"O Nascimento do Mundo" (1943)
Salvador Dali
Quer realmente fazer uma revolução na sua vida? Pois então, vamos exercitar isso (parece discurso de auto-ajuda, mas não é: muito pelo contrário).
Todo o problema da ditadura econômica que vivemos hoje se resume ao tópico da adesão ideológica. O que soa até redundante, porque tudo o que é ideológico é da ordem da "adesão". E para analisar bem isso é preciso um pouco de história, mas de forma crítica. E por que de forma crítica? Porque senão a gente fica repetindo o que já foi dito e não contextualiza. Vamos então a ela.
Vivemos hoje um sistema que é chamado de "capitalismo". O capitalismo é baseado na crença de que o mais importante está nas trocas baseadas no binômio lucros-juros, que não existiam antes do século XV (eram proibidos na Idade Média) e que se expandem exponencialmente a partir da chamada "Revolução Industrial", no século XVIII. O que sustenta o capitalismo, na ideologia, é o protagonismo da ciência da economia, que nasce, mais ou menos na mesma época, para justificar, no plano representativo, o que o capitalismo é no plano político, ou seja, a ganância dos países hegemônicos da época, que gastaram todo o seu espaço interno, em busca de lucro. Não estavam 'satisfeitos'...
Ficou claro, desde cedo, para a maioria dos capitalistas interessados em criar uma "descontinuidade" para o seu discurso (ou seja, para que ele parasse de "continuar", ou seja, para que ele não mudasse mais, mantendo-se capitalista para sempre), que precisariam gerar uma lógica na qual a "carência" fosse o símbolo dominante. Nas sociedades anteriores, as relações entre as pessoas e os objetos eram mediadas pelas tradições milenares, ou seculares, que em geral desenhavam para o sujeito, em sua vida comum, uma aparência de "saciação" simbólica, na medida em que ser o proprietário de um objeto que representava uma exigência inquestionável gerava um sentimento de satisfação efetiva nos indivíduos. Ora, se o objetivo é expandir o lucro e os juros, então as pessoas não podem nunca se sentir "satisfeitas", no nível dos objetos de posse. A própria ideia de 'posse' deveria ser reorientada, para que o apego fosse apenas à carência-ela-própria, e não aos objetos que forjavam o preenchimento dela.
Em suma, então, o capitalismo funciona porque, no plano ideológico, conseguiu convencer as pessoas de que a 'insatisfação constante' é um valor absoluto, inclusive em relação às mercadorias. Mas há aí um importante paralelo a ser feito.
A chamada "Modernidade" - que, coincidentemente ou não, aparece junto com o capitalismo - expôs a falácia do caráter absoluto das tradições, mostrando aos indivíduos que a 'insatisfação' é um fator importante para que se crie coisas novas e, principalmente, pensamentos novos. Ou seja, não se aprende nada novo, não se faz nada de novo, se a gente fica apegado de forma absoluta a um conjunto de símbolos que foi imposto há séculos e que não é necessariamente o fim da história. Toda a história das grandes descobertas humanas se baseia nessa descoberta principal, a de que a verdade nunca é definitiva: assim agiram todos os grandes pensadores da história, como Platão, Galileu, Kant, Nietzsche, Einstein, Beethoven, Van Gogh, Picasso, Kafka, Dostoievski, Machado de Assis, Charles Chaplin etc etc etc. 'Insatisfeitos' com o que estava feito, foram lá e fizeram mais. Criaram e empurraram o discurso para o movimento, para uma "continuidade", enriquecendo assim o conhecimento da história.
Pois bem. Estamos diante da grande contradição do nosso tempo. De um lado, os grandes da história nos mostraram que há um lado extremamente positivo na 'insatisfação'. É ela que nos mantém diante da verdadeira verdade da vida, ou seja, a de que nada explica tudo e nada resume tudo. Toda cena possui infinitas nuances, todo acontecimento guarda detalhes incontáveis, toda verdade é apenas uma parte muito pequena do quadro inteiro, que só existe enquanto uma cascata em movimento ininterrupto e impossível de ser acompanhado em sua forma total. Assim, podemos sempre criar visões novas da realidade. Podemos sempre fazer poesia, podemos sempre investigar novos detalhes da realidade, porque ela nunca está descrita de forma completa (apesar de ser fundamental entender as formas já descritas, para que não se caia num relativismo tolo e contraditoriamente repetitivo).
Entretanto, no plano dos objetos de consumo, isso ganhou outros contornos. A insatisfação capitalista gera - ao contrário da outra - carência, frustração constante, sensação de fracasso, depressão e, o que é o mais relevante, uma constante diminuição do repertório crítico e intelectual no imaginário dos consumidores. E por quê? Porque o desejo de troca incessante, na relação de consumo, não é pautado pela vontade de criação, mas apenas pela mera substituição dos objetos, pura e simplesmente.
Não é à toa que a depressão é considerada a doença do século XXI por um crescente grupo de estudiosos da psicanálise. Podemos resumir as diferenças a partir da grande promessa do capitalismo atual: "satisfação garantida ou seu dinheiro de volta". Entretanto, as pessoas sempre 'voltam', para trocar seus objetos, que rapidamente se tornam obsoletos, o que mostra que a satisfação não era de fato 'garantida'. Completamente diferente da lógica que rege os avanços do conhecimento, feitos por aqueles grandes nomes que citei anteriormente: eles mostraram que a satisfação, no conhecimento, nunca é 'garantida'. É sempre possível - e, mais do que isso, fundamental - tentar mais, tentar novas posturas, novas atitudes, novas criações. O oposto do que prega o mercado, que só fala em "inovações" se a coisa estiver atrelada ao lucro. Ora, se o mundo é o mundo do lucro, inventar algo aparentemente diferente, mas que gere apenas lucro, não tem nada de efetivamente novo. O capitalismo, enfim, é um enorme produtor de carências, e não de criatividade.
E é exatamente por isso que a educação crítica é o tempo todo boicotada pelos que lucram com esse sistema. Porque uma educação efetivamente crítica ajuda a perceber que a única insatisfação que deve ser exercitada é a da inteligência - e não a do consumismo. Aliás, uma cresce em igual proporção à diminuição da outra. Ou seja, quanto mais 'insatisfeito' você fica com a realidade limitada do conhecimento estagnado, mais percebe que os valores vendidos pelo mercado não passam de uma retórica de sedução, criada para que você se mantenha o mais carente possível. Quanto mais carente, mais consumista; quanto mais consumista, mais deprimido; quanto mais deprimido, menos você pensa, menos você reflete; e quanto menos você pensa, mais o sistema se sustenta em sua mediocridade - mediocridade essa que é a principal responsável pela manutenção da carência.
A mudança não é simples, porque os instrumentos de sedução estão por toda a parte: na mídia, na política, na propaganda, no marketing e até na educação (porque tem muito professor por aí que adora dizer pros alunos que o importante é ganhar dinheiro e nada mais). Mas ela é possível. Para os capitalistas, uma pessoa 'rica' é aquela que ganha muito dinheiro, dinheiro suficiente para trocar de objetos todo dia, num exercício de carência que é nítido. Para uma pessoa inteligente, ao contrário, rico é o pensamento que "empobrece" os símbolos de seu retesamento, constantemente. Rica é a mentalidade que 'desgasta' as certezas, para delas retirar novas possibilidades. Rico, enfim, é aquele que troca sua carência pela verdadeira riqueza, que é a da criação constante, que é a da mentalidade independente, que consegue refletir o mundo e a vida para além das verdades de plástico do mercado. Se é possível fazer poesia com uma pedra, como nos ensinou Drummond, porque não seria possível pensar diferente e se desvincular da carência plantada pelo capitalismo, que em comparação com a pedra, é muito mais recente?