-latas que é o Brasil vá chegar algum dia ao socialismo... mas também não fico repetindo besteiras por aí, pelo simples motivo de que a história tá cansada de desmentir as bestas. Continuo achando, portanto, a experiência da Venezuela algo a ser analisado com interesse, pelo bom motivo de que coloca em xeque aquela que talvez seja a mais embaçada das verdades instituídas do mundo contemporâneo: a de que a mídia necessariamente ajuda uma sociedade a ser plural. Não ajuda.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Moisés carioca


Num dos trechos do livro "Caim", Saramago reflete, através de seu protagonista, sobre o grande negócio que é a guerra, desde tempos imemoriais. Pra citar apenas dois casos, o personagem passa pela história de Sodoma e Gomorra, onde milhares de crianças pagaram o pato pelas loucuras dos adultos, e pelo genocídio dos madianitas, orquestrado pelo próprio Deus, no qual sobraram várias cabeças de gado e várias mulheres solteiras para serem usadas pelos judeus, com o objetivo de eugenia que lhes é peculiar.

A leitura desses dois capítulos, hoje mais cedo, levou-me o imaginário à manchete do Globo de ontem, na qual estampava-se a notícia de que "nosso" Moisés, Sérgio Cabral, estaria enviando policiais cariocas do Bope para estudar técnicas de guerrilha na Colômbia.

Continuamos, pois, nosso martírio, por sob os retalhos inúteis de figuras como essa, um político de ocasião, macaco de imitação do que há de pior no mundo de hoje. O tráfico de armas agradece.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Isso não é uma poesia


A rebeldia
é isso
que rasga
os contratos assinados em branco.

A rebeldia
despeja a verdade
do solo movediço
que a ilude.

É um contato direto
com a sujeira trágica
que pulsa anestesiada
por trás
da higiene mórbida do dia-a-dia.

Mesmo quando a verdade se disfarça
de relatividade distorcida,
é aí que se apresenta
o lado moral da rebeldia.
Sua faceta platônica,
anti-democrática.

A única democracia possível
é a da burrice.

A rebeldia
é a personagem protagonista
de uma peça
que só enxerga
quem escuta, detrás do palco,
ao solo confuso
das entrelinhas confusas
da cena.

Rebeldia que é crime
que não compensa,
no mundo dos crimes
aparentemente perfeitos.

Não é possível adequar-se
depois de conhecer
a verdadeira rebeldia.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mais do mesmo...


Ontem, a madrugada foi hollywoodiana, pelo menos por aqui, na esquina da Tijuca com os bairros do Andaraí e de Vila Isabel. Muito tiroteio, durante pelo menos duas horas, tal qual um filme do Bruce Willis.

Me lembrei de uma cena de anteontem à noite, segunda-feira, quando voltava de ônibus da faculdade, na qual leciono. Dois PMs estavam sentados no último banco, com aquela cara de mal-encarado típica. E na hora em que eu me levantei pra saltar do ônibus, no meu ponto, na mesma hora eles colocaram a mão na pistola. Certamente, fazem isso sempre, dado o grau de insegurança em que vivemos, mesmo eles.

Nosso digníssimo governador, Sérgio Cabral, foi estudar segurança pública na Colômbia (...) Não espanta que estejamos caminhando para ser uma cópia piorada de Bogotá. É sempre aquele papo furado de investir em armamento, fazer concurso pra "aumentar o efetivo".. Aliás, "efetivo" do Paraguai, porque de efetivamente novo mesmo, nada acontece.

O que acontece é o seguinte: toda semana se prende um criminoso diferente. Isso dá uma falsa impressão, de que coisas estão sendo feitas. Estamos, na verdade, andando em círculos, repetindo os mesmos erros de sempre. Não se investe em educação, não se investe em saúde, não se investe para aumentar o repertório intelectual da população.. O resultado é uma gente passiva no nível político, consumista ao extremo, violência e futilidade. Não pode dar em coisa boa. E enquanto isso, o governador, o prefeito e o presidente espalham por aí a bazófia do "somando forças". Somam forças em prol da mesmice e da inutilidade.

Amanhã vão prender mais um ou dois bandidos. Amanhã aparecerão mais cinco. Enquanto não se mudar a lógica da coisa pela raiz. A consequência é uma polícia mais idiota, mais corrupta, mais violenta e menos educada. Uma população que pensa cada vez mais pela via do "cada um por si". Uma classe político-partidária cada vez mais cara-de-pau e imediatista, que promete soluções de curto prazo para coisas que só se resolvem em anos de projeto e rigor de trabalho.

A lógica que impera na política pública hoje é a da propaganda. Se um governante fizer alguma coisa muito boa (o que é raro hoje em dia), o seguinte trata logo de mudar a conquista, pra não dar moral ao anterior. Foi exatamente isso que aconteceu com os CIEPs, por exemplo. Por essas e outras, insisto que deveríamos ter alguém que ficasse muito tempo no poder, desde que tivesse projeto. De repente, quem sabe assim acontece alguma coisa?

Basta pensar nessa tal de UPA 24 horas, que é a maior historinha pra boi dormir. O cara gasta uma grana alta em emergência, quando a verdadeira demanda do Estado é a parte dos atendimentos mais caros, como cirurgias e exames ligados à tecnologia avançada.

Ano que vem tem eleição. E aí, vamos testar mais uma vez a memória das pessoas...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

(Des)ensinar a aprender


Essa é pra mostrar a quantas andam a educação neste país (e neste mundo, podemos arriscar).

Recebi este livrinho de bolso da editora Saraiva, que "presenteia" os professores no final de ano, já pensando nos lucros do início do ano, quando indicamos os livros escolares. Chama-se "Superdicas para ensinar a aprender". E como o nome é convidativo, pus-me a pesquisar os autores que nele assinam os artigos. No que fiquei especialmente impressionado...

Todos os autores (15 ao todo) são ou marqueteiros ou "consultores" de empresas ou "palestrantes motivacionais". Uma lista inacreditável, que conta com sumidades da mesmice, como Max Gehringer, Waldez Ludwig e o péla Içami Tiba, dentre outros.

Como conheço esses três charlatães, fui dar uma passada de olhos nos "textos" das figuras. Um bando de lugares-comuns, os mitos do mercado, um monte de besteira pra empresário, disfarçada de conselho para melhorar a educação das crianças. É a retórica privada, dos "resultados" e das aparências, invadindo a discussão educacional.

Vamos a algumas das frases feitas. Ludwig, que é um desses palhaços histéricos, a la Silas Malafaia, diz que a "profissão do futuro" é a de professor. Diz ainda que "o crescimento vem da agregação de conhecimento" (????) e, finalmente - pasmem! -, que o bom professor é aquele que, dentre outras coisas, não se envergonha do seu salário. Bom... fiquei sabendo, na faculdade, que esse babaca cobrava mais de 100 mil reais pra dar palestras para babacas mais babacas ainda, que pagavam esse absurdo para ouvir lugares-comuns como esses, completamente tolos.

Quanto ao lance do salário, não vou nem comentar.. Mas essa de "profissão do futuro" é uma dessas previsões idiotas de marqueteiro. Primeiro de tudo, professor sempre foi uma profissão importante. Já nasceu importante, seja pela função social que carrega, seja também pelas contribuições que dá, contraditoriamente, para sustentar as ideologias vigentes, como já destacou o pensador Louis Althusser, muito mais inteligente que a besta do Waldez. E quanto ao crescimento vir da agregação de conhecimento... Bom, o Ludwig que vá ler o Althusser, e outros da mesma estirpe, pra ver o quão tola é essa sua afirmação.

Já Içami Tiba vem com aquela balela de transformar informação em conhecimento. Outra besteira inocente, que demonstra o grau furicular de sua leitura. Informação e conhecimento são, muitas vezes, farinha do mesmo saco. Só saem da mesmice quando a reflexão, enquanto deslocamento aprofundado, entra em cena. E assim mesmo, é preciso ouvir as entrelinhas da tal reflexão, porque pode estar contaminada por máscaras sutis. A coisa é mais complicada do que pensa nosso japinha 71.. Prefiro ouvir o Rilke, alertando para a dificuldade da vida.

E a última delas (não consegui ler mais o livro, com medo de vomitar), vale nota por ter sido escrita por um dos papas da atualidade, o economista. O economista é quase um deus no mundo de hoje. Qualquer bosta velha se transforma em verdade absoluta na boca fétida de um economista. E o da vez se chama Marco Aurélio Ferreira Vianna, que é, segundo o livro, pasmem!!!, "doutor honoris causa" em educação. Inacreditável... mas vamos às besteiras.

Num dos textos, o "papa" nos diz que fez uma pesquisa despretenciosa sobre a atitude dos jovens em relação à sua vida de estudos. A resposta, segundo ele, foi quase unânime: "Eu frequento um colégio e decoro para as provas, para passar de ano, para entrar na faculdade, para aranjar um emprego" (p. 151). Depois de criticar o sistema, nosso economista passa a bula da salvação: temos que ensinar nossos estudantes a serem... empreendedores".. Pra quem leu um de meus últimos textos, essa balela já estará respondida. Mas há outra. Num dos textos que escreveu antes, o mesmo "doutor" defendera que o professor de hoje está cada vez mais elevado à categoria de "mestre da vida", em oposição ao que seria um professor que apenas se prende ao saber propriamente dito, à "teoria". Ele defende essa postura como uma espécie de vanguarda da educação.. Diria eu: É justamente essa postura relativista e "desvinculacionista" que gera o aluno que só pensa em acabar logo os estudos para trabalhar e ganhar dinheiro. Claro, juntamente com a tendência à repetição e à mesmice, que é quase natural do ser humano comum. O doutor, portanto, se afoga bonito em suas frases feitas...

Queria eu, sinceramente, saber quem deu esse título a uma mula dessas... Apenas pra saber mesmo... Deve ser uma daquelas bichas de terno que nunca leu um clássico e que assiste às palestras do Waldez Ludwig pra depois chegar em casa e dar uma trepadinha com a esposa, que foi torrar o seu dinheiro em um shopping-center e que fica rindo, acéfala, pras besteiras economicamente rentáveis de seu lucrativo marido: "Querida, hoje fiz um bem à nação. Dei o título de honoris causa a um grande pensador, que contribui diariamente com o crescimento intelectual do povo, com suas belas reflexões sobre o problema da educação, tão importante pro nosso futuro. Agora.. liga no Jornal da Globo, que eu quero continuar bem informado..."

Quanto ao livrinho, se não fosse de bolso, viraria pinico pros meus gatos.. A mim não seduzem com suas besteiras...

Os dentes afiados do pragmatismo


Essa tá fresquinha, aconteceu hoje de manhã.

Fui ao dentista. Um dentista novo, nunca tinha visitado o cara. Era num desses prédios novos, sem uma poeira voando, totalmente higienizado, tal qual a mente de um expectador-padrão do Faustão.

Quando adentrei a sala, o cara tava batendo um papo com dois sujeitos de terno, que, logo descobri, eram alguma coisa parecida com corretores de planos de saúde. Quando cheguei, o dentista me pediu um instante e foi terminar o papo com os caras, na sala de dentro. Como ele falava alto, não pude evitar escutar a conversa. Ainda bem, diga-se de passagem.

Os caras deveriam estar propondo algum tipo de negócio envolvendo empréstimo a "clientes" desesperados, que estivessem precisando de cirurgias dentárias, especialidade do malandro em questão. No que o dentista solta essa: "Mas vocês devem saber que a maioria dos meus clientes vem de indicação e, portanto, é uma clientela selecionada. Além disso, esse tipo de prédio impede que entre qualquer um aqui. Não é um desses sobrados... Minha clientela é das boas".

A conversa continuou por mais alguns instantes, 5 a 10 minutos, e decidi não ouvir mais. Peguei meu livro de contos do Sérgio Sant'Anna e continuei a ler um deles, que, inclusive, conta a história de um cara que, mesmo não sendo safado, vai fazer uma prova pra tentar trabalhar com um grupo de pastores evangélicos safados, que induzem fieis incautos a doar suas parcas quantias para 'nosso senhor', o bolso dos líderes espirituais.

Quando entrei no consultório propriamente dito, minhas suspeitas se confirmaram. O dentista tinha o maior papo de marqueteiro, aquele pragmatismo chato, travestido de "eficácia". E ainda mandou uma piadinha totalmente sem graça, dizendo que 'costumava dizer que fazia a coisa ficar tão boa quanto Deus...' Não que eu acredite no deus dos teístas, mas a figura era muito pretenciosa... ajoelhava direitinho nos púlpitos da tecnologia...

O leitor que me conhece bem sabe que não voltarei mais lá. Ele que continue sua cruzada pelos negócios, enquanto procuro um dentista que, das duas uma: Ou seja efetivamente ético, ou que fique calado e comente o estritamente necessário.

E estamos conversados...

Sobre universidades e puteiros...


Demorei um pouco, mas vou emitir minha visão sobre o caso da safadinha da universidade, que zanzou pelas dependências da mesma com uma micro-saia.

Ontem, numa rápida troca de canais, dei de cara com a figura, num desses programas patéticos das noites televisivas. Era o de Luciana de Menos, que já deu o ar da graça por aqui, na faltosa seção dos pélas da vez (que voltará em breve). Vamos então ao que ouvi ontem, pra depois passar aos aspectos gerais da questão, que interessam muito mais do que as frases feitas do programa.

Sim, o que vi ontem foi exatamente isso: um sem-número de frases feitas, das quais a mais usada foi essa babaquice completa, que virou mantra para legitimar todo e qualquer tipo de permissividade possível: "Vivemos num mundo democrático e ela tem o direito de usar a roupa que quer". Outra besteira latida veio da própria protagonista, a safadinha da saia, que dizia, imponente: "Não dou a mínima pra ninguém, uso a saia que quiser, ninguém paga as minhas contas". Pois bem...

Vamos direto ao ponto. Concordo plenamente com a expulsão da menina-vitrine. Universidade não é praia e não pode ser um lugar "democrático". Tem que ser um lugar cujos ritos exemplifiquem na prática os valores que cercam a simbologia do lugar. Querem transformar o ensino superior num treco qualquer, mas na minha reflexão não funciona. Estamos de fato numa época emburrecida, mas a história só morre na cabeça dos imbecis. Quem tem o mínimo de discernimento, sabe que existem diferenças entre as coisas.

Outro ponto foi uma colocação infeliz do apresentador Rafinha Bastos, do CQC, na segunda-feira. Quando o Marcelo Tas deu a nota sobre a safadinha da saia (se não me engano, se chama "Geysa"), Rafinha comentou: "O cara que expulsou essa menina não deve gostar de mulher". É o tipo da estupidez que dá pena... O que tem a ver uma coisa com a outra? Você exigir respeito num lugar público virou sinônimo de ser viado? Se você tiver uma irmãzinha, seu Rafinha, e ela for gostosinha, é só trazer aqui, pra eu te mostrar quem é que não gosta de mulher...

Quanto aos argumentos da menina, esse papo de que o fato de pagar as próprias contas justifica fazer qualquer coisa não se sustenta nem em jardim de infância. O dia que alguém desrespeitar a safadinha e mostrar o nome limpo no SPC, ela vai chiar do mesmo jeito. No dos outros é refresco...

Essa, aliás, é mais uma prova de que a mulher contemporânea é um ser socialmente inviável... Salvo as exceções de praxe...

400!


Apenas um texto rápido, pra constar que o blog está chegando ao seu post de número 400. Essa mania nossa, humana, de se impressionar com os "números inteiros"... Aliás, haveria isso de "números não-inteiros"?.. Continuamos na procura, de qualquer coisa que destoe da paspalhada vigente.

Obrigado aos leitores e leitoras pelas visitas gentis e pelos comentários..

Abraços e beijos aos respectivos.

sábado, 7 de novembro de 2009

Alta Cultura


Ontem terminei de ler um conto do Sérgio Sant'Anna (na foto acima), chamado "A Aula". Uma das coisas mais inteligentes que já li, sem exageros. As associações intelectuais que ele exercita ali, misturando deslocamentos de temática filosófica com questões pessoais do personagem, são brilhantes. Tanto do ponto de vista do conteúdo quanto da forma, de forma sutil, o escritor atinge um patamar ímpar com a história. Trata-se de um texto para poucos...

Depois querem vir com essa balela democrática... Sinceramente, tem muita gente por aí que deveria ficar calado, ou guardar a caneta na gaveta, e bater palma pra obras como essa...

Todo professor e toda pessoa que tem bom gosto e aprecia a boa arte, a arte do complexo, do bem elaborado, do texto que te exige concentração e reflexão aprofundada, deveria ler este texto. Simplesmente genial. Conseguiu me dar um prazer intelectual inenarrável... O tipo de coisa que dá orgulho de ser leitor da boa literatura. E que bom saber que ainda existe gente escrevendo coisas inteligentes, mesmo e apesar das balelas e simplismos vigentes (Como o que acabo de ouvir na rádio agora, alguém dizendo que é importante "democratizar a cultura" (????). O que seria isso??... Na real, é fácil adivinhar: nivelar a arte por baixo e pronto. Ou seja, pensamento de filisteu, como diria o grande Nietzsche).

(Aliás, alguém, por favor, poderia mandar pra masmorra o imbecil que aprovou uma lei transformando o funk num ato "cultural" do mesmo patamar de uma ópera ou de um livro do Sérgio Sant'Anna... faria um bem pro mundo...)


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mais uma pseudo-polêmica...


A pseudo-polêmica da vez envolve o cantor Caetano Veloso, que teria dito que o presidente Lula é um analfabeto. Sinceramente, o que mais me chamou a atenção foi a comparação que ele fez. Disse que votaria na Marina Silva porque ela seria uma mistura da parte boa do Lula com a inteligência (sic) do Obama. Minha pergunta é: o que faz Caetano achar o Obama inteligente??? O sorriso forçado dele? Ou seria o que os tolos chamam, hoje em dia, de "capacidade de marketing", como se isso fosse referência de sabedoria?? O que teria querido dizer Caetano?, eis a questão... Respostas para o blog.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Empreendendo uma reflexão


Esse tema do "sucesso profissional" é interessante... O que realmente move o desejo de crescer profissionalmente? Quais são os valores que influenciam a maneira como as pessoas desenvolvem seus trabalhos, ocupações, ofícios?...

De uns tempos pra cá, a mídia - principal válvula de escape do discurso atual - dissemina que o profissional de sucesso é aquele "empreendedor". Essa palavra diz um pouco sobre a coisa toda. Ela é como o slogan do Obama: muito bonitinho, mas não diz nada de efetivamente diferente. Empreender significa basicamente "fazer". Empreendemos lutas, boas ações, conquistas no terreno do bem comum, mas também podemos empreender guerras, mau-caratismo, cinismo, canalhice, roubo e um sem-número de barbaridades. Na verdade, podemos "empreender" qualquer coisa.

Os marqueteiros - e otimistas - de plantão vão retrucar: "Que nada!... O sentido desse empreendedorismo é o do fazer positivamente, no sentido da empresa e da carreira do profissional. Ora, para além do fato de que em nenhum momento a vinculação social das profissões é levada em conta, há, ainda, o bom preceito de toda pessoa que se presta a analisar qualquer coisa com olhos não tão embaçados: duvidar das afirmações autoreferendadas, pelo menos a princípio. Em outras palavras, não vai ser quem inventou essa balela de empreendorismo que vai deter a hegemonia significante da interpretação da questão. Ela precisa sofrer o delocamento da análise, para provar sua legitimidade.

É claro que, possivelmente, a febre da visão narcísica da profissão, alicerçada na balela do empreendedorismo, vai resistir bastante. Isso por que sabemos, nós que pensamos, como se comporta a tendência hegemônica do discurso. Mas... isso não significa que eu tenha que concordar com isso. O fato é que a ideia não resiste por muito tempo, sequer a deslocamentos simples. É mais uma das tolices sorridentes do contemporâneo. Como essa ilustração acima, que destaca a figuração atual do sucesso: o importante é o sorriso e a pose. Se a profissão está realmente trazendo melhorias para a sociedade?.. Ahh.. isso é secundário...
PS: Na hora em que eu salvei este texto, imediatamente apareceu uma daquelas propagandas do google, dizendo mais ou menos assim: "aprenda as melhores técnicas do empreendedorismo". É... ironias virtuais...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O que deu no poeta?


E não é que o Ferreira Gullar anda dizendo por aí que o capitalismo se firmou como sistema dominante porque é idêntico à própria "natureza humana"?...

Sinceramente, caiu muito no meu conceito depois dessa...
O capitalismo é apenas uma forma histórica da relação entre o ser humano e as trocas de objetos. Ampliá-lo a um patamar de reprodução da natureza humana é ignorar inclusive o que a própria poesia diz do que é o ser humano.

Gullar deveria saber, como poeta, que somos apenas balbúcios de devaneios que fazem coçar levemente os poros do silêncio, que é o verdadeiro constituinte do universo, mesmo e apesar desse bichinho tagarela chamado ser humano, que acha que descobriu a essência das coisas em sistemas sempre frágeis e falhos, que não resistem a um olhar mais aprofundado.

O poeta deveria ler o belo trabalho do Foucault, que fala sobre a origem do capitalismo, o "As Palavras e as Coisas".. pararia de falar besteira, antes que seja tarde e acabe com sua reputação.

Aliás, ele ontem foi parar no "Canal Livre", da band, o programa que reúne mais pastores da Igreja Cósmica do Grande Capital, Joelmir Betting, Bóris Casói e outras sumidades das mesmices econômico-bitoladas... Pra essa gente chamar um artista pra falar, alguma coisa tá errada... Sinal de que o discurso do poeta tá cada vez mais capturado pelos simulacros...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Um achado na livraria


Ontem, numa de minhas visitas à livraria, dei de cara com essa pérola. Um livro com as últimas crônicas que o grande Darcy Ribeiro escreveu em vida, entre 95 e 97, quando já chegava ao final sua luta contra o câncer.

Já comecei a desfrutar do livro, que tem vários textos interessantes e inteligentes, que mostram, antes de tudo, o amor e a devoção intelectual de Darcy pelo Brasil. Em temas como a universidade, os cieps, as mulheres, a desigualdade econômica e a crise da esquerda, o pensador nos presenteia com importantes e muito atuais colocações sobre a lógica conturbada da identidade brasileira.

Uma indicação que vale muito a pena, com certeza. Especialmente para aqueles que sacam que não dá pra ficar rindo à toa e vendo a banda passar...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Aonde está essa tal de paz?


E o prêmio Nobal da paz hein?.. Foi parar nas mãos do Obama. O cara arma pra colocar bases na Colômbia, manda mais soldados pro Afeganistão, numa guerra ilegítima, que foi condenada pela ONU e por grande parte da chamada "comunidade internacional", e não teve sequer tempo de apresentar nada de efetivo na área da política internacional... Além disso, tem me parecido fanfarrão demais, muito showzinho pro meu gosto.

Claro que a mídia adora essas coisas e reproduz cada fanfarronice do cara como se fosse algo de outro mundo. Ainda mais se forem os baba-ovos da globo, que se melam todos se você falar "Estados Unidos" do lado deles...

O Obama disse que o Lula é "O Cara" porque eles se equivalem. Dois fanfarrões, sem projeto, senão reproduzir as frasese feitas do mundo de hoje. Basta pensar no refrão de campanha do norte-americano: "Yes, we can". "Sim, nós podemos"... podemos qualquer coisa... ou seja, não diz absolutamente nada.

O prêmio Nobel já foi mais interessante...

sábado, 17 de outubro de 2009

E a saúde, que é bom...


Outro dia encontrei com o amigo Vinícius, numa rua da Tijuca. Estudamos quase juntos na faculdade (ele dois ou três períodos anteriores ao meu), e protagonizamos um jornal alternativo, no qual cobrávamos da direção da faculdade as melhorias prometidas e algumas vezes não cumpridas.

Enfim.. passou a faculdade e cada um foi pro seu lado. Nesse encontro, batemos um rápido papo, no qual o Vinícius me contou uma boa e uma péssima notícia. A boa, havia passado num concurso público e agora estava trabalhando no Hospital do Andaraí. Dei-lhe os parabéns, porque ele merece. É uma pessoa honesta, qualidade cada vez mais rara nos dias de hoje. mas aí veio a bomba..

Segundo meu amigo, acontece uma coisa estarrecedora com o hospital em questão. Para quem não sabe, trata-se de um hospital público. E como se não bastassem todas as críticas que se deve fazer ao sistema público de saúde de hoje, ocorre que, para meu espanto absoluto, fiquei sabendo, por ele, que os médicos do hospital do Andaraí - os médicos!! - possuem plano de saúde privado (!!!!!!). É isso aí, meu caro leitor... Inacreditável. É quase como dizer que nem os caras confiam em si mesmos...

E ainda tem gente comemorando olimpíada, copa do mundo... para o mundo, que eu quero descer...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Osso ou Pernil?


Certa vez, aqui mesmo neste blog, elogiei um texto do jornalista Merval Pereira, do Globo (no lado direito da foto). Mas.. não se pode elogiar. O jornal de hoje estampa o cara ganhando um prêmio nos EUA (claro), mas cabe comentar um de seus últimos textos, no qual ele comemora a vitória do Rio na disputa olímpica.

Segundo Merval, a vitória seria o fim definitivo do complexo de vira-latas do brasileiro - sacação do Nelson Rodrigues - que, agora, poderia se equiparar aos maiores do mundo. Nada mais precipitado.

Quando analisamos ou repensamos colocações feitas por personalidades excepcionais, como é o caso do grande dramaturgo, é preciso cautela. Na minha visão, o discurso que o Lula fez na coletiva mostra exatamente o quanto ainda somos vira-latas, ao menos enquanto sociedade. O cara ficou exaltando a hospitalidade do brasileiro e o quanto nós "vamos mostrar que podemos e blá blá blá...". Papo de vira-lata total...

Para além disso, vale colocar que o ganho com a olimpíada vai se restringir aos ricos e a uma pequena parcela da classe média, e, mesmo asim, bem restrito aos setores dos esportes e dos transportes. E só. Educação, saúde, habitação e saneamento básico para a população mais pobre - que seria exatamente o que distancia o Brasil dos países mais equalitários -, que é bom, nada..

Enfim, essa euforia com a olimpíada me parece mais uma viralatice do brasileiro: quem vai ganhar mesmo com isso é quem já tem, um pouco ou muito. O que precisa melhorar mesmo, não é condição sine qua nom pra ter olimpíada. Portanto, não vai mudar. Além disso, já estão orçando o custo do evento em alguns bilhões de dólares, dinheiro que seria mais que suficiente pra resolver os problemas de educação e saúde, e para aumentar o piso dos professores, que está em pífios 11 reais a hora-aula. Mas... educação não gera propaganda e capacidade crítica, internamente, não é osso, mas pernil. E, como sabemos, vira-lata gosta mesmo é de roer osso...

Ah sim: prêmio pro Merval Pereira?.. Continuo preferindo ler as crônicas do Nelson... Texto bom não perde a atualidade.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O Acaso e a Verdade


Encontro marcado
em uma esquina perdida
num bairro secreto,
onde não há jornais.

Duas andarilhas nômades
caminham distantes
pelos mesmos
trajetos transversais.

Duas viagens,
dois espelhos.
Mapas, miragens,
conselhos.

Uma não sabe da outra,
que não sabe da uma,
que não sabe de nenhuma
outra que saiba.

E mesmo assim caminham,
como se estivesse escrito
em suas almas
um código, um imã, um grito.

Quando então seus olhares se cruzam
na esquina perdida.
Gestos imóveis
que se lêem, se fitam.

Acaso e Verdade,
palavras que o homem
não cruza jamais,
selam pactos
já ancestrais.


Em cada era
que se invente,
quando certezas ansiosas
invadem a tranquila
antesala da eternidade

O encontro fortuito
se repete
longe dos holofotes
da banalidade.

Sela-se então
mais um pacto silencioso.
Irônico e transcendente.

Verdade e Acaso
trocam as faces
em ritual secreto,
invísivel, transparente.

E partem de volta
sem nenhuma escolta
para lábios incertos,
destinos abertos.

Essa vida comprida,
sofrida,
movida a ferida,
que é a das palavras.


E cada vez
que um vôo do som
irrompe as fechaduras
das portas do silêncio,

As duas gêmeas
desconhecidas
sentem a aura vibrar:
os acordes do acordo.

E um dia,
de novo,
encontrar-se-ão.
Quando os ponteiros do espelho
pularem para fora,
em mais um encontro perdido,
marcado, secreto, incerto.

Contos


Tentando escrever um pouco, mesmo que ainda não da maneira que gosto...


Nos últimos tempos, tenho lido muito literatura, especialmente contos. Borges, Machado, Maupassant, Poe e Clarice, principalmente. Li um da Clarice que ela escreveu com apenas 14 anos, que me impressionou. Se chama "Viagem a Petrópolis" e consta de um livro dela que se chama "Legião Estrangeira". Conta a história de uma velhinha solitária, de uma forma impressionantemente bem elaborada para alguém com 14 anos...


Tenho trabalhado muito os contos com os alunos, que curtem bastante. São textos curtos, mas que ficam especialmente bem trabalhados nas mãos dos bons escritores.


É isso. Volto com mais tempo uma hora dessas.


Abraços e beijos

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Hibernação...


Este post é para um esclarecimento aos leitores amigos deste blog, que acompanham, de uma maneira ou de outra, minhas reflexões e pequenos exílios virtuais. Estou de mudança. E isso atrelado a muito trabalho e a vários pepinos para resolver, eu que sou professor nesse país que tem um monte de gaiato que só pensa em lucro.

Esse quadro tem me tirado o tempo para escrever da maneira que gosto, com rigor e com frequência. Portanto, vou dar uma pequena hibernada do blog, com aparições esporádicas, quando der. Quando tudo se normalizar (ou pelo menos chegar perto disso), retorno com fôlego renovado.

Ah, sim: meu aniversário é neste sábado, dia 9, e vou tentar postar alguma coisa, só para constar.

É isso. Abraços e beijos a todos(as).

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Prêmio Dardos 2009


O blog foi indicado para o prêmio "Dardos" 2009, por intermédio da Rosangela Florêncio, do blog necessairedepandora e do André Lobão, do lobotomiaecomunicacao . É muita honra para este espaço, que busca sempre o debate com as melhores fontes da internet, como eles.

“Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web".

As regras são:

1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual você recebeu a indicação;
3) Escolher 15 outros blogs a quem entregar o Prêmio Dardos;
4) E avisá-los, claro!


Vou indicar 10 blogs para a lista, como é de praxe. A lista segue abaixo. Abraços a todos.


Todo Prosa - www.todoprosa.blogspot.com

Um blog de Nada - www.umblogdenada.blogspot.com

Moça do Fio - www.mocadofio.blogspot.com

Informal e Ilegível - www.informaleilegivel.blogspot.com

Instantes Imemoráveis - www.instantesimemoraveis.blogspot.com

Porém, ah porém - www.cassionei.blogspot.com

Melhor Opinião - www.melhoropiniao.blogspot.com

Janela Principal - www.janelaprincipal.blogspot.com

Os Pensamentos de Eu e Ela - www.ospensamentosdeeueela.blogspot.com

Fetiche de Cinéfilo - www.fetichedecinefilo.blogspot.com

sexta-feira, 24 de abril de 2009

O 'semblant' e as traduções


O Lacan realmente não é um autor fácil.. mas quando você entra na lógica dele, fica uma leitura muito interessante, por que é um desafio a cada instante, tanto no aspecto da própria lógica quanto no da humildade necessária para compor as peças que ele vai sugerindo.

Acabei de ler um pequeno texto dele, chamado "Lituraterra", uma brincadeira com as palavras 'literatura', 'terra' e 'litoral'. A questão proposta é pensar a estrutura da literatura a partir do olhar psicanalítico. O texto se encontra na compilação chamada "Outros Escritos", publicada pela Jorge Zahar, e me suscitou duas reflexões mais amplas.

Vou começar pela segunda, que apareceu no final do texto, por que ela servirá como introdução para a primeira. Lacan conta sobre uma viagem que fez ao Japão, para refletir a questão da linguagem como estranhamento. E faz uma associação muito interessante, interessante especialmente por seu aspecto irônico. Ele diz que o sujeito (o 'indivíduo', pra simplificar) se compõe de seus "cerimoniais", que visam dar a impressão (ou a aparência) de que nunca há nada escondido. Nesse sentido, e pensando na questão da comunicação (tão ilusoriamente pensada nos tempos atuais), ele propõe que a linguagem é um jogo de "traduções perpétuas" (p. 25). Para mostrar o quanto o trabalho de um intérprete fica mais fácil num país como o Japão, por causa da completa diferença cultural com o ocidente, que inviabiliza uma interpretação automática do turista - que acabaria, assim, impossibilitado de embasar um contraponto forte -, Lacan compara a situação com uma vez em que um eminente biólogo fez questão de lhe demonstrar alguns de seus trabalhos a ele.

Para resumir, Lacan diz não ter entendido nada do que o cara demonstrou, o que não inviabiliza, claro, suas formulações. Mas dá a deixa: a comunicação científica é uma que pode receber esse nome, comunicação, justamente por que não se constitui como diálogo, mas como discurso alhures (em outras palavras, um discurso com código próprio, com uma diferença instituída pois).

Minha reflexão: oposto ao diálogo é o debate, por que confronta as pretensas verdades em suas diferenças, exigindo traduções e deslocamentos de posição. O cerimonial exagerado do diálogo produz muito mais aquiescência do que crise, de fato. Mesmo que pensemos nos diálogos platônicos como exemplo. No que consegue algum deslocamento, o diálogo platônico transcende a si próprio enquanto tal, ascendendo ao patamar de debate. Aí, então, comunica algo de fato.

A primeira reflexão diz respeito a uma palavra francesa e sua tradução para o português. Pista do Lacan e da tradutora, Vera Ribeiro. Lembremos que o cerimonial visa compor uma aparência de que não há nada escondido. A palavra é semblante, do francês semblant. A palavra, no português, significa apenas "rosto" e "fisionomia", acepções mais gerais. Na França, significa sinônimos mais específicos, como "o que parece", "assemelha-se", "finge". O verbo fingir dá a deixa de uma associação direta com o caráter de aparência da fala em sua relação com o pensamento. "O saber é posto a partir do semblante", diz Lacan. E como propõe a verdade como fingimento, ele permite a reflexão de que semblant significa "fingimento" sem significar, igualmente, "mentira". Aparência e fingimento se associariam, dessa forma, ao registro da verdade, pela via da sinonímia com a ideia francesa de "semblante".

Ora, se a fala é um cerimonial do pensamento, estruturalmente estamos no registro do fingimento, da aparência. O que não significa que não possa haver concordância entre os dois. Mas aí já entraríamos no registro da análise, ponto para outro dia.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

10 livros para entender o século XX e o início do século XXI


O século XX ficou marcado por ser um período de substituições, de ilusões por outras ilusões. Das promessas do Iluminismo, de que a Igualdade, a Liberdade e a Fraternidade poderiam ser signos eficientes para o convívio dos povos, sobrou pouco. Muito se esperava da tecnologia, que criou a bomba atômica, ápice do masoquismo humano, além da gradual destruição das possibilidades naturais para a vida do homem, pela via da degradação ambiental.

Outra ilusão que vingou foi o capitalismo, que conseguiu se firmar como altar de salvação para a conexão global, legando aos indivíduos uma metáfora perfeita de sua própria estrutura conflituosa e narcísica. A sociabilidade passou a um estágio de espelho, reproduzindo, autofagicamente, as demandas egóicas de cada um. A simulação de uma liberdade sem limites ganhou a adesão geral, o que construiu a plástica perfeita para os jogos de poder da minoria de sempre: as massas alienadas convencidas de que o 'valor de troca' era seu único eldorado possível.

Os chamados genocídios, matanças de grupos inteiros de etnias, continuaram por todo o século. E continuam até hoje. A novidade é que o terrorismo substituiu as guerras declaradas no cenário bélico.

Enfim, tudo isso é um problema de crença. Não apenas a crença em religiões.. A crença no dinheiro como valor positivo talvez seja a mais grave de todas, a geradora das mazelas desse pedaço de tempo.

Mas vamos deixar de lero. Li não sei aonde o título "Dez livros para entender o século XX", mas muito de relance. Entretanto, a coisa ficou na minha cabeça e decidi fazer minha lista. Esses livros ampliaram minha visão sobre esse extremamente problemático período que vai do início do século XX até os dias e hoje. Devem existir outros importantes. Mas esses me parecem os principais. Fique à vontade.

(Obs: escolhi apenas os livros filosóficos e analíticos, excluindo a literatura, apesar de reconhecer nela peça fundamental para ampliar o olhar, sem sombra de dúvida)


"O Mal-estar na Civilização" (Sigmund Freud): Nesse trabalho, Freud coloca em xeque o mandamento cristão do "amai ao próximo como a ti mesmo", chamando a atenção para a sutileza egóica do cristianismo contida no mesmo. A violência implícita ao mandamento vem à tona, assim como a manutenção de um igual distanciamento de nossa própria violência, que seria, para o inventor da psicanálise, peça analítica fundamental.

"Uma breve História do Tempo" (Stephen Hawking): O físico, figura eminente da ciência contemporânea, expõe as conexões atuais entre a teoria da relatividade de Einstein e a mecânica quântica, indicando mudanças completas para os paradigmas científicos tradicionais, que - digo eu - atingem a parte mais radical do pensamento das ciências humanas, especialmente no que diz respeito à discussão sobre as singularidades, extremamente afetada pelas mudanças.

"A Sociedade do Espetáculo" (Guy Debord): Relendo conceitos de Marx e Hegel e avaliando a conjuntura do capitalismo da mercadoria em sua época (década de 60), Debord expõe com mestria a estrutura da passividade contemporânea através da noção de "espetáculo", que mescla a crítica do lazer e do entretenimento como agentes de uma socialização virtualizada ao extremo. O que ele chama de "prática social unificada", crise brutal da diferença, da política e da arte.

"As Palavras e as Coisas" (Michel Foucault): Fazendo um inventário analítico do Ocidente pós-Renascimento, Foucault mostra como o discurso da ciência ascende ao topo epistemológico do mundo, vingando como religião principal do modo de vida que sustenta as enunciações atuais. O afastamento de uma lógica metafórica essencialmente representativa, a do Renascimento, dá lugar a uma mitologia das classificações, que define a ideologia dos tempos modernos. É o 'poder' visto pelo plano de sua lógica normativa, que aproxima-o, em sinonímia, da ideia de 'saber'. Além disso, em suas pesquisas extremamente rigorosas, Foucault nos apresenta a gênese do credo econômico, o que talvez seja a principal mitologia do mundo moderno, até hoje.

"Dialética do Esclarecimento" (Adorno e Horkheimer): Os autores passam a limpo a noção de "Esclarecimento", que consta da palavra alemã para Iluminismo (Aufklarung), demonstrando o quanto de falácia existe no projeto ocidental pautado pela razão tecnocientífica. A transformação da arte em mercadoria, pela via da semântica da propaganda e do cinema, aparece como núcleo do principal texto, "Indústria Cultural: O Esclarecimento como Mistificação das Massas", que tem mérito semelhante ao trabalho de Debord, qual seja, o de chamar a atenção para o problema contemporâneo da passividade como valor positivo.

"Da Sociedade Pós-Industrial à Pós-Moderna" (Krishan Kumar): O pensador inglês analisa o trajeto histórico das noções de "Modernidade" e "Modernismo", e nos faz refletir o declínio da semântica da tradição e a ascensão da mitologia do progresso como ordenadora do discurso ocidental. Dentre outras reflexões importantes.

"A Transparência do Mal" (Jean Baudrillard): O francês ataca aquele que talvez seja o principal sintoma da crise da diferença como via de conflito socializante e político, oriunda da mitologia globalizada: a supressão da lógica do Mal, trocada por um discurso higienizado de suas contradições pelo caminho de uma produção ininterrupta e ilusória de positividade que anestesia a negatividade, exilando a possibilidade crítica a um estado de 'museu da inteligência', que só apareceria como eufemismo ou como melodrama.

"Guy Debord" (Anselm Jappe): Usando como mote o estudo da vida e da obra do pensador francês, Jappe perfaz o caminho teórico e político que levou a economia ao estágio de produtora ideológica de toda a vida humana, submetida às suas leis de uma forma extremamente grave. Um trabalho de pesquisa amplo, que analisa os caminhos que levaram o pensamento crítico do Situacionismo ao topo do debate teórico do século XX.

"Cosmos, Caos e o Mundo que Virá - As origens nas crenças no apocalipse" (Norman Cohn): Além de ser pesquisa rica e rigorosa sobre a temática do apocalipse, o livro traz parte fundamental da influência discursiva do Oriente Antigo para o mundo ocidental, especialmente no que diz respeito à ideologia do 'discurso único' que permeia a mitologia da globalização atual, sendo essa última pista minha, relendo as conexões que o autor apresenta.

"BraZil no Prego" (Gilberto Felisberto Vasconcellos): Neste importante trabalho, o autor faz importante levantamento analítico a respeito das influências ideológicas da política e do pensamento hegemônico no Brasil do último século, desde as ideias que vingaram, como a economia neoliberal e sua sustentação acadêmica na CEPAL, até os pensadores que foram excluídos do cenário pelo ocultamento forçado, como a figura do cineasta Glauber Rocha, por exemplo.


E é isso. Espero que curtam a lista. Se tiverem sugestões, só falar.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Sibéria neles...


Quando fechei contrato com a NET, o pacote incluía o básico da TV a cabo (que eu não assisto mesmo...), a internet e o chamado NET-fone. Os três juntos custavam 119 reais. Depois de um certo tempo, pedi pra cancelarem o net-fone, que eu não usava também, e que estava pagando à toa. Custaram, mas cancelaram.

Entretanto, um mês depois de cancelarem o net-fone, me enviaram uma conta mais cara que as anteriores, no valor de 151 reais. Do mês passado até sexta-feira passada, liguei 3 vezes pra lá, tentando acertar a coisa, porque argumentei ser injusto pagar mais caro por dois serviços que por três. Depois de perder em média meia-hora em cada telefonema, acabei conseguindo a promessa de que um novo boleto seria enviado, com o valor anterior.

Sexta chegou o novo boleto. Valor: 151 reais...

Tô começando a achar que a bobeira do pessoal da propaganda da net, que inventou aquele comercial tosco (porém sutil), que traz a Sibéria como um lugar que todos deveriam abandonar, contaminou a parte da empresa ligada aos serviços de assinantes. Como temos poucas alternativas (porque o serviço da Oi também é uma porcaria), ficamos reféns da incompetência virtual.

Podemos propor como solução irônica o inverso do que o comercial propõe: que os funcionários incompetentes da empresa sejam mandados para a Sibéria, para servir de alimento para o gatinho acima, o tigre branco da Sibéria, bichinho simpático e inofensivo... Será que sobraria gente na net?

sábado, 18 de abril de 2009

Momentos de gozo intelectual...


Num de nossos incontáveis bate-papos da época da universidade, conversávamos eu e o meu à época professor - hoje amigo - Marcelo Fonseca, sobre as diferenças entre o gozo simbólico e o gozo sexual. Pensávamos especialmente sobre a questão da contemplação, em sua relação com a arte.

A diferença é bem sutil, porque uma coisa é a ejaculação e outra o gozo. Sem rodeios, a verdade é que tem vezes que se ejacula sem o gozo, que é parte fundamental da satisfação gerada pelo ato, qualquer ato que envolva isso que se chama de 'relação simbólica'. Vale o toque porque, diferente da ejaculação, o gozo é sempre simbólico. Ele sempre depende de uma conjunto maior de fatores, tanto os ideológicos quanto os circunstanciais. O gozo é, inclusive, mais complexo que a ejaculação. "Gozar" não é tão simples assim...

Feito este intróito, passemos ao principal deste texto. Ele vem ao mundo por conta de vários momentos de gozo que eu estou desfrutando ao ler o belíssimo livro "Cancioneiro", que tem diversas poesias do mestre Fernando Pessoa, que foram publicadas em periódicos, quando ele ainda estava vivo. É uma coisa brilhante atrás da outra, um gozo atrás do outro. É realmente impressionante como o cara olhava para as coisas com as defesas controladinhas, nas rédeas. Pessoa transitava pelo engano com a tranquilidade e a elegância de um maestro do infinito.

E chega de mais delongas. Vão aí alguns trechos que achei geniais. Deliciem-se.


"Não há lâmpada de haver"

"Como o que nós vemos é nítido e pouco"

"Talvez esta coisa da alma que acha real a vida..."

"E na interior distância do meu real..."

"Sinto a minha vida de repente / Presa por uma corda de Inconsciente / A qualquer mão noturna que me guia"

"Por que ter asas simboliza / A liberdade / Que a vida nega e a alma precisa?"

"Tudo é ilusão / Sonhar é sabê-lo"

"Contemplo o lago mudo / Que uma brisa estremece. / Não sei se penso em tudo / Ou se tudo me esquece"

"O corpo é a sombra das vestes / Que encobrem teu ser profundo"

"Por que é que um sono agita / Em vez de repousar / O que em minha alma habita / E a faz não descansar?"

"O instante é o arremedo / De uma coisa perdida"


Detalhe: não li nem um terço do livro ainda... Não deixe de ler, porque vale muito a pena, especialmente pra quem aprecia a inteligência como um valor positivo...

sábado, 11 de abril de 2009

Ode ao complexo


No mundo de hoje, alargar o repertório é algo que não consta da pauta. E um dos mitos que ajudam a disseminar esse quadro é o da linguagem como objeto, instrumento ou ferramenta que o sujeito usa a seu bel-prazer.

Se há uma coisa que a arte mostra pra gente é que no fundo é a linguagem que 'nos usa'. Exatamente porque a linguagem é esse mar no qual conseguimos depositar apenas algumas gotas durante a vida e do qual retiramos apenas a maresia de nossas inquietudes. Esse mar não existe sem cada um de nós, não há dúvida; mas é muito maior que todos nós juntos, isso também é certo.

Pensei nessa questão porque tenho ouvido muito isso: que as regras só servem para atrapalhar, que a complexidade é completamente desnecessária, que a teoria é menos importante que a "prática"...

Recentemente coloquei aqui uma questão que desenvolvo há algum tempo: a expressão "violência urbana" é uma prova de que o projeto urbano de concreto é falido no sentido de que não civilizou as pessoas, como prometia quando inventou a ideia mentirosa de que quem mora no campo é selvagem e precisaria do concreto e das indústrias para melhorar como ser humano. Malandragem de europeu, como hoje sabemos.

Entretanto, isso não significa que o legado cultural dos europeus deva ser jogado fora em bloco. A ressalva é importante porque a conclusão anterior pode elevar o "facilitarismo simplório" do mundo de hoje ao status de solução. Muito pelo contrário. Apresentar a ladeira da cultura superior ao indivíduo não é apenas exercício de sofisticação; é, principalmente, fazer jus ao projeto de individualidade crítica do Ocidente, que nasce com Kant e que se dissemina pela arte e o pensamento modernos. Mais que isso: trata-se de um exrecício de gratidão com a arte e o pensamento críticos, que nos legaram a certeza de que há pelo menos uma maneira de perceber o mundo para além da alienação passiva: é apresentar, como elemento de luta contra nossa tendência à servidão voluntária, uma vontade de apropriação (termos que aproprio do Margno).

E vamos além: não há criador efetivo, não há mente que transcenda o mundano, se essa mesma mente não desloca o itinerário cultural já desenvolvido. Não há forma de "usar a cultura". Isso é mito de pragmático tolo. A cultura sempre te enquadra. Mesmo que você ache que tá abafando... Em outras palavras, podemos dizer que toda transgressão está fadada a se tornar lei. Essa é a lógica da coisa. Há, entretanto, uma pequena via de escape.

Na arte e no pensamento crítico passamos da repetição automática ao movimento perpétuo. Produzimos o que o Barthes chama de "trapaça" e o que eu chamo de "im-postura". Ou seja: apesar de manter a cultura em seu domínio, produzimos algumas ondas. Ondas que só serão legítimas se em consonância com a história.

Riscos? Sempre existirão... O que não dá é pra vender o risco como verdade suprema. Instrumentos da cultura contra nossa própria individualidade, podemos, entretanto, manter em crise os absolutismos do absoluto.. Não é simples. Basta (!!) que continuemos a remar contra a maré. A despeito da segunda opção, que seria a de afundar na maresia subterrânea da mesmice...

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Sombras, acasos, erros e grandiosidades


Achei esse trecho sobre o livro "Elogio da Sombra", do Borges, na internet. É uma espécie de sinopse crítica sobre o livro, e é atribuída ao próprio Borges. Tem a cara dele, realmente. Sublinhei o trecho que mais me impressionou:


"Este, escrevi, é meu quinto livro de versos. É razoável presumir que não será melhor ou pior que os outros. Aos espelhos, labirintos e espadas que já prevê meu resignado leitor acrescentaram-se dois temas novos: a velhice e a ética. A poesia não é menos misteriosa que os outros elementos do orbe. Tal ou qual verso afortunado não pode envaidecer-nos, porque é dom do Acaso ou do Espírito; só os erros são nossos. Espero que o leitor descubra em minhas páginas algo que possa merecer sua memória; neste mundo a beleza é comum". J. L. B.


Genial. Simples e genial. É por essas e outras que não sou mais um democrata, há um bom tempo. Só faço reverência para grandiosidades como essa...

Frase do dia...


Mae West foi uma atriz norte-americana, que chegou a fazer filmes em Hollywood. Era uma espécie de "sex-girl", uma das primeiras a fazer filmes com conotação erótica. Fotos suas com peles de raposa, esbanjando o farto decote, ficaram famosas nos Estados Unidos da época. Foi, até mesmo, tema de quadros do grande pintor Salvador Dali, como esse retratado acima.

Mae, entretanto, não era uma atriz de talento. Agradava muito mais pelo erotismo do que por qualquer outro motivo mais nobre. Entretanto, sua veia cômica (chegou a escrever comédias para o cinema e o teatro), nos legou algumas tiradas bem interessantes. Lembrei de uma conversando com uma professora, hoje, no colégio. Acho bem apropriada para certas situações. Tire suas conclusões:


"Dê às pessoas uma segunda chance; nunca uma terceira".

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Compart(est)ilha(ça)ndo....


O fato de ser enigma não te exime da responsabilidade.
As portas do labirinto são sempre paredes disfarçadas.
As respostas que encontramos são vésperas...
Ao acordarmos, os passos do destino puxam a corda, amarrada aos nossos pés.
A mente, a alma, o espírito.. todos esses forasteiros conspiram contra aquilo que acreditamos ser o casaco mais acolhedor.
E no canto mais silencioso de suas conjecturas, repousam, em brisa, as asas de sua verdade. Prontas para o abandono. Para o confronto. Para os dois.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Senhores-escravos...


Instantâneos de um mesmo tema. Ontem, dois comerciais de televisão, um do governo federal e outro do governo estadual; hoje, uma bate-papo com o professor Bruno, no colégio onde dou aulas.

O comercial federal tem como foco exaltar a educação técnica, como o maior êxito educacional do país, resultado do que seria o "belo trabalho do governo Lula" (sic). O estadual, nos brinda com a perola de que jamais esqueceremos de que foi com Sérgio Cabral que os professores do ensino público ganharam lap-tops para trabalhar... (!!!)

O grande mito do mundo contemporâneo, dentro do tema da educação, é justamente essa conexão perigosíssima entre o tecnicismo e o saber escolar (e mesmo o superior). O falatório da propaganda dos governos em questão demonstra claramente que a semântica educacional está cada vez mais voltada para formar trabalhadores, ao invés de formar pessoas socializadas. E isso tem nuances bem problemáticas.

Já debati isso em outros textos, mas vale reiterar que a educação escolar não foi feita para formar para o trabalho. E nisso ela acerta em cheio. Porque não existe trabalhador que não precise ser uma pessoa, e uma pessoa inserida no contexto de sua sociedade, de seu mundo.

Hoje, a demanda dos alunos - alçados ao altar do saber pela pseudo-teoria pedagógica a la Emília Ferreiro - é inteiramente ligada ao tal "mercado". A eles só interessam os dados que lhe farão mais ricos e "bem-sucedidos" no trabalho. O saber como cultura, como regra, como complexidade social, não aparece mais sequer como hipótese. O que interessa é pensar em si. O tal "culto-de-si" de que fala muito apropriadamente a Elisabeth Roudinesco.

E, como nada é só o que aparenta ser, existem as tais implicações simbólicas do que se escolhe como lógica. No caso em questão, a educação tecnicista acarreta em mentalidades cada vez mais desvinculadas dos símbolos socializantes, de identificação coletiva. O que interessa é criar mitos cristalizados acerca da própria profissão, e dos lucros possíveis (salvo as exceções de praxe...).

Dá nisso: todo mundo achando que tem mais conhecimento porque sabe usar o computador, confundindo quantidade com qualidade. E a educação, em todos os sentidos, escoando pelo esgoto do cinismo, que viaja por trás dos sorrisos alegres da propaganda.

E lá vai o Brasil, descendo a ladeira...

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Debord e a regra


"Quando nenhuma regra de conduta pode mais se manter, cada resultado da cultura a faz avançar para a dissolução".

Guy Debord
(pensador, filósofo e cineasta francês - "Sociedade do Espetáculo", p. 120)

Esta frase do Debord me pegou de repente, folheando o livro. E tem conexão profunda com alguns pontos que o Affonso Romano de Sant'Anna aborda sobre o estado atual da arte, impregnada pela retórica do que este chama de "Enigma Vazio".

Debord critica, no decorrer da citação, a autonomia que a filosofia ganhou no discurso moderno, o que, em seu entender, acarreta no problema de que toda disciplina tornada autônoma acaba desmoronando. Basta pensar nessa expressão que ganhou o falatório cotidiano, "filosofia de vida", para entender o recado do francês. A filosofia perde muito de sua importância no exato instante em que qualquer um passa a poder se achar filósofo, pelo simples fato de ter dito alguma coisa engraçadinha.

Paradoxalmente, portanto, temos um mundo de exceções (individualidades pretensamente desvinculadas) que confirmam uma única e exclusiva regra: a regra da não-regra. E o que é pior: não se trata da não-regra da arte extrema, mas da não-regra da banalidade. Na primeira, o sentido é posto em movimento; entretanto, na segunda, ele é substituído pela lógica da estupidez, que esconde o sentido na gaveta e passa a movimentar o vazio oxigenado pela felicidade demente.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Grande Ferreira Gullar...


Acabo de ler a entrevista do poeta Ferreira Gullar para a revista 'Bravo!' deste mês. Perguntas inteligentes, respostas inteligentes.

Gullar fala de questões relevantes, como a importância do estudo para o domínio da linguagem. Em consonância, vai sua opinião sobre a crise atual das artes, tema que Affonso Romano de Sant'Anna trata de maneira semelhante em seu livro "O Enigma Vazio", que estou lendo aos poucos. Para o poeta maranhense, muitos talentos são desperdiçados por conta da falta de rigor. A pessoa acha que "tem vocação" e pronto: não faz mais nada. A coisa passa longe disso, claro...

Quanto à crise da arte, Gullar diz o seguinte: "No meu entender, toda arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se me machuco e grito de dor, estou me expressando; não estou produzindo arte. Da mesma maneira, se alguém começa a bater numa lata, emite sons; não cria música" (p. 57). É uma questão importante, porque existe um saber chamado arte, que fica negligenciado neste mundo que trata qualquer coisa aparentemente "nova" como uma brilhante criação humana. Nesse ponto, vale lembrar os autores que chamam a atenção para as sutilezas do discurso, como os estruturalistas. Pela forma como se manifesta um ato, podemos avaliar sua importância com mais rigor do que se prendendo apenas ao conteúdo. O que me faz lembrar, inclusive, de como a própria ideia de "interpretação" foi jogada na vala comum, sendo álibi para o mito da liberdade de fala que existe hoje.

Outro ponto interessante que Gullar aponta é a semelhança do capitalismo com a "natureza", o que explicaria seu "sucesso" (apesar do fracasso), no sentido de que se alimenta de suas próprias crises. "O capitalismo vai imperar porque segue a lógica da natureza. É brutal, é feroz, é amoral. Não demonstra piedade por nada nem por ninguém. Em compensação, nos oferece uma série de benefícios" (p. 59).

E critica o Lula, por ser um "pelego", ou seja, uma espécie de capacho, que fica fingindo que agrada a todo mundo, mas no fundo esconde suas verdadeiras ideologias. O Lula "agrada os banqueiros e os empresários" e, por outro lado, "corrompe o povo com programas assistencialistas". "Resultado: todo mundo confia no Lula, o rico e o miserável. Em decorrência, as tensões sociais se diluem. Que maravilha, não? Um país de carneirinhos..." (p. 59).

Sempre bom ouvir as pessoas inteligentes que este país ainda tem...

terça-feira, 31 de março de 2009

Filosofia de empresa?...


Desculpem a pequena abstinência, mas a primeira semana de testes me pegou desacostumado, devido às férias. Ainda em meio às correções, aí vai uma pequena reflexão acerca de uma indicação literária que recebi. É importante salientar que estou cruzando a sinopse do livro com a imagem que retive de uma entrevista do autor, que assisti na época da pós-graduação, há dois anos e meio.

O nome dele é Mario Sérgio Cortella, que a sinopse diz ser um filósofo, professor da USP e "conferencista". Em curtas linhas, o livro se chama "Qual é a tua obra?" e parece 'utilizar' (sic) a filosofia para pensar questões sobre temas ligados à retórica empresarial, como "gestão" e "liderança", dentre outros.

A despeito das fontes abordadas, é importante frisar que a filosofia nasce e cresce como discurso crítico-reflexivo sobre o mundo que a circunda. Comecemos então dizendo que ninguém "usa" a filosofia: é a filosofia que usa o sujeito, na medida em que o simbólico no qual o mesmo encontra-se inserido possui feixes "contaminados" pela filosofia de forma inexorável. Em outras palavras, exemplificando, não dá pra pegar o Platão e usá-lo de qualquer maneira, para pensar qualquer coisa. Estamos falando de um autor e de uma obra (!) que se sustentaram
durante quase dois milênios e meio, resistindo às antíteses do tempo e articulando-se com outras obras de peso, para construir enunciação digna de referência e de rigor conceitual.

O segundo ponto que me parece importante é pensar no que é exatamente a filosofia. Um olhar atento para a verdade que se esconde por detrás dos sofismas e da retórica, como preconizou Platão, e como reiteraram todos ou a maioria dos grandes nomes que lhe fizeram eco. Na postura do Cortella, o que surge é, na minha ótica, uma espécie de reducionismo do discurso filosófico, numa tentativa de aplicá-lo a um tipo de discurso que deveria sempre ser objeto de postura antitética - e não reverberante - por parte de um filósofo. 'Filosofia de empresa' soa extremamente sofismático... Pensar na filosofia como forma de enxergar detalhes de dentro de uma lógica como a das empresas precisa passar pela avaliação da própria estrutura contraditória do discurso do mercado. Não dá pra deixar na gaveta, por exemplo, o que o Marx ponderou acerca do valor de troca e da mais-valia, e pensar na vida da empresa como se ela fosse algo apenas ligado a seus mitos internos.

Nesse sentido, o autor em questão faz parte de uma linha contemporânea que pensa a filosofia como instrumento de conexão com qualquer coisa, de qualquer maneira. Mais que isso: como apêndice de qualquer coisa. Estão invertidos os papéis nesta reflexão. Não há dúvida de que não é o tipo de pensamento que acrescenta ao corpo discursivo da filosofia. Fora o fato de que um filósofo fazendo palestra pra empresário é, no mínimo, dantesco...

Para o Cortella, vale o aviso do escritor Goethe: "Quem de três milênios não é capaz de se dar conta, vive na ignorância, na sombra, a mercê dos dias, do tempo". Filosofia não é algo que possamos usar a nosso bel-prazer. É um tanque de guerra do pensamento humano, alerta contra si mesmo. E precisa sempre fazer jus ao tamanho de sua importância.

terça-feira, 24 de março de 2009

E aí, quem vai dar o troco?...


Sexta-feira passada entrei no 606 pra voltar pra casa, quando sai da faculdade. Logo atrás de mim entrou um casal, que aparentava ter entre 18 e 23 anos, não mais que isso. Acompanhados de outro sujeito, com a mesma idade aparente. O primeiro comentário do primeiro, quando sentou, foi o seguinte: "Isso tá ficando demais: agora, o motorista também é trocador, e isso só atrapalha... daqui a pouco professor também vai ter que ser cozinheiro..."

Solidarizei-me com a fala, por motivos óbvios. E cabe pensar em mais esse movimento de desrespeito com as pessoas, em todos os sentidos, que vem especialmente do poder público, que é responsável pela qualidade do transporte público do brasileiro (mesmo que esse mesmo brasileiro já não esteja tão antenado assim para este tema tão importante). É dos governantes que nascem medidas como essa, de eliminar a figura do trocador, trazendo atraso e perigo para os usuários. Isso porque são eles, os governantes, que têm que controlar essa criminosas concessões privadas dos transportes públicos, que acabam transformando a lógica da coisa em mercado. Mercado que só pensa em lucro, quando o problema maior é manter os empregos dos trocadores, tanto pela questão do próprio emprego, quanto por conta do aumento de segurança que isso acarreta.

Mas.. é esperar demais dessa gente que só sabe usar como retórica esse totem chamado "desenvolvimento". Talvez seja a maior mentira do mundo contemporâneo, enfim...

E não esperem que eu vá para a cozinha... meu arroz sai papado.

quinta-feira, 19 de março de 2009

O artista e a ambiguidade


A escritora Nélida Piñon, que pertence à Academia Brasileira de Letras, deu uma pequena entrevista ao Caderno Ideias do JB, que saiu neste sábado. Dois eram os pontos principais da conversa: o lançamento de seu novo livro, "Coração Andarilho", e sua possível indicação para o Prêmio Nobel de Literatura deste ano.

Questionada sobre seu novo trabalho não ser um livro de memórias tradicional, ela confirmou que realmente não era, completando de forma curta e muito inteligente, o que transcrevo para os leitores, como a frase do dia:

"[Neste novo livro] conto fatos, mas dos quais desconfio. Os fundamentos humanos repousam na ambiguidade".

É por essas e outras que prefiro os artistas a grande parte dos sociólogos e cientistas sociais. Enquanto estes olham para a frente, inebriados pelas novidades, os artistas avaliam os dois lados, atentos aos paradoxos e às traições da linguagem.

Só essa frase já me deu vontade de ler a autora. Bela reflexão.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Foucault, Marx e o Poder


Há uma questão em filosofia que é especialmente complicada para os dias de hoje: a questão do poder. E quando uso a expressão "questão do poder" já é buscando uma postura de impasse, na medida do que surge como relação entre mim-sujeito e o objeto visado pela reflexão. Falar em "tema do poder", por exemplo, me parece pouco, diante do fato de que parece que ele-poder não comparece no próprio enunciar da coisa, como se o poder fosse mero tópico passivo, a espera de alguma mente dona-de-si para avaliá-lo (o que se insere no mito do esclarecimento iluminista).

Acho complicada por dois motivos. Primeiro, porque o materialismo de Marx encontra-se impregnado no imaginário contemporâneo. O alemão diz assim: "Não é a consciência dos homens que determina o ser social. Ao contrário, é o ser social que determina a consciência" (citado por Gilberto Cotrin, "Fundamentos da Filosofia", p. 181).

Nos termos da filosofia, Michel Foucault (foto) é um dos que vem demonstrar que há um ponto negligenciado pela teoria de Marx: o que aquele chama de "questão do discurso". Na verdade, "negligenciado" talvez nem seja a palavra correta. Vejam este trecho do próprio alemão: "O que distingue o pior dos arquitetos da melhor das abelhas é que ele projeta mentalmente a construção antes (grifo meu) de realizá-la" (idem, p. 25). Nesta questão, de uma coisa, ao menos, Marx sabia: que o mental é que distingue o ser humano dos animais.

Quem lê apenas os livros mais lidos do Foucault, o "Vigiar e Punir", o "Microfísica do Poder" e o "História da Sexualidade" fica, entretanto, apenas com uma parte da história. O que outros trabalhos do francês, como "Arqueologia do Saber", "Ordem do Discurso" e "As Palavras e as Coisas" fazem observar é justamente o fato de que a coerção típica do poder se dá justamente na mente do sujeito.

Entretanto, é bom alertar: para um leitor mais afobado, pode parecer sedutor dizer: "Que bom, Foucault descobriu o mecanismo do poder que existe em nossas mentes. Agora, é só domá-lo e eureka!, estamos livres". Não é bem assim. Uma atitude efetivamente crítica ou mesmo estética é sempre da ordem do raro e sempre dependente de articulações aleatórias que não mandam sinal de que estão chegando. A simbologia do consumo, sempre pautada por mitos como o da liberdade e o do prazer, engana. Faz crer, ao primeiro e desavisado olhar, que somos donos do próprio nariz. Essa ideia de "dono" ignora que o 'discurso' que o Foucault aponta é uma arena de batalhas incessantes e ininterruptas, entre a verdade (célula do discurso) e a consciência (que, como Marx percebeu em sua segunda citação, é o trilho por onde passa a primeira).

Em resumo: o poder está dentro de você, como uma arena inescapável. A reflexão atenta gera desvios interessantes, especialmente quando se consegue ampliar o olhar sobre a precariedade da verdade, mesmo quando ela parece mais forte e definitiva. Seriam pequenos momentos onde o trem sai dos trilhos, provocando o que chamamos de 'inteligência'. Não se escapa do poder; mas dá pra produzir pequenos escapes. Pequenas imposturas, para usar uma metonímia que é também metáfora, deste blog que tenta o diálogo reflexivo, para além da passividade contemporânea, que se esconde por sob as vestes do consumismo egóico.

Uma pequena reflexão ao preparar uma aula de filosofia, que eu troco com os leitores amigos.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Um mala e uma gafe


A diferença desta mala acima para o Luiz Roberto, narrador da globo, é que ela tem rodinhas.. Mas, como não tem outro jeito, assisti ao jogo do Fluminense ontem ouvindo as frases feitas do sem-alça global (antes que pensem mal de mim, não sou tricolor.. tava só querendo ver um pouco de futebol, mesmo e apesar dessa época tão mercadológica para o esporte.. meu time é o Flamengo).

Lá pelas tantas, a câmera filma o Parreira, novo técnico do Fluminense. Cara estudioso do futebol, ponderado e tal. Mas o bunda suja do Luiz Roberto tava mais interessado em elogiar a aparência física do cara. E soltou essa pérola: "O Parreira está com 66 anos!!... LITERALMENTE NÃO PARECE..."...

Quer inventar, quer fazer o que não sabe.. acaba se atrapalhando. Como sabemos, a expressão "literalmente" é usada quando pronunciamos alguma palavra ou expressão que possa conotar mais de um sentido. O objetivo é mostrar que o sentido que estamos usando é o comum e não alguma figuração, metáfora ou coisa parecida. Por exemplo: num jogo de futebol, o cara diz "fulano está morto!". Como existe um sentido figurado que é até corriqueiro para a palavra morto ("morto de cansaço"), cabe a ressalva, para o caso de um jogador morrer de verdade numa partida (exemplo macabro, mas enfim..): "Fulano morreu, literalmente!!"

O "literalmente não parece" do Luiz Roberto não tem o menor sentido, em nenhum sentido. Aliás.. denota, sutilmente, aquela coisa do eufemismo, que eu já considerei em alguns textos. O cara que fica muito "marqueteiro", cheio de historinha, acaba sentindo necessidade, em certos momentos, de dizer algo como se fosse: "pô, agora eu tô falando a verdade hein"...

É, tio Freud... Realmente a fala esconde incontáveis verdades-outras.. Tinhas toda a razão...

sábado, 14 de março de 2009

Identidade X Identificação


Tem uma frase do Jean Baudrillard que eu sempre que posso cito: "O Outro é o que me dá a possibilidade de não me repetir ao infinito".

Estava eu voltando da praia hoje e batíamos um papo eu e o Fernando, camarada do futevôlei. Dialogávamos sobre a condição feminina no mundo de hoje, um pouco de política e algo mais, que sempre escapa. Mas não é sobre a mulher este texto, apesar da foto. O tema é uma oposição interessante, que existe no debate teórico do mundo contemporâneo, e que impregna, como toda teoria, o pensamento cotidiano: identidade X identificação.

Se tem uma coisa que o livro "As Palavras e as Coisas", do filósofo Michel Foucault me ensinou, é essa tendência positivista das chamadas "ciências humanas". São ciências que, a priori, trabalham com a ideia de que estabelecem o seu próprio objeto. Nesse ponto, inclusive, estão anos-luz atrasadas em relação à física, por exemplo, que já reordenou seus pinos, atravessada pelo próprio objeto que tão soberbamente bradava como "seu".

E aí caímos nessa falseada dicotomia dita pós-moderna entre identidade e identificação. Anteontem, assisti, na Globo, o filme "Identidade". É um filme que já rendeu postagem aqui, inclusive. E se trata de um trabalho que sempre me traz reflexões novas, na medida em que montado a partir de uma trama cruzada muito sutil, que permite leituras abrangentes sobre o que é essa coisa que chamamos de mente.

Mario Quintana: "Alma é isso que pergunta se a alma existe". Tá aí, na pista do poeta, o que o Lacan exprime pela via inteligente da psicanálise: "A verdadeira natureza do eu em Freud [é] uma identificação imaginária, ou, mais exatamente, uma série englobante dessas identificações" ("Outros Escritos", p. 213).

Não existe verdade definitiva para o sujeito. E esse sujeito não é o condutor exclusivo de sua mente. O que nos constitui é um vazio que desliza por nomenclaturas. Alguns poucos filósofos sacaram isso. E não é à toa que Platão dava tanta importância para os poetas: eles enxergam sempre antes essas coisas (estou falando dos verdadeiros poetas, claro...).

Muito se discute hoje sobre a coisa das "identidades". Tema positivista, como o são as ciências humanas de uma maneira geral. Fica parecendo que o sujeito escolhe sua roupagem. Fica parecendo que usa várias roupas ao mesmo tempo, quando quer. Fica parecendo que é dono de seu querer.

Na noção de "identificação" se encontra o que Lacan aponta como "imaginário". O "eu" que está lá, do outro lado do espelho, é uma réplica. Que é tanto falseada como "original", quanto, inclusive, como "réplica". Ela, na verdade, é a única coisa que o sujeito é: uma réplica, condicionada por uma ilusão qualquer. Não há duplo, como bem lembra o Clement Rosset.

E o Baudrillard pode ficar tranquilo, esteja onde estiver: nunca nos repetimos ao infinito. Mesmo que façamos o maior esforço para isso, como é o caso dos fiéis do púlpito sagrado da moda e das séries mercadológicas. Por trás de toda a parafernália de circulação de mesmidades do mundo do consumo, escondem-se valores que insistem em perguntar, lá da alma, esse não-lugar, se é isso mesmo.

Para além do óbvio, existe o fragmentário. A diferença. Que é diferença principalmente do que se vê. Exercite essa questão: Com que tipo de símbolo essa mulher da foto se "identifica"? Qual é a "identidade" que desliza, ali, apesar de si mesma? "O inconsciente só se traduz em nós de linguagem" (Lacan); "A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio" (Fernando Pessoa); mais respostas.. mais respostas...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Tragédia e reflexão no Clube do Livro


Hoje começa a votação para o livro que vai ajudar a debater o meu tema, no Clube do Livro. O link do texto, com as opções e a reflexão a respeito da questão, segue abaixo. Boa leitura a todos. E participem dos debates.

Beijos e abraços


quinta-feira, 12 de março de 2009

...é assim que o EU vai...


O escritor e professor brasileiro Luiz Alfredo Garcia-Roza afirma que "as definições são equívocas e enganadoras" e que "a verdade só pode ser encontrada fora da linguagem, na interioridade do sujeito". Para ele, "é a interioridade que sustenta a verdade do signo" (Palavra e Verdade na Filosofia Antiga e na Psicanálise, p. 97). Há controvérsias, claro. Apesar de concordar que o lugar de fixação da verdade é o indivíduo-sujeito, a coisa é mais complexa. Como lembra o poeta Rainer Maria Rilke, já citado por aqui, "as coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar" (Cartas a um Jovem Poeta, p. 23).

A reflexão deste momento pode ser levada a cabo através do sentido que ganha a palavra "normalmente" na citação de Rilke. Se acreditamos 'normalmente' no que querem nos fazer crer, é porque há, atuante, no ser humano, um princípio de concordância que estabelece consensos, mesmo que transitórios. Várias pessoas acabam seguindo uma tendência qualquer, a partir de algum laço que se cria entre elas, nos níveis da aceitação e da reprodução da ideia dominante na lógica.

E que 'laço' seria esse? Muito tem se debatido, no cenário teórico ocidental, a respeito da forma como se configura e se apresenta esse laço que estabelece uma norma. Isso leva a considerar a importância fundamental deste tipo de teoria que analisa a estrutura do discurso, ou seja, exatamente a avaliação das partes que compõem a simulação de determinado consenso.

O consenso da vez é o mercado. Mas não é apenas ele. Ele vem existindo desde que o capitalismo dava suas primeiras bufadas, no imediatamente após a Revolução Industrial. Há, portanto, mais a fuçar nas entrelinhas da 'norma mercadológica', na medida em que o capital, para manter-se na crista da crença, reordena suas contradições dia após dia.

Essa introdução se deu no intuito de jogar mais um exemplo de como podemos avaliar a que tipo de sistema ideológico se vincula o mercado ou a lógica da mercadoria, como se preferir. Trata-se do último comercial da marca de motos "Dafra", que vem crescendo suas vendas no Brasil a partir da surrada estratégia do crédito fácil e a longo prazo.

A história do comercial é simples. Uma multidão de pessoas de um lado e uma multidão de motos do outro. O ator global no centro, a dirigir ideologicamente a cena, apresentando os motivos que levam as pessoas a considerar a relação com o objeto de consumo da vez como sendo o fim de seus problemas e, mais do que isso, o início de uma liberdade sem fim e autoreferendada.

O transporte público é simbolizado como algo que deve ser banido da vida do sujeito, que encontraria todas as facilidades nas motos em questão. E há a frase final, extremamente importante para compor o enredo da história e para sacar que tipo de ideologia rege o arranjo do consumo: depois de adquirir o produto, o sujeito "não dependerá mais de ninguém". Por que depender dos outros, para a Dafra, é realmente uma furada.

Esse tipo de construção tem uma peculiaridade que quase sempre passa ao largo: seu problema não é a contradição que cria, mas justamente o estímulo que oferece ao que o sujeito possui de demanda egóica. Os espaços de linguagem coletivizada, neste particular, acabam servindo para sustentar o que o indivíduo já possui como mitologia narcísica. E isso cria um tipo de monstro semântico, que é a "norma do cada um por si". Todo mundo recebendo um mesmo tipo de informação, que, entretanto, se dirige ao eu de cada um em sua lógica insular.

As implicações disso? Basta pensar no que aconteceu com Narciso quando apaixonou-se por sua própria imagem. Esqueceu-se completamente do resto... E é esse o retrato do consumidor-padrão, aquele que segue à risca a norma dos comerciais. Ele acha que não depende de ninguém pra nada e, quando precisa de alguém ou quando precisa pensar em outro alguém, suas violências internas afloram ressentidas, revoltadas com o fim momentâneo da massagem egóica e com o retorno da sociabilidade recalcada.

É como diz o slogan das tais motos: "Dafra: VOCÊ por cima". Com todos por cima, ninguém segura as bases e o barco afunda. E há saída para isso?

segunda-feira, 9 de março de 2009

Não há vagas!


Como não tenho tesão nessa "mania de grandeza" do mundo de hoje - 'grandeza' bem discutível, enfim -, posso comentar a respeito. O fato é que, nessas reflexões que nos apanham de repente, parei a pensar nesses carros cada vez maiores que 'santo mercado' vem oferecendo a seus fiéis. Você anda pela rua e a cada dia vê mais desses veículos que são feitos com o tamanho maior em relação ao padrão, que ocupam cada vez mais espaço nas ruas, e cada vez mais o espaço nas vagas da cidade.

A questão é que, como sabemos, esse santinho do pau oco tá cagando e pisando em cima para o futuro de seus fiéis. Podemos sacar isso pensando numa cidade como São Paulo, que investiu nessa lógica de vender carros a torto e a direito, para depois remendar o equívoco com os tais rodízios, porque a cidade não suporta mais o crescimento das vendas. Santo mercadinho detesta um limite, coitado...

Tudo o que já é ultrapassado em países que já testaram essa lógica sem sucesso, acaba caindo aqui, no sentido de manter a roldana do capitalismo em movimento. Os países da Europa, Japão e Estados Unidos, estes passaram a investir em transporte público de qualidade, pensando nas consequências a médio e longo prazo da suruba merdológica nos transportes. Enquanto isso, no Brasil... "Ora, lá tem bastante árvore... Bota carro pr'esses trouxas comprarem.. A gente ganha uma graninha e tá tudo certo..."

Segundo li num blog, no ano passado, essa lógica tá atingindo também lugares antes preservados, como a China e Moscou, que sempre foi considerada cidade exemplar no que dizia respeito ao transporte público. Países que, para a maioria das pessoas, estão "crescendo"... Doce ilusão...

O fato é que é só escrever e cobrar: não vai demorar muito tempo pra esse tipo de padrão de veículo se expandir e criar sérios problemas de vagas nas ruas (como o da foto). Um tipo de questão que nunca foi simples.. Tende a piorar. Graças às missas de domingo nos shopping-centers, adoração fanática e vazia aos totens do consumo.

É mole ou quer mais?

domingo, 8 de março de 2009

Mulheres...


Vamos de uma forma um pouco mais descontraída, neste texto. Hoje é o dia da mulher. O que já é, em si, um tremendo preconceito, diga-se de passagem... Não existe um "dia do homem". Por que será? Prefiro deixar isso de lado, enfim..

O fato é que vi a imagem acima num site, quando procurava alguma coisa para ilustrar esta postagem. A legenda era reveladora: "A mulher perfeita". Quer dizer, a mulher perfeita seria aquela que não tem boca, pra não falar besteira, e que não tem olhos, pra não ficar se olhando no espelho a cada 45 segundos...

Nada mais injusto. Mas será mesmo? Para além da bazófia comercial de termos um "dia da mulher", vale pensar, neste dia, no quanto a mulher vem se degradando socialmente, de uns tempos pra cá. Sob as máscaras iluministas da igualdade, as mulheres vão tentando fazer tudo que antes era da competência única e exclusiva dos homens. E o fenômeno tem a faceta inversa também. E aí, temos essa miríade esquisita que é o mundo de hoje: mulheres com ombros largos de tanto malhar; homens que fazem a unha; mulheres que falam palavrão e cospem no chão; homens que usam camisetas rosas; mulheres que falam grosso; homens que falam fino...

É claro que devemos atentar para as exceções. Mulheres que conseguem aliar inteligência no trabalho com a manutenção de sua feminilidade. Mas o cotidiano vai mostrando que isso é cada vez mais raridade.

Outro exemplo vem da política partidária. Se pensarmos na história da mulher na política recente, vemos um quadro nada animador. A eleição de Violeta Chamorro, em 1990, na Nicarágua, eliminou as possibilidades de se manter mudanças sociais relevantes naquele país, que tentava uma revolução socialista; Margaretch Tatcher era quase um macho neoliberal; Condolezza Rice, nem preciso comentar... praticamente uma cadelinha do Bush; Essa alemã, Ângela Merkel, é muito crente nessa balela de "economia ambiental", que é, na verdade, um álibi para sustentar o capitalismo; e a mulher do Kirtchner, na Argentina, ainda não me convenceu... não teve, ainda, a postura firme (sem perder a elegância) de uma Evita Perón, talvez a única mulher que tenha dado contribuição de peso para a política dos últimos tempos.

No dia da mulher, acho que, numa perspectiva global, não há muito o que se comemorar. Vale, entretanto, ressaltar os exemplos particulares. Como o da amiga Karla, escrevendo cada vez melhor; Como o de minha amiga Ju, que tá sempre sumindo, mas que adora um papo inteligente, coisa cada vez mais rara... Como o da escritora Tania Rivera, de quem li dois livros, muito inteligentes e com moldura poética de peso; de todas as mulheres inteligentes, que participam dos debates sérios do Im-postura; das alunas que embarcam no barato de debater questões complexas, que nos fazem humanos para além da genitália e da imagem por detrás dos espelhos... Essas mulheres, que se superam, merecem os mais efusivos parabéns. Não pelo dia de hoje. Mas pela forma como levam todos os seus dias.

No geral, continuo achando mulher uma delícia. A coisa mais apetitosa que já apareceu... Mas continuo achando também que não pode ser só isso...

sábado, 7 de março de 2009

URSS, marxismo e Fidel


Ontem publiquei, no Clube do Livro, o segundo texto da série sobre o legado da União Soviética para o debate da história do pensamento. Ele termina a série, mas está lá, esperando a visita dos leitores e leitoras interessados em debater pontos da questão. Os links seguem abaixo, na ordem.

Abraços e beijos


1º texto:



2º texto:

http://clubedolivro.wordpress.com/2009/03/06/o-socialismo-de-fidel-e-a-questao-freudiana-da-identificacao

PS: O Julio, meu leitor e ex-aluno, descobriu que estes links não estão abrindo o site, com os textos. Os links estão corretos, o que indica que deve estar rolando algum problema 'internético' qualquer - sabemos como são essas coisas. Peço aos interessados, então, que entrem no próprio site (www.clubedolivro.wordpress.com) e, a partir dali, localizem os textos. São os dois últimos com a minha assinatura. Isso resolve o problema. Obrigado pelo toque, Julio.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Rilke e a complexidade do simples...


Três fragmentos deste brilhante livro que estou lendo, 'Cartas a um Jovem Poeta', do Rainer Maria Rilke.

"As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço em que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa".

"Basta (...) sentir que seria possível viver sem escrever para não ter mais o direito de fazê-lo".

"Não se deixe enganar pelo que é superficial; nas profundezas tudo se torna lei. Os que vivem mal e de modo falso o segredo (e são muitos) o perdem só para si mesmos, e no entanto o transmitem como uma carta fechada, sem saber".


Um pouco de inteligência, para aliviar do superficialismo dos tempos atuais, onde se pensa os problemas com a visão distorcida da medicina alopata (uma metáfora) ou com as máscaras da felicidade a todo custo, que constroem exageros e estradas sem saída, que só remetem à beira do precipício e a uma meia-volta inicialmente dispensável.

Mais do que defender a poesia, Rilke defende, nestas cartas, a simplicidade. E, paradoxalmente, o tanto de complexo que existe em pensar de forma simples. No mundo das plásticas (outra metáfora), que empurraram nossa vivência para um estado de fingimento impressionante, conseguir abrir frente e enxergar a simplicidade e a beleza do complexo é cada vez mais difícil.

Leia Rilke. Existem pistas por ali.

quarta-feira, 4 de março de 2009

No subterrâneo das atenções

Concetto spaziale - 'Attesa', 1960
Lucio Fontana


Quantas e incansáveis
são as guerras deste mundo.

do alimento
contra o intestino.

entre a mosca
e o felino.

Quantas lutas solitárias
nossos eufemismos não vêem.

do tempo
contra o espaço.

entre a ordem
e o caos.

Frente a frente,
o Silêncio e o Homem,
a tentar dizer-lhe as miragens.

A vida é esse cinema-mudo de hostilidades,
que mantém acesas
as ironias do destino.

É esse ringue subterrâneo
de onde emergem as verdades,
feridas que pulam das entranhas
das máscaras da paz.

Cada sorriso é um salvo-conduto
que cai de pára-quedas
no pátio da angústia.

E as lágrimas?,
volta-e-meia
a guerrear com as convenções?

O instinto e as leis
Deus e o Diabo
O sono e os olhos
Os olhos... e o olhar.

Formigas assustadas,
carregamos folhas sobre as costas,
para não enxergar
as tempestades bélicas
que a prosa comum esconde.

E o poema é este combatente.
Soldado do conflito
a atirar granadas
para dentro da janela de cada espelho.

História e Ficção, Ficção e História


Até que ponto podemos dizer que um texto que se pretende histórico tem acordo com a verdade de fato? E o texto de ficção? Ele sempre inventa enredos, ou cria aproximações com o tal do real, esse eterno invisível? Essas são reflexões que estou desenvolvendo com a leitura do Luiz Costa Lima, que estou fazendo aos poucos, por conta da riqueza de detalhes de sua obra.

Diz ele que, "para que não recaia em uma concepção anacrônica de verdade, cabe ao historiador reconhecer sua inevitável parcialidade". E pergunta: "Não se tornaria o anacronismo ainda mais entranhado quando se supõe que a verdade do historiador se encerra no âmbito do factual?" (p. 89).

Certa vez li um livro muito interessante, do Balzac, que se chama "Ilusões Perdidas". É um tremendo documento sobre a falta de ética original do jornalismo, mesmo sendo deliberadamente um romance.

Por outro lado, me parece claro que um texto como o jornalístico, a despeito de sua retórica de factualidade, aparece sempre impregnado pela mitologia de seus construtores. É como diz o sábio Mario Quintana: "uma definição apenas define os seus definidores".

Aonde se encontra a fronteira entre a ficção e a história? Ou ainda: é correto utilizar essa metáfora da fronteira, ou algo como o horizonte serve melhor para a ocasião? Fronteira ou horizonte?

O fato é que há muita verdade em diversas ficções, assim como muita mentira em pretensos textos históricos. Dizem que a história é escrita pelos vencedores.. Tem sentido isso. Não que não existam verdades.. Mas absoluta mesmo, só a incompletude de nossa visão, acostumada às miniaturas e aos caprichos, como lembrou-me recentemente o Bachelard... Um ponto para estarmos sempre atentos, nós que prezamos pelo cuidado com a linguagem...

segunda-feira, 2 de março de 2009

O capitalismo e a saúde


Enquanto o gato guerreava com o chinelo, tentando destruir as tiras com os dentes, eu dava uma lida no livro de filosofia do ensino médio. Quando, então, deparei-me com esta pérola sobre a lógica capitalista:

"Quando era presidente da República (1985 - 1990), José Sarney tomou conhecimento desta prestação de contas de um laboratório farmacêutico:

Severo Gomes era ministro da Indústria e Comércio e recebeu um relatório de um grande laboratório internacional, destinado a seus acionistas, justificando os seus lucros baixos naquele ano: "O inverno foi muito fraco e, com o tempo bom, não tivemos a incidência de pneumonia nem complicações respiratórias. Os casos de gripe foram muito aquém de nossas previsões e os gastos com anúncios sobre nossos produtos, excessivos. Assim, pedimos a compreensão dos nossos acionistas para os baixos lucros, que não foram decorrentes da falta de esforço de nossos executivos". E continuava: "Contudo, as perspectivas de melhoria são excelentes. Todas as previsões meteorológicas indicam que vamos ter um rigoroso inverno, com novos vírus gripais, não sendo descartada a hipótese de incidência de epidemias. Assim, o volume de consumo dos nossos medicamentos vai ser muito grande e explosivo, compensando o fraco desempenho deste ano". Severo deu-me conhecimento do relatório e uma boa risada, advertindo que essa é a lógica capitalista".
(José Sarney, "Um Mundo de Paradoxos", Folha de São Paulo, 10 de março de 2000)


É... A 'boa risada' do tal Severo, além de conotar o tipo de postura de gente que se alia a um Sarney da vida, demonstra a maneira como a mentalidade capitalista recebe esse tipo de absurdo: "Ora.. as coisas são assim..." Por mais que eu tome conhecimento, todo dia, de podridões como essa, não consigo deixar de achar impressionante um documento como esse...

Aos partidários da tal democracia, vale lembrar que Fidel está há 50 anos no poder em Cuba, mas certamente não riria de uma escrotidão dessas... Ou seja, o que é pior: a ditadura da saúde e da educação, ou a ditadura da risada cínica e criminosa?.. Cartas para a redação...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O crepúsculo da crítica nos "mega-sellers"


Desconfiar das unanimidades não é apenas um exercício de ponderação intelectual. É, nos dias de hoje, quase que uma necessidade, dadas as proporções com que crescem as desproporções entre o valor crítico e o valor econômico ou financeiro - como queiram.

O 'Prosa e Verso' de hoje traz uma matéria sobre o surgimento de uma nova nomenclatura relacionada às vendas de exemplares do chamado 'mercado editorial'. Segundo Rachel Bertol, autora do texto, os "sucessos" de vendas estão alcançando patamares nunca antes imaginados, o que geraria a necessidade de criar a denominação "mega-sellers" para designar os mega-vendedores, como essa simpática mocinha da foto acima, de nome Stephenie Meyer, autora da nova febre do momento, a série de livros chamada de "Crepúsculo". Em menos de um ano, a autora já vendeu 760 mil livros no Brasil, e chegou ao número de 45 milhões de livros no mundo, desde o lançamento da série, o que, segundo Rachel, muda (!!) o perfil do setor editorial.

Como desconfio das unanimidades e também das maiorias, vou dar meu pitaco. Coincidência ou não, 99% dos livros que vendem muito são muito fracos, tanto em termos de conteúdo quanto no sentido estético. Isso por um motivo muito simples. Vivemos uma época bem esquisita. Por um lado, é bacana dizer que se discorda do sistema, é bacana malhar a tudo e a todos. Um exemplo disso reside nas últimas eleições presidenciais, quando todos os candidatos se diziam "de esquerda" ou "de oposição", no intuito de ganhar a confiança dos eleitores. Por outro lado, temos o fenômeno discursivo do eufemismo, que leva as pessoas a, no cotidiano, evitarem de forma quase que fóbica a crítica, escapando sempre dos debates com formas atenuadas de posicionamento ou mesmo com humor exagerado e inócuo.

O crítico Humberto de Campos dizia, em 1958, que "o grande mal do Brasil tem consistido, proclamam-no todos, na falta de crítica: de crítica política, de crítica científica, de crítica literária, de crítica social. A falta de crítica nas letras, nas ciências, na política, na orientação coletiva dos homens, é que determina a anulação do sentimento de responsabilidade, origem de toda a desorganização" (Crítica, Primeira Série, Prefácio, p. 6).

A crença na democracia reside na ideia de que as massas são as melhores organizadoras de seu próprio destino, através do consenso. Entretanto, o fenômeno do consenso é bem ambíguo. O filósofo Theodor Adorno já demonstrou, com seu brilhante trabalho "Indústria Cultural", que a massa não pode ser vista como referência, nem de si mesma. A crítica disso pode ser calcada também em duas ideias da psicanálise: a de "reconhecimento" e a de "resistência". O neurótico, o comum dos homens, é aquele para o qual é fundamental saber-se fazendo parte de um contexto maior, que - senão importante - lhe seja reflexo. E, para que isso aconteça em seu imaginário, ele "resiste" a qualquer ideia que lhe traga o impecilho do impasse. Por essas e outras, não sou um democrata. Não acredito nas massas.

Ainda segundo a autora do texto, Rachel Bertol, "o mega-seller dificilmente existiria sem a globalização". Globalização que "eleva" a literatura ao patamar subterrâneo dos livros de auto-ajuda e ao público juvenil como referência de criação literária... Basta uma breve passeada pelos títulos mais vendidos para perceber que não há a menor "revolução" de fato, como alardeia a jornalista. Muito pelo contrário. Os livros do tal Harry Potter venderam, no mundo todo, mais de 400 milhões de cópias nos oito anos de sua existência. O "Código da Vinci", do tal Dan Brown, vendeu mais de 80 milhões, desde 2004. O recente "Segredo" chegou a 1 milhão e meio de cópias vendidas e aquela bobeira chamada "O Monge e o Executivo", que tive o desprazer de ler para corrigir os resumos de uma aluna, atingiu 2 milhões, em 4 anos de existência.

A mídia trata essas pessoas como influentes. Cria inclusive listas dos "mais influentes", onde todos estes estão presentes. Mas, quando perguntada sobre a influência da violência dos filmes de ação na cabeça dos jovens, escapa pela tangente. O fato é que o consenso é um mito curioso, que deve ser examinado com cuidado. Junto com outro, para o qual o filósofo francês Debord já chamava a atenção nos anos 60, em seu clássico "Sociedade do Espetáculo": a segmentação de mercado. Hoje, existe segmento de tudo. Mas há um simulacro por trás disso. E esse simulacro pode ser percebido quando sacamos que os livros que mais vendem são aqueles feitos para adolescentes. No fundo, o que manda hoje em dia é a ideologia do ser-adolescente-a-todo-custo. E aí, as influências e ecos que o discurso pautado pelo mercado produz são justamente a irresponsabilidade típica dessa fase criada pelo capitalismo.

Continuo achando que a literatura deve ter como referência a reflexão crítica. Que não interessa às massas, ávidas que são por novas massagens egóicas produzidas pelo leque apaziguador dos consensos. Pode vender milhões, pode encher o bolso dessa gente de dinheiro... mas não será literatura, porque literatura não é o que vende. É o que, como coloca o José Castello em seu texto da semana passada, fura nossas seguranças e, num rasgão, expõe a fogueira na qual ardemos.

"No esforço inútil de "ser igual", ilusão nefasta das identidades", o neurótico das massas pula de best-seller em best-seller. Atrás de si mesmo, em busca de suas próprias certezas inúteis. Como lembra bem o Magno, tudo aquilo que todo mundo já entendeu muito bem acaba caindo na mediocridade (Est'ética..., p. 34). E é por isso que vivemos num mundo medíodre. A "arte-mercadoria" (com o perdão do contrasenso) não corrompe, não inunda, não decompõe nada. Apenas ressoa, como os passos em marcha do exército de clones da eterna e irresponsável juventude. Sentido!! Ordinário, leia!!