
O eufemismo da vez é a propaganda da "Oi", empresa de telefonia celular, que nos diz que é um absurdo cobrar multa dos clientes, no intuito de prendê-los a um contrato. É mais uma deslavada do mundo cara-de-pau da propaganda, que conta com a cada vez mais difundida rainha do contemporâneo, a passividade mental.
Ora, a "Oi", assim como todas as outras empresas de celular, cobraram a tal multa durante um bom tempo, até alguém, certamente ludibriado por algum exagero de uma das empresas, entrar na justiça buscando verificar a legibilidade da cobrança. Não foi, portanto, a empresa que decidiu acabar com a cobrança porque adora seus clientes... aliás, foi ela própria que passou um bom tempo cobrando a multa.. pra depois dizer: 'A Oi acabou com a multa". Mentira. A tal portabilidade é uma conquista legal e não um samaritanismo qualquer das empresas de celular.
Troféu cara-de-pau pra "Oi" e pras outras, que, com esse tipo de comercial, agem como aquele cara que fez alguma cagada e que, quando chegam os amigos piadistas, já vai sacaneando a si próprio, antes que alguém coloque uma pilha ou coisa semelhante. Malandragem das brabas... E o mais chocante: como todas são assim, como procurar uma troca que puna a malandragem? Fora o próprio retrato do ser humano contemporâneo que este tipo de caso ilustra... Malangragem, mentira, cara-durismo e impunidade... ou não é por aí?...


11 comentários:
retratos do mundo como ele é. Ou de como nós humanos nos relacionamos com qualquer alteridade. Mentindo, ludibriando, roubando até. Mas não foi sempre assim ? Mudam as circunstancias históricas mas as caracteristicas dos homens(sp) permanecem as mesmas.
Abraço.
Não concordo, dona Urtigão.. Primeiro, vale dizer que não há um "mundo como ele é". O verbo 'ser' é bem enganoso.. E entendo que a máxima hobbesiana de que "o homem é o lobo do homem" se liga especificamente à dicotomia indivíduo - grupo. E quando os contratualistas propõem o contrato social, é justamente para maximizar a possibilidade de alteridade. Alteridade que significa confrontamento com a diferença. Existem graus de civilidade, que a própria história mostra. O fato é que o incesto passou a ser um tabu e o canibalismo idem. Além disso, chegamos a uma possibilidade estética no nível de reflexão sobre o mundo e a vida. Isso tanto com os gregos quanto com os ocidentais de uma maneira geral, depois do Kant.
A lógica da propaganda não estimula a alteridade, muito pelo contrário. O que faz é superinvestir na figura do ego e no gozar-desgozar do consumismo. Não há confrontamento com a diferença aí, mas simplesmente manutenção das próprias infantilidades narcísicas do ego infantilizado do consumidor padrão.
Acho que existem formas de educar as pessoas que não sejam mediadas pelo roubo, pela mentira e afins. Claro, não é o caso de transformar as pessoas em santinhas. Mas sim de trazer um pouco de lei no nível do imaginário (Lacan), que serve pra sustentar a vida em sociedade. Porque senão, poderíamos dizer que roubar, por exemplo, faz parte da "natureza humana".. como aliás se isso, "natureza humana", existisse... Não é o caso de avaliar "as pessoas" de um modo geral, mas de avaliar certas banalidades. Antes, por exemplo, podíamos confrontar o poder de uma maneira ou de outra. Hoje, o discurso do poder passou a ser o herói da vez. As crianças dizem: "é, mas o cara se deu bem"... Pode servir de alento a quem rouba.. mas não é natureza humana. É contextual, como tudo que é humano. E deve ser, portanto, debatido, especialmente por quem atingiu níveis de conhecimento e de postura est'ética que sejam responsáveis e, sim, porque não dizer?.. elevados.
Abraço
Lá vamos nós discordando. Penso que existe sim uma natureza humana, instintiva e que necessita(?) ser domada ou por principios éticos que não são naturais, por mitos e tabus, ou por principios religiosos, que vem a ser quase a mesma coisa, ou deontologias. Pode-se ainda considerar a imposição pelo medo, de regras que se adaptem ao coletivo. E que na verdade não são bem visando o coletivo, mas ao interesse daqueles que se arrolam direitos de decidir pelos outros. O fato de ser necessario uma concepção que dite o roubo ou mentira como um mal ou erro, já implica no fato de que o roubo ou mentira fazem parte daquilo que é o homem indomado. Alem do mais roubo só existe na presença de propriedade e muitas vezes a propriedade é obtida por espoliação do outro que é tornado excluido da posse.Faz parte da natureza humana ser parte e dono da natureza. A propriedade é invenção de alguma civilização.
Abraço.
O instinto é natureza, mas não humano. O ser humano fala. Portanto, o que rege a 'humanidade', o caracter distintivo de 'ser humano', é a linguagem, não o instinto. E portanto é a cultura que rege essas coisas. Não a natureza.
Acho que há imposições visando o coletivo sim. A lei jurídica por exemplo. Se ela é corrompida no processo, são outros quinhentos. Mas por princípio, ela mantém imposições que são importantes. Se o assassino não tiver medo de ser preso, vai matar sem preocupação.
A concepção do roubo como algo errado não é "necessária", mas cultural. Ela acontece enquanto código. Nesse ponto, sou Lacan: "necessário" mesmo começa na boca e termina na excreção...
Agora, duas questões interessantes:
Primeira: "Alem do mais roubo só existe na presença de propriedade e muitas vezes a propriedade é obtida por espoliação do outro que é tornado excluido da posse". Propriedade é um conceito bastante relativo. Existe propriedade intelectual, propriedade moral, enfim.. se trata não só de uma questão jurídica, mas moral também. Afinal, como colocado acima, somos humanos, até que se prove o contrário. Mas não entendi essa questão do "outro tornado excluído da posse"... seria o tal "ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão"? Se for, discordo frontalmente dessa máxima. Ladrão que rouba ladrão é ladrão também. Esse é o registro possível no âmbito da coletividade.
Quanto a "fazer parte da natureza humana ser parte e dono da natureza", fiz um texto sobre algo parecido outro dia, comentando um livro de uma aluna. Essa de "dono da natureza" cai num problema semântico insolúvel. O fato é que se o ser humano acabar, o planeta vai continuar, de um jeito ou de outro. Isso é superestimar demais o ser humano, que tá muito mais pra vítima de si mesmo do que pra dono de alguma coisa...
E quanto à propriedade ser "invenção de alguma civilização", isso é fato, concordo. Mas não esqueça dos níveis de civilização, dona Urtigão... Afinal, roubar o que é dos outros é feio.. mesmo que a propaganda nos faça acreditar no contrário...
Abraço
Como sempre, eu que não sou escritora nem professora e naõ fui treinada corretamante na argumentação, não me fiz entender.
Instinto é parte tambem do humano. O fato de falar não exclui outras caracateristicas biológicas. Pode-se chamar de outros nomes, mas reflexos de autopreservaçaõ entre outros responde a sequencias eletrobioquimicas identicas a de outros animais.
a fala só nos distingue na ignorancia das formas de comunicação e linguagem( SIM) de outras formas animais.
A cultura é algo a mais que constitui a humanidade
pelas possibilidades de transformação do grupo e do ambiente.
Quanto ao medo das leis jurídicas parece que não é bem assim, pois eu´, por exemplo acho erro pelo erro matar, roubar (Moral ou ética incutida pela familia/cultura?) mas que rouba ou mata o faz independente da ameaça da prisão e volta a fazer ao sair da prisão.
Quanto a ser dono da natureza, equiparei este sentimento humano a pretensao de roubar,etc. Eu não acho e ja discutimos isso em outro lugar, que o homem tenha esses direitos apenas que erra ao pensar que tem
Quanto a posse, só existe o roubo por existir propriedade. Se houvesse uso responsável dos bens, não haveria roubo. Foi isso que quis dizer.
Quanto a Lacan, segundo Alan Sokal, ele cometeu diversas imposturas ao se apropriar de conceitos de outras áreas e que utilizou de forma errõnea para embasar algumas de suas teorias.
E quanto a leitura que voce fez de mim me parece bastante preconceituosa, pois sabendo que toda linguagem pode ter interpretações, sempre voce faz a pior leitura daquilo que tento apresentar. Sera que é porque me atrevo a discordar?
Abraço.
É verdade, há que pensar quando nos deparamos com "publicidade" desse género. Bijou
Dona Urtigão, o fato é que ainda não ouvi um animal falar... O dia que eu ouvir, mudo de opinião. Por enquanto, a fala distingue sim o homem dos outros animais. E a fala não diz respeito a sequências eletrobioquímicas ou a qualquer outro suporte biológico. É um problema de sentido. O sentido é linguístico, não biológico.
Quanto ao tal Alan Sokal, cai na mesma esparrela do Paulo Coelho. O barato dele é fazer cena de "tradutor das massas". As críticas dele ao pensamento francês são muito fracas, especialmente porque considera a ciência um conhecimento verdadeiro e justificado por si mesmo. Desconsidera história, ideologia e outros temas fundamentais.
Quanto a esse tema de natureza e cultura, não tem jeito: vamos discordar.
Agora, quanto a esse trecho: "Se houvesse uso responsável dos bens, não haveria roubo. Foi isso que quis dizer".... Essa foi demais. Reveladora, inclusive, "Dona Urtigão".. Primeiro, porque é contraditório ao que você mesma coloca nos termos das tendências humanas. E segundo.. bom.. segundo porque é injustificável, dentre outras sutilezas mais...
Não acho que precise me manifestar mais. As coisas estão bem claras, se é que me entende... (é por isso, dentre outras coisas, que o tal do Sokal está errado.. a linguagem é um jogo.. e cede pistas, quase sempre... basta ser um bom investigador. E ler Platão e Lacan, ao invés dos físicos)
Oi, Mikas.
Pois é. Acho sempre importante debater essas questões, por que se trata de uma questão de ética, não concorda? Isso mexe com quem dá valor a coisas como palavra e honestidade.
Beijão pra você
Olá, Marcelo. O que vc acha da jornalista Nadja Haddad. Fiquei sabendo que ela estudou contigo na faculdade. Abração!
Oi, Lisandro. Olha, fica difícil opinar, por dois motivos: primeiro, porque ela não é uma 'autora' dentro do jornalismo. O trabalho dela é o de apresentadora e não dá pra saber se é ela que prepara os textos ou se é outra pessoa. E segundo, porque vejo muito pouca televisão, o que faz com que eu quase não tenha 'contato' com o trabalho dela. O trabalho da televisão me parece muito 'forçado', muito pouco aberto à espontaneidade (o que permitiria uma 'escuta' mais reflexiva). E acho, inclusive, que não dá nem pra julgar o apresentador como 'jornalista'.. não sei, mas acho um trabalho mais próximo ao do ator de novela, visto que é o enquadramento e as feições que mais importam.
Tínhamos algumas divergências ideológicas na época da faculdade, especialmente quanto às revistas de fofoca (ela a favor, eu contra), mas, claro, isso não impede que eu deseje que ela tenha êxito na vida, se suas atitudes forem sempre pautadas pela ética.
É isso. Espero ter respondido suas perguntas.
Abração
Ah, sim, Lisandro, só por curiosidade, pode dizer quem te informou sobre isso (de repente pode ser um conhecido meu também, quem sabe)?
Abraços
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