Domingo, 13 de Julho de 2008

Ética, metáfora e argumento

Ensaio, monografia e poesia: um pouco de unidade;
e muito deslocamento


O texto escrito sempre me interessou. Desde os primeiros espantos com as possibilidades dos quadrinhos até as teses gigantescas de Hegel, Kant e Lacan, as linhas tortas da escritura não cessaram em minha vida.

De interrogação em interrogação, foi-se costurando o erro da linguagem em minha trajetória. E não deixei de visitar nada. Li muita divulgação científica, livros de biologia, saboreei com prazer o Evolução das Espécies do Charles Darwin, livros sobre a origem da vida, origem do universo, origem do homem, paleontologia, estudos sobre fósseis, datação do carbono...

Agatha Christie também me interessou nessa época. Já degustei mais da metade de sua extensa obra de 85 volumes, na companhia do brilhante e marrento detetive Hercule Poirot. Além, é claro, da adorável Miss Marple, e seu aguçado faro para os detalhes presentes na aparente simplicidade dos criminosos mais sutis.

Num segundo momento, a teoria da comunicação caiu, meio que por acaso, nas minhas mãos. Estava com 24 anos, querendo saber que faculdade um maluco como eu poderia seguir, quando uma tia me disse: "Tente comunicação. Você gosta de escrever. É ali!". Nada mais providencial. Não tanto pela área profissional em si. Mais pela discussão da comunicação, que percebi como um dado fundamental para se colocar politicamente no mundo de hoje. Então, manda ver leitura sobre o assunto. Li o Adorno, Debord, Virilio, Baudrillard...

E daí em diante passei a ler os clássicos da filosofia: Hegel, Marx, Rousseau, Foucault, Kant, Benjamin, Nietzsche, Maquiavel, Platão (este menos do que ainda quero ler..)... Sempre em busca de alguma coisa mais à esquerda, mais contrária aos dogmas, aos consensos (quase sempre medíocres), aos que reproduzem, cordeirinhos, os discursos de poder.

Fui apresentado a um pensador que me deu muito em termos de reflexão, e que, sempre que posso, releio até hoje: o francês Roland Barthes. Que me fez ver a intrínseca relação que existe entre literatura e postura política. Não essa política partidária, mas a política verdadeira, a do confronto de idéias do cotidiano.

Li alguma coisa de literatura brasileira. Menos do que gostaria. Sérgio Sant'anna, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Dalton Trevisan. Muita crônica, especialmente na época da graduação: Veríssimo, Aldir Blanc, Fausto Wolff, Fritz Utzeri, Sérgio Augusto, o Pasquim 21...

E de repente, depois de escrever muitas crônicas durante um ano inteiro, na universidade, me deparei com um tipo de texto que me deixou bastante curioso: o ensaio. Já tinha lido lingüística (Saussure e Jakobson) e Semiologia (Barthes), quando percebi que existia um tipo de texto que não pretendia a definição, e que agia como um filme que não conta o final, deixando a responsabilidade dos deslocamentos posteriores a cabo do leitor. O próprio Barthes, Baudrillard, Borges, Cioran e um brasileiro, que gostei muito: Luis Augusto Fischer.

Claro, o ensaio não é um texto inocente, longe disso. Mas as intenções são substituídas por um deslocamento constante da temática, que demanda a participação do leitor o tempo todo. É como se o leitor transitasse pela dúvida. É um passeio arenoso. E por isso fértil. Reflexivo. Não é cartilha, que Foucault já ensinou ser uma sutil malandragem do poder (malandragem essa que, neste momento, vejo ter sido percebida também por Machado de Assis).

Junto a isso, tive que preparar a minha monografia. E fiquei muito interessado também (novidade...) pelo texto científico. Era um texto que, ao inverso do ensaio, buscava proteção o tempo todo. Por um lado, divertido essa ânsia pela concordância. Por outro, interessante, porque, de certa forma, preza o valor dos argumentos. E caí dentro, lendo e produzindo artigos acadêmicos.

Enfim, li muita poesia e muita literatura desde então. Fernando Pessoa, Mario Quintana, Ferreira Gullar, Arnaldo Antunes, Baudelaire, Maiakovsky... Saramago, Balzac, Kafka.. (acabei de lembrar de três que ainda quero muito ler: Dostoiévski, Proust e Joyce)..

Mas isso tudo foi pra dizer que penso o texto como um entrelaçamento constante entre a ética formal do ensaio, o poder de deslocamento poético da metáfora e uma pitada de coerência argumentativa. Mas coerência que não anda de mãos dadas com a lógica. Muito pelo contrário. Até porque, já ía me esquecendo da psicanálise.. Freud, Lacan, Roudinesco.. e um cara chamado Magno. Que escreveu um livro muito importante, chamado O Pato Lógico. Exatamente o ser humano: um patinho, que caiu no conto do saber (do logus). Logus esse o corpo que veste toda enunciação racionalista. Objeto fundamental de toda crítica que se pretenda como tal. Que pretenda, como bem coloca o poeta Baudelaire, receber o privilégio da Antiguidade.

3 comentários:

Anônimo disse...

Bom te conhecer melhor.

Frau César disse...

Dessa vez, esse comentário é para dizer: sem comentários! rsrs ..

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Estou dando uma conferida nos comentários antigos..
Obrigado pela referência inteligente, Patrícia.
Beijão pra você.

Quanto à pessoa anônima, obrigado pela visita, apesar do anonimato.