
Ao correr na esteira da academia, anteontem, tive a desagradável companhia das balelas espetaculosas do Jornal Nacional. Vale apenas citar uma risível contradição, ligada, mais uma vez, a esse mito ocidental da "liberdade de expressão".
Primeiro, o Jornal mostrava o ex-secretário-geral da ONU, Koffi Annan, dando palestra pra um bando de marqueteiros, babando elogios à "liberdade de expressão", especialmente da imprensa comercial. É a grande imprensa, que não mede esforços para sustentar um pretenso valor positivo para a total liberação das mensagens midiáticas. Segundo desejam, o controle do que é exibido não é uma questão relevante. O importante é a tal "liberdade de expressão"..
Como sabemos, há sempre um porém. E ele aparece rápido. No mesmo dia, o jornal abusou de fazer uso da reprodução de escutas telefônicas - os famosos "grampos" - de pessoas envolvidas em negociatas e vários outros crimes. Pra isso, a "liberdade de expressão" não vale.
Uma pergunta: quem fará o "grampo" das falcatruas envolvendo a grande mídia? E outra: esses patetas são sempre aqueles que posam de entendedores de qualquer assunto, culpando o processo educacional (família, escola e governo - nunca a mídia) quando aparece algum delinquente cometendo crimes. Pra depois babar a asneira de que as mensagens midiáticas não influenciam a cabeça dos jovens - e das pessoas em geral.
Para quem pensa um pouco, aparece nítida a questão de que o meio é parte fundamental na formação de um indivíduo. E parte fundamental dessa formação está no estabelecimento de limites de ação e de conduta. Inclusive, essa é a base do direito que constitui as sociedades ocidentais modernas.
A mídia não pode ter liberdade irrestrita de ação, assim como ninguém pode. Só se constrói um mínimo de possibilidade de convívio, um mínimo de sociedade, quando há o direito de um outro, que limita o nosso. Toda liberdade pressupõe um cada um por si, pressupõe o afrouxamento dos limites e, como consequência, aumento de violência e de desrespeito ao lugar do outro.
Mesmo que faça pouco eco, vale a reflexão...


2 comentários:
Marcelo, eu pergunto,muitas profissões tem como reguladores códigos de ética específicos, deontologias, que mesmo que não cumpridos integralmente são fator regulador de abusos, e que tem conselhos de profissionais que deveriam zelar por esta aplicação.Em relação a esta questão, qual é a situação do jornalismo e se tôdas as formas midiáticas estariam sujeitas a estes reguladores ?
Dona Urtigão, muito boa a questão que você levanta.
Existe sim o mecanismo dos códigos reguladores, "deontológicos". E todas as formas midiáticas são sujeitas a eles (talvez a internet tenha uma frouxidão maior, em tese).
O problema é que, como toda "lógica", a deontologia é extremamente ilógica. Isso porque existe uma questão fundamental: apesar de existir, o código de lei (lei no sentido de princípio normativo, moral e tal) sempre bate de frente com dois mitos que o jornalismo segue com afinco: o da chamada "liberdade de expressão" e, mais grave ainda, o da "utilidade pública", que esconde o caráter essencialmente mercadológico dos veículos midiáticos.
Com relação ao primeiro, ele legitima qualquer abuso. E legitima mais ainda quando entra em cena o segundo. Existe o papo de "informar", que tem diversas sutilezas (o que não seria uma informação??) e existe o lance de que eles "precisam vender" pra sobreviver. Em cima disso, tudo se justifica.
Uma das poucas coisas efetivamente boas que o Lula fez foi tentar regular a ação da imprensa, baseado no fato óbvio de que eles agem como produtos. Ora, então há um consumidor desse produto. E se há um Procon para todo produto, tem que haver um para a mídia também.
Isso não se sustenta porque a globo já tomou o lugar da escola e do saber no imaginário das crianças e adultos, aqui no Brasil. É difícil dizer que muita coisa ali é balela porque a coisa tem muita pompa, e as pessoas adoram um espetáculo.
Enfim.. Acho que hoje em dia o mais importante é a pessoa aumentar sempre seu repertório intelectual. Essa é a única maneira, ao meu ver, de zelar pela recepção das mensagens que eles produzem. Porque se depender dos órgãos reguladores...A liberdade é o dogma da vez.
Abraços
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