Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

O fragmento e a deriva



Apesar de ainda estar na metade da leitura, posso adiantar-lhes que estou extremamente empolgado com algumas questões levantadas pelo Jean Baudrillard, nessa entrevista-livro que estou lendo, "De um Fragmento ao Outro". Portanto, vou adiantar alguns pensamentos que achei muito interessantes.

Primeiro, vale colocar que Baudrillard propõe uma transpolítica, para além da mitologia do debate, contemporânea. E a idéia do "fragmento" entra justamente aí.

O pensador francês representa o 'aforismo' como prática possível, que cultiva a singularidade do acontecimento. Seria uma espécie de "crise", uma "fratura" na aparência sólida das pretensas definições (invariavelmente totalitárias). Neste caso, o aforismo venceria a "máxima", sempre investida de uma moral sutil.

Esse "abandono" da moral visa, justamente, investir o sujeito de uma responsabilidade por sua releitura de algo. Tanto no nível do que seja a reflexão efetivamente, ou seja, um olhar-deslocamento, quanto no que tange ao problema inevitável da consequência de uma releitura, que muitas vezes pode ser seduzida pelo tesão da definição.

Ele nega veementemente o que chama de "ideologia da libertação", que vivemos hoje. Trata-se sempre, diz, de uma questão de "encadeamento". Não há liberdade no aforismo. Há um jogo infinito, onde a infinitude é a regra. E onde o inimigo está sempre a espreita, pronto para fincar as bases de algum altar do sentido. "Convém que as coisas se percam" (p. 14), ele diz.

"De fato, é no detalhe absoluto das coisas que se deve poder encontrar a energia para quebrar o conjunto, para acabar com todos os conjuntos... E, portanto, reencontrar o mundo no estado de fragmento" (pp. 33-34). No detalhe se situa o que ele chama de "deriva intelectual", ora, exatamente a tal transpolítica, na medida em que o aforismo não busca consenso, mas encadeamento intermitente.

"O fragmentário resulta da vontade não só de destruir um conjunto, mas também de enfrentar o vazio e o desaparecimento".

Mais do que a manutenção da mitologia do contrato social, Baudrillard busca uma espécie de "aposta social".. O fragmento é sempre uma aposta. Mesmo que venha investido enquanto altar. Muitas vezes a aposta-altar funciona, por conta, inclusive, da adesão de quem se-aceita-massa. E é nesse sentido que reside a deriva pretendida pela forma-aforismo.

Muito disso certamente vai impregnar minhas leituras e reflexões dos próximos instantes que me permitem vivo. E vale soltar dois fragmentos que ruminei no período desta leitura, que podem fecundar a indigestão típica do detalhe.. (ops.. três):

A verdade é sempre permeável

O sentido é um pretexto para a leitura covarde

2 comentários:

ubbalda disse...

Oláá!mas quebrar o conjunto na linguagem seria tambem fragmentar a consciencia que o homem tem de si, conduzi-lo a um processo esquizofrenico.Nessa condição de perda do conjunto com perda de si,não se perderia tambem o que temos de melhor, a humanidade?
bjins!

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Oi Ubaldda.
Quando dizes "fragmentar a consciência que o sujeito tem de si", isso acarreta num problema semântico, porque uma das premissas do pensamento do Baudrillard (e minha também) é a de que a consciência é em-si-mesma uma estrutura que vive no fragmento. O que ocorre é que nossa consciência tende sempre ao "definitivo", ao jogo de sustentação de certezas, justamente por conta da angústia resultante do convívio com o fragmentário. É aí que reside o egocentrismo - pra falar de um problema especialmente contemporâneo - e é isso que o Baudrillard busca combater.
O Gilles Deleuze propõe a noção de "esquizoanálise", onde a análise deve ser mesmo esquizofrênica. Um dos significados possíveis para esquizofrenia: "perda de unidade da personalidade". É exatamente isso: Baudrillard diz: "é preciso que as coisas se percam". Se existe uma sociedade baseada na "aposta" e não mais no "contrato", que essa aposta seja aposta mesmo. Apostar em time que tá "ganhando" é mole. Esvaziar os preconceitos é apostar no vazio. E cada fala é exatamente isso: uma aposta no vazio. Mesmo que se pretenda um tampão.
Quanto à questão da humanidade, acho justamente o contrário: o "humano" não reside no conjunto, mas no deslocamento. Ser humano é falar, pensar, refletir, confrontar idéias.. é, portanto, apostar, sempre. Se há um melhor?.. Não sei.. mas há a possibilidade de que a coisa deslize, "para além do bem e do mal", talvez, como propunha Nietzsche..
Beijão