sábado, 28 de fevereiro de 2009

O crepúsculo da crítica nos "mega-sellers"


Desconfiar das unanimidades não é apenas um exercício de ponderação intelectual. É, nos dias de hoje, quase que uma necessidade, dadas as proporções com que crescem as desproporções entre o valor crítico e o valor econômico ou financeiro - como queiram.

O 'Prosa e Verso' de hoje traz uma matéria sobre o surgimento de uma nova nomenclatura relacionada às vendas de exemplares do chamado 'mercado editorial'. Segundo Rachel Bertol, autora do texto, os "sucessos" de vendas estão alcançando patamares nunca antes imaginados, o que geraria a necessidade de criar a denominação "mega-sellers" para designar os mega-vendedores, como essa simpática mocinha da foto acima, de nome Stephenie Meyer, autora da nova febre do momento, a série de livros chamada de "Crepúsculo". Em menos de um ano, a autora já vendeu 760 mil livros no Brasil, e chegou ao número de 45 milhões de livros no mundo, desde o lançamento da série, o que, segundo Rachel, muda (!!) o perfil do setor editorial.

Como desconfio das unanimidades e também das maiorias, vou dar meu pitaco. Coincidência ou não, 99% dos livros que vendem muito são muito fracos, tanto em termos de conteúdo quanto no sentido estético. Isso por um motivo muito simples. Vivemos uma época bem esquisita. Por um lado, é bacana dizer que se discorda do sistema, é bacana malhar a tudo e a todos. Um exemplo disso reside nas últimas eleições presidenciais, quando todos os candidatos se diziam "de esquerda" ou "de oposição", no intuito de ganhar a confiança dos eleitores. Por outro lado, temos o fenômeno discursivo do eufemismo, que leva as pessoas a, no cotidiano, evitarem de forma quase que fóbica a crítica, escapando sempre dos debates com formas atenuadas de posicionamento ou mesmo com humor exagerado e inócuo.

O crítico Humberto de Campos dizia, em 1958, que "o grande mal do Brasil tem consistido, proclamam-no todos, na falta de crítica: de crítica política, de crítica científica, de crítica literária, de crítica social. A falta de crítica nas letras, nas ciências, na política, na orientação coletiva dos homens, é que determina a anulação do sentimento de responsabilidade, origem de toda a desorganização" (Crítica, Primeira Série, Prefácio, p. 6).

A crença na democracia reside na ideia de que as massas são as melhores organizadoras de seu próprio destino, através do consenso. Entretanto, o fenômeno do consenso é bem ambíguo. O filósofo Theodor Adorno já demonstrou, com seu brilhante trabalho "Indústria Cultural", que a massa não pode ser vista como referência, nem de si mesma. A crítica disso pode ser calcada também em duas ideias da psicanálise: a de "reconhecimento" e a de "resistência". O neurótico, o comum dos homens, é aquele para o qual é fundamental saber-se fazendo parte de um contexto maior, que - senão importante - lhe seja reflexo. E, para que isso aconteça em seu imaginário, ele "resiste" a qualquer ideia que lhe traga o impecilho do impasse. Por essas e outras, não sou um democrata. Não acredito nas massas.

Ainda segundo a autora do texto, Rachel Bertol, "o mega-seller dificilmente existiria sem a globalização". Globalização que "eleva" a literatura ao patamar subterrâneo dos livros de auto-ajuda e ao público juvenil como referência de criação literária... Basta uma breve passeada pelos títulos mais vendidos para perceber que não há a menor "revolução" de fato, como alardeia a jornalista. Muito pelo contrário. Os livros do tal Harry Potter venderam, no mundo todo, mais de 400 milhões de cópias nos oito anos de sua existência. O "Código da Vinci", do tal Dan Brown, vendeu mais de 80 milhões, desde 2004. O recente "Segredo" chegou a 1 milhão e meio de cópias vendidas e aquela bobeira chamada "O Monge e o Executivo", que tive o desprazer de ler para corrigir os resumos de uma aluna, atingiu 2 milhões, em 4 anos de existência.

A mídia trata essas pessoas como influentes. Cria inclusive listas dos "mais influentes", onde todos estes estão presentes. Mas, quando perguntada sobre a influência da violência dos filmes de ação na cabeça dos jovens, escapa pela tangente. O fato é que o consenso é um mito curioso, que deve ser examinado com cuidado. Junto com outro, para o qual o filósofo francês Debord já chamava a atenção nos anos 60, em seu clássico "Sociedade do Espetáculo": a segmentação de mercado. Hoje, existe segmento de tudo. Mas há um simulacro por trás disso. E esse simulacro pode ser percebido quando sacamos que os livros que mais vendem são aqueles feitos para adolescentes. No fundo, o que manda hoje em dia é a ideologia do ser-adolescente-a-todo-custo. E aí, as influências e ecos que o discurso pautado pelo mercado produz são justamente a irresponsabilidade típica dessa fase criada pelo capitalismo.

Continuo achando que a literatura deve ter como referência a reflexão crítica. Que não interessa às massas, ávidas que são por novas massagens egóicas produzidas pelo leque apaziguador dos consensos. Pode vender milhões, pode encher o bolso dessa gente de dinheiro... mas não será literatura, porque literatura não é o que vende. É o que, como coloca o José Castello em seu texto da semana passada, fura nossas seguranças e, num rasgão, expõe a fogueira na qual ardemos.

"No esforço inútil de "ser igual", ilusão nefasta das identidades", o neurótico das massas pula de best-seller em best-seller. Atrás de si mesmo, em busca de suas próprias certezas inúteis. Como lembra bem o Magno, tudo aquilo que todo mundo já entendeu muito bem acaba caindo na mediocridade (Est'ética..., p. 34). E é por isso que vivemos num mundo medíodre. A "arte-mercadoria" (com o perdão do contrasenso) não corrompe, não inunda, não decompõe nada. Apenas ressoa, como os passos em marcha do exército de clones da eterna e irresponsável juventude. Sentido!! Ordinário, leia!!

10 comentários:

CHRISTINA MONTENEGRO disse...

Caríssimo:
Você também está lincadíssimo lá.
E vou adorar ver outros comentários seus a textos meus que já estão lá há algum tempo; meu blog é - em primeiro lugar - o exercício para um livro. Acredito que tratem de assuntos que te interessam.
Temos interesses bem semelhantes; tenho a impressão apenas de que você é um tiquinho pessimista...ao contrário de mim...Será impressão? rsrsrsrs...
Li a mesma coisa que você hoje; fases, para mim... Passam.
O tempo é senhor da "razão" (ou da qualidade, que é o que FICA).
Vou continuar lendo você, acredite!
'Tô "te seguindo"... (hilário, isso...); é zilhões de vezes melhor que qualquer 'bêstaséler'...
ABRAÇÃO!

André Ricardo Marques de Souza disse...

Marcelo, eu realmente fiquei fascinado com o texto.

Ponho-me a pensar nas milhões de pessoas que compraram livros de auto-ajuda e tendenciosos à juventude tresloucada... O que lêem certamente está na vida mental deles enquanto indivíduos, como um modelo a se seguir, um auxiliar que os acompanha, um oponente de si mesmo onde o indivíduo trava um luta de "vida ou morte" na tentativa de se esquivar do novo, como bem lembra-nos Freud em "Psicologia das massas e a análise do eu".

A verdade é que se formos correlacionar o hábito de se ler e a "qualidade" do que se é lido entre os povos, certamente vamos nos deparar com a situação de que o Brasil está perdendo no hanking e não e tão e somente dada a influência da mídia, mas, um contexto onde o que falta é exatamente a crítica. Crítica que se deve fazer àqueles que são responsáveis primários, por assim dizer, pelo hábito da leitura e pelo que se lê, ou, a educação em geral no Brasil.

Contudo, e como você bem disse, estamos numa situação no mínimo de esquizotimia onde o que percebo é que não se entender como neurótico, como se pudessemos simplificar a vida, é o melhor a se fazer, ao invés de se entender como "louco" à transgredir o concenssual e deixar de ser o que vejo como "capital de giro", o homem.

Cassionei Petry disse...

Um aluno meu postou uma foto no seu Orkut com sua coleção de livros da série “Crepúsculo”. Mas nas minhas aulas de Literatura, por mais que eu indique uma diversidade de leituras, ele acha todas chatas ou nem lê. Mas se um desses livros que indico se tornar “moda”, é capaz de se interessar.

Danitza disse...

Marcelo,

Como sempre, o que escreve por aqui tem o melhor que se pode ter em crítica sobre os fatos. Aquela nossa tão falada realidade (?)
Mas, lendo o seu texto me coloquei nos vários contextos que necessito para compreender as coisas. Um deles é o fato de ser mãe de um adolescente.
Sei da necessidade da boa leitura, da verdadeira literatura. Você mesmo sabe de todas as minhas novas andanças... Mas e quando o seu filho não se atenta para isso?! Não é de ficar feliz quando ele tem em mãos um livro?! Mesmo que este seja Harry Potter?
Não seria um primeiro passo? Então, os mega-sellers, de repente não podem exercer este papel inicial?

Ps.: Todas as questões correspondem ao sinal de blackout total

Beijão, Professor!

Moça do Fio disse...

Marcelo,

Parabéns pela forma clara com a qual você discorreu sobre este tema tão atual.

Os jovens só querem ler Best-Seller. Incrível como Crepúsculo, A menina que roubava livros e Harry Potter são consumidos com avidez pelo adolescentes.

Não os vemos com Machado de Assis, José Saramago, J. G. Rosa...É como se eles necessitassem do aval de outros milhões de jovens para poderem ler alguma coisa.

Fica difícil, desse jeito.

Abraços.

Luiz Alexandre disse...

Honestamente, não vejo porque criar uma nova nomenclatura, afinal, se é algo é "Best" não tem como ter um "Ultrabest" para sobrepujá-lo.
Agora, convenhamos, ler é um processo mais dificil do que ver um filme, por exemplo, né? Tipo, sem dúvida que ver um filme do Antonioni é um processo mais árduo do que ver um filme do Spielberg, por exemplo, então imagino que seja isso que aconteça com os livros. Esse Crepúsculo deve ser muito mais fácil do que ler o Dostoyevski. Como alguém disse acima, acho que ler um best seller pode sim servir de introdução a outras literaturas, basta o sujeito estar aberto para isso, começar a ler bem mais. Uma coisa da qual finalmente me dei conta, tenho alguns amigos que lêem bem mais livros do que eu, mas percebo que algumas as leituras feitas por eles são meio que essas aí mesmo, acho que deve ter um clássico ou outro. Mas eles não me parecem saber diferenciar o valor literário de um para o outro. É mais uma vez como dizia o Nelson Rodrigues, "deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem."

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Christina: O Saramago tem uma que é ótima. Questionado sobre seu "pessimismo", disse o seguinte: "Eu não sou pessimista; o mundo é que é péssimo". Claro, se descontarmos a hipérbole da resposta, teremos algo como um par de antenas ligadas nesse poço de contradições que é o ser humano. Um resumo do que eu busco... Mas sempre feliz quando encontro as grandes obras que alguns produzem, ou a ética, essa figura meio sumida, que volta-e-meia dá as caras..

Só não entendi esse "hilário"...rs Contanto que você seja realmente a Christina Montenegro, pode seguir à vontade.. O espaço estará sempre aberto.

Finalmente, não discordo de você em relação a isso passar, como uma fase.. Mas as fases só passam quando a gente se posiciona contra elas. Penso que a guerra, hoje, está mais árdua, nesse sentido. Mas continuemos.

Abraços


André: Há realmente "uma luta de "vida ou morte" na tentativa de se esquivar do novo".. Isso é o princípio da neurose, inclusive. É um ponto de apoio importante para esse fenômeno dos mega-sellers.

E acho fundamental o que colocas em relação ao problema da crítica. Ela deve ser parte nuclear do arsenal reflexivo que o professor vai passando para os alunos, inclusive no momento primário, que é chave para a formação de bons leitores.

Abraços


Cassionei: Por coincidência, estava debatendo com os alunos hoje sobre esse problema da "moda". Você tem toda a razão.. Minha estratégia consiste no único posicionamento viável, no meu entendimento: mostrar para o aluno que, apesar de todos os frutos que, sabemos, ele pode colher com a boa literatura, ela não depende dele para existir. É uma coisa que aprendi estudando história da arte: o que menos importa, para a produção das boas obras, é a demanda da recepção. É aí que nascem as criações brilhantes da humanidade. Inclusive porque assim você desloca, ainda, a própria lógica equivocada dos best-sellers, que é a de ficar repetindo o que os leitores querem ouvir.

É um tema bem interessante, não acha?

Abração


Karla: Como sempre, você gentil, e com questões procedentes. O que você coloca muito me interessa como reflexão. Eu penso o seguinte: O problema, no caso dos mega-best-sellers, não é tanto o fato de serem livros.. Se pegarmos os índices de leitura do início do século passado, por exemplo, lia-se muito mais os clássicos do que hoje. E temos clássicos de hoje, como Saramago, por exemplo.. O principal no livro de mercado é que ele não insere a criança ou a pessoa de uma maneira geral numa estética 'literária' efetivamente falando. A estrutura simbólica do livro de massa aponta para tipos de histórias que primam pelo simplório, pela sustentação das demandas narcísicas e pelo recalcamento da capacidade crítica. Se pudéssemos resumir essa porcaria chamada "O monge e o executivo", seria algo como "Você pode tudo". Um cara como o Kafka ou o Joyce, vai te dizer: "Calma lá, meu irmão.. Cuidado com as suas pseudo-verdades...". Aí reside um problema para a pessoa 'sentir', literariamente. E na medida em que acredito no papel de formador para os adultos, é importante que as crianças leiam coisas mais complicadas, a partir dos 10, 12 anos. Não um Dostoiévki, claro.. Mas nessa idade já se pode ler um Lima Barreto ou mesmo uma Agatha Christie.. e aos pouquinhos, ele vai pulando, para um Machado, um Edgar Allan Poe, até chegar em Shakespeare e coisas mais complexas, como Kafka e Dostoiévski.. Então, não é que ele não possa ler os livros best-sellers.. Mas não acredito neles como impulso literário. Quando muito, é um passatempo. Que deve, penso eu, ser aos poucos substituído, nos termos do hábito, por coisas mais profundas. Eu acredito na profundidade, esse é o ponto. O resto, me parece ser oportunismo, e, como tal, dispensável.

Beijão pra você.


Olá, Moça do Fio. Seja bem-vinda. Essa questão do aval que colocas é bem o contexto da coisa mesmo.. E ela se insere na lógica do reconhecimento, que eu coloco no texto. "Se todos lêem, então não posso ficar sem saber disso, senão fico fora-de-moda..." O interessante é que, quando você adentra o mundo dos grandes gênios que você cita, descobre que, na verdade, a "moda" é outra.. O que esses autores nos mostram é nossa inacreditável capacidade de erro e engano - e o quanto isso nos faz humanos. Não somos a perfeição boba que transpira nos best-sellers.. Somos falíveis, caminhamos no rico abismo da metáfora, mesmo quando nos escondemos nas mais plastificadas redundâncias.. Acho que isso é fundamental, inclusive, pra contrapor mitos egóicos de hoje em dia, como isso de ficar justificando nossas maldades com a premissa de que o ser humano é mal em essência (um exemplo que me surgiu agora, dentre tantos...). O ser humano não é mal, nem é bom.. Somos circunstâncias. E devemos assumir-nos responsáveis por elas.

Realmente, é um contexto difícil, como você lembra bem.. Mas eu, particularmente, gosto de dificuldades.. Até porque, sem gostar delas, não dá pra saborear um Guimarâes Rosa, por exemplo, não é mesmo?

Obrigado pelos elogios gentis e volte sempre. Vou te linkar.

Abraços


Meu caro Luiz: Concordo contigo nessa do nome. Foi inclusive uma das coisas que pensei ao ler o texto. Ora, se a lógica é a mesma, trata-se de uma pseudo-mudança.. No fundo, tudo como d'antes...

Acho que essa relação entre os filmes e os livros depende justamente da complexidade. Mesmo que se demore muito mais para ler o Crepúsculo do que ver um filme do Godard, o processo de reflexão do segundo vai reverberar com muito mais abertura de horizontes do que o livro em questão. E isso me faz pensar que o problema é mais de estrutura simbólica. O Godard estaria no registro da poética, o que rende mais suor intelectual.

E a frase do Nelson é perfeita. Inclusive, podemos apropriá-la como uma crítica sagaz ao sem-número de comentaristas de hoje. Existem críticos que são grandes comentaristas, sem dúvida.. Mas na maioria das vezes, é preferível visitar os clássicos.. Dizem sempre muito mais.

Abração.


Obrigado a todos pelo ótimo debate, e continuemos.

criscalina disse...

Eu acho que não importa a nomeclatura, se vai ou não mudar, o importante é que este assunto seja pensado: que tipo de livro andam lendo, que qualidade de leitura? Eu mesma não suporto aquela frase "leio tudo que cai às minhas mãos, até bula de remédio". Pois eu não leio. Sobre a moda, tem uma frase ótima no livro Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito: "a moda é o subproduto do colonialismo". A venda de best-sellers então...
Mas você me mata de curiosidade falando do texto do José Castello da semana passada: não tenho assinatura d'O Globo On-line, nem acesso fácil aO Globo... tem como mandar pra mim não? :) Eu muito que queria ler.
crica.carneiro@gmail.com
Abraço,

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Oi, Criscalina. Interessante essa da moda como "subproduto do colonialismo". No nível do conteúdo, estou plenamente de acordo. Acho, para além disso, que uma estética da moda nos faria ver algo mais.. como parte inexorável do ser humano essa adesão irrefletida, num sentido paralelo ao problema da relação entre o sujeito e o discurso. Quer dizer: a moda não tem basicamente o formato dos mitos e dos rituais? Com diferenças sutis, ligadas ao narcisismo que a move e que dela decorre, claro.. mas com semelhanças estruturais que dizem bastante do que somos... Dá pra resistir, até certo ponto... e estamos nessa.

Abraços e seja bem-vinda ao Im-postura.

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Desculpa, Criscalina, esqueci de responder ao seu pedido. Eu não tenho o texto da net, porque não sou assinante da globo.com.. mas posso xerocar e te manda, se quiser. Só mandar o endereço.

Abraços