Domingo, 20 de Julho de 2008

Quem foi o maior filósofo do século XX?


Voltando da rádio, hoje de tarde, parei numa banca de jornal. E fiquei sabendo que a LP&M editora está lançando os ensaios céticos do filósofo inglês Bertrand Russel. Descobri vendo o livro exposto, no que me pus a ler a contra-capa. Os editores defendem que Russel é, junto com Sartre, o maior filósofo do século XX. Ora, vale dar um pitaco nesta questão...

A partir de Kant a filosofia não pôde voltar mais atrás; o adjetivo - ou melhor, o substantivo - da crítica passou a ser seu sobrenome. E isso em minha ótica tira o Sartre do páreo. Seu existencialismo não foi uma postura crítica e pode se perceber perfeitamente isso, avaliando a mitologia da liberdade que toma conta do imaginário dito pós-moderno.

Russel, eu diria, menos ainda. Filósofo racionalista, exatamente aí se encontra o retrocesso de sua fala. Num tempo em que a filosofia já partia para uma articulação com as formas de pensamento que negavam o projeto racional como viável, visto suas inúmeras contradições, Russel seguia a risca sua matriz britânica, e sustentava a razão como linha de chegada de todo raciocínio que se pretendesse filosófico.

Enfim, achei um tremendo exagero da editora, e trago aqui minhas indicações.

Vale citar Ludwig Wittgenstein, por suas contribuições acerca da questão fundamental da linguagem, articulando-a com o histórico filosófico. Além dele, importante lembrar de Martin Heidegger e sua reflexão sobre a questão da 'vontade' e de Louis Althusser, com a contribuição de sua releitura marxista, apresentada na questão dos aparelhos ideológicos de Estado.

E três nomes figuram em minha lista dos melhores do século XX, por seu potencial destruidor de referentes e por sua postura analítica e crítica, neste século tão contraditório em relação ao saber como foi o século XX: o alemão Theodor Adorno, por suas reflexões fundamentais sobre a transformação da cultura em mercadoria; o francês Jean Baudrillard, por sua crítica dos simulacros e das simulações, além de toda a obra teórica, de peso ímpar; e, finalmente, o mais eminente dos três, o francês Michel Foucault (na foto). Foucault talvez seja o nome mais imponente dos citados, inclusive por que produziu tratados brilhantes e extensos, como o "Palavras e as Coisas", que já citei algumas vezes aqui, e que traça um quadro extremamente coerente e detalhado acerca da questão do poder do discurso científico no ocidente.

Não cito Guy Debord, Emil Cioran e Roland Barthes por que os três não foram "apenas" filósofos. Produziram em diversas áreas diferentes, todos dentro da maior radicalidade possível do pensamento que se pretenda crítico.

Mas se tivesse que escolher apenas um, iria pelo Foucault. Russel?.. Tá muito longe do francês.. A falácia do projeto racionalista já se encontra demarcada desde o poeta Baudelaire. Defendê-lo é fechar os olhos para a História.

E você, qual seria sua visão acerca desse tema?

15 comentários:

Dona Sra. Urtigão disse...

Olá. passei por aqui ontem ia deixando um comentário, depois desisti, quem sou eu para dar palpite sôbre filisofia, porque é isso, não tenho como fundamentar minhas opiniões, é tudo questão de gosto.Mas voltei porque afinal, como aprender coisas sem me expor. Concordo que Foucault seja o maior fiósofo do se XX. embora quando tenha lido "as palavras e as coisas" muitas palavras e coisas tenham ficado obscura, (vou reler em breve), entre suas outras obras acho " a hermenêutica do sujeito" algo de absolutamente genial.(embora estruturado a partir de aulas, e por isso, melhor ainda)
Um abraço.
(ei, vc não vai desistir,não, né, - acho que estou paranóica! será que fart ficou de s. c. de meus palpites?)

Olivia disse...

Embora não possa comentar nada a respeito de filosofia, devido à minha abissal ignorância sobre o assunto,arrisco-me a dizer: como assim, O MAIOR filósofo? Como é que se mede a coisa, com qual instrumento, qual a unidade de medida? Como é que se isola o fulano(e suas idéias)dos demais, sem matá-lo?
um abraço

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Dona Urtigão: somos sempre palpiteiros e o debate se sustenta pela autoria, por isso continue sempre..
Quanto ao "Palavras e as Coisas", se quiser colocar o que ficou obscuro, talvez possamos debater a questão... Com relação a hermenêutica, entendo que há um sutil positivismo nela, e por isso voto na teoria do discurso como melhor contribuição do Foucault. Além, é claro, da arqueologia das ciências humanas que ele produz no livro que estamos citando.
Mas não vou desistir não, longe disso.. As 'letras' estão no meu sintoma e eu gostei disso aqui. Quanto aos seus comentários, duvido que tenha sido por isso.. Eu, particularmente, gosto muito deles.. Mas deixei ao Fart uma intimação para que venha se justificar urgentemente.. Como pode deixar o seleto grupo assim, sem mais nem menos?...
Abraços

Olivia: Sempre acho válido a participação e não sou a verdade do assunto, muito pelo contrário.. No caso da "unidade de medida", que você coloca, penso que é a própria filosofia, visto que o sujeito, para ganhar a alcunha de filósofo, precisa entrar no jogo de rearticular os conceitos com a reflexão o tempo todo. O que sustenta essas rearticulações é o discurso de cada época, o valor que cada época dá ao saber.
Concordo em parte com você quando coloca a questão do isolamento.. provavelmente não existiria o Foucault sem o Nietzsche ou o Platão, assim como provavelmente não existiria o Marx sem o Hegel.. Mas existem distinções inevitáveis. Por exemplo: se você se filia ao sujeito para o Hegel, vai ter que considerar o sujeito cartesiano um (ou melhor, dois) degrau(s) abaixo.. disso não dá pra fugir.. E foi nesse sentido que, considerando a 'crítica' como base, avaliei os filósofos por sua contribuição nesse sentido. Claro, vão sempre faltar dados e citações.. nenhum comentário é completo e não foi feito pra sê-lo.. mas em termos do referente "escolhido", dá pra refletir as diferenças. O referente - portanto, o "instrumento" de que você muito apropriadamente fala - é exatamente a questão da 'crítica'.
Será que consegui responder?
Outro abraço pra ti e volte sempre.

Dona Sra. Urtigão disse...

A questão dos meus comentários ao fart, foi brincadeira, eu não teria poder de afetar tanto. Quanto as demais questões, serão retomadas, mas como já expliquei sou um tanto lenta nestes assuntos que implicam uma modalidade de pensar a qual não estou habituada,porem muito interessada. Mudança de paradigmas.

Tatá disse...

Devo confessar que não entenda bulhufas de filosofia, embora aprecie esta ciência.
Gostei muito quando li que Hegel disse que "...a fortaleza consiste em permanecer íntegro no negativo...". Amei o seu texto, e passarei sempre aqui!
Beijos

Dona Sra. Urtigão disse...

O existencialismo de Sartre não foi crítico como análise teórica, mas como postura, me parece que sim pois justamente propunha uma reflexão e valores em oposição aos até então assumidos sem crítica, não ?
(sou lenta, leio e releio e vou tentando passo a passo uma reflexão sobre o que leio, nunca passo por aqui. Eu venho.)Agradeço e aguardo mais explicações.

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Dona Urtigão, vou colocar porque não concordo com a postura crítica do existencialismo de Sartre: quando Freud coloca as artimanhas do ego, no fundo o que ele faz é nos demonstrar que essa idéia que temos de um "eu" é ilusória, no sentido de que o ego é a estratégia de manutenção da lógica capitalista e moderna. E é contra isso, contra esse superinvestimento no "eu" que é a forja da lógica consumista anti-política, que ele propõe a análise. Numa época em que se caminhava, no senso comum, para um entendimento do "eu" como o fim da história, propor a noção de que a responsabilidade de se definir é de cada um acaba não sendo uma postura crítica, mas de retroalimentação do mito egóico. Responsabilidade tem que ser sempre negativa em relação ao "eu", porque pressupõe um jogo onde há outros. E um "eu-outro", o inconsciente. Se há uma ética na psicanálise, na arte, na poesia, na literatura, é chamar a atenção para a metáfora, para o que existe (!) de disfarce e de máscara no "eu".
Crítica mesmo, na minha visão, está aí.
E a mudança de paradigmas é um dos temas mais importantes do Michel Foucault, no Palavras e as Coisas. Que ele chama, em verdade, de mudança de "epistême".. seu comentário me lembrou desse detalhe.
Abração

Tatá: Essa frase do Hegal sintetiza muito do que eu busco nos meus textos. Fico feliz que tenha gostado. E volte sempre, porque a filosofia está quase sempre presente neste pequeno espaço virtual.
Beijão

Fart disse...

Oopaaa! Falou em Witt (um rapaz que, em Cambridge, com 20 anos, desbancou alguns professores) e ressuscitou um morto! Melhor ainda se se põe perto dele um Heidegger.
E por quê, a meu ver?
Wittgenstein, nascido no mesmo ano em que Heiddeger (1889), católico convicto, abalou os alicerces do Aristotélico-Tomismo. Ler Ludwig sem ler Sto. Tomás é uma coisa; depois de passar alguns anos mergulhado na Suma Teológica, é completamente outra! E Heidegger (que, se não me falha a memória, faleceu em 1976, quando eu era um moleque de 11 anos; já o Austríaco Wittgenstein faleceu em 1951) também tem papel importantíssimo, em tal mesma orla, pois que, sob os auspícios de Escoto (este formado em Oxford), e fundado num platonismo "maronita", também contestou o binômio "fides et ratio" proposto por Santo Tomás.
Eu não votaria em um ou em outro, de nenhum desses nomes, pois eles teriam de ser, pelo menos, selecionados dentro da área em que pretendiam atuar.
Voto, pois, em todos. Se fosse pensar sob o prisma teológico, Ludwig Wittgenstein, sem dúvida alguma, seguido de Heidegger.
Abraços!
O texto ficou meio confuso, mas se para o bom entendedor meia palavra basta, há-de bastar, também, um texto sem muita seqüência lógica, senão emocional.
Abraços aí, agora do além. À Colega Urtigão também, naturalmente.

Dona Sra. Urtigão disse...

O colega vira fantasma e meu blog endoidou; depois de passar 24 horas pela metade, ressurge inteiro, na cor antiga e não foi o filho a quem pedi socorro que chegou a fazer nada. Será que o Fart também vai voltar inteiro ?
Marcelo, vou esfriar a cabeça, pensar no que sucedeu, depois retorno com outras dúvidas. Um abraço!

Fart disse...

Ooops, voltei para dizer que o texto confuso, naturalmente, é o meu, que o escrevi de afogadilho.
Reitero os abraços! A todos!

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Mr Fart, está computado seu voto em Wittgenstein..
Quanto ao texto, continue deixando a emoção fluir, por que a sequência é a gente que faz..
Abração

Dona Urtigão, cuidado, porque de vez em quando dá a louca nos blogs..rs
Fico aguardando suas novas - e sempre coerentes - colocações.
Grande abraço

Fart disse...

"Rectius", Marcelo: Witt sob este prisma que mencionei, apenas. Afora isto, há teólogos que apenas não se declararam (embora sejam) filósofos, e não foram recenseados. O exemplo mais patente é Teilhard de Chardin. E há ainda algumas considerações acerca de obras específicas: Kant, na CR Pura, não é o mesmo que está na CR Prática. Shakespeare filosofa enquanto poetiza, historia enquanto elabora um "play", e o mesmo poderíamos dizer de Herculano, Camilo, Antero, Joyce! Joyce! Ezra Pound - acusado de fascismo.
Enfim, as molduras estão muito pequenas para os quadros. Sartre tem heterônimos, Nietzsche tem momentos em que "sifiliza" sobre o papel; Hegel revolucionou o "pensar" a Ciência do Direito, mas Kelsen, que era jusfilósofo e algo mais, tem parcela de colaboração considerável no pensamento de filósofos modernos.
Enfim, meu caro, é dificílimo responder a isto aqui. Há coisas de Bergson indispensáveis, sobre a teoria da relatividade, mas ele falou e filosofou sobre o humor também.
Continuo com meus abraços e encarecendo que Urtigão, onde quer que apareça enriquece muito os debates; entretanto, eles só são possíveis graças às suas boas postagens.

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Ressalva feita, mr Fart.
E acrescento que existem ainda alguns casos onde se diz que há filosofia, mas na verdade nem tanto, como, acredito, em alguns trechos do próprio Sartre, aqui citado.
E muito bem lembrado o nome de Bergson, que cometi o deslize de esquecer. Inclusive, não sei por que, na hora em que vi o nome "Bergson", me lembrei de outro que foi grande nome do século XX, e que também não citei: Maurice Merleau-Ponty, com seu belíssimo tratado sobre a questão da natureza..
Há ainda Walter Benjamin, Herbert Marcuse e a enorme filosofia presente na literatura, como citas muito bem. Aliás, inclusive, acredito que a grande literatura vá além da própria filosofia, por que transita mais próxima do abismo fértil da metáfora..
Agradeço mais uma vez a referência gentil, que, sempre que vem de pessoas inteligentes e afeitas ao confronto de idéias, como o és, me deixa extremamente satisfeito com os rumos da prosa e da poética vigentes neste blog.
Grande abraço.

ubbalda disse...

oláá! mas voces esqueceram o Paul Ricoeur?. Eu acho que o melhor do seculo XX são todos eles, assim como é do sec XX todo o conhecimento desde a Grecia e os clássicos.
bjins.

fart disse...

Marcelo, prezado, é por isso que digo que Sartre tem heterônimos. E que Nietzsche às vezes "sifiliza" sobre o papel. Paul Ricoeur: Ubalda, nunca li nada.
Continuem vivendo e me evocando para estas sessões espíritas, que à medida do possível virei, pois estou curioso.
Abraços a todos.