
Desconfiar das unanimidades não é apenas um exercício de ponderação intelectual. É, nos dias de hoje, quase que uma necessidade, dadas as proporções com que crescem as desproporções entre o valor crítico e o valor econômico ou financeiro - como queiram.
O 'Prosa e Verso' de hoje traz uma matéria sobre o surgimento de uma nova nomenclatura relacionada às vendas de exemplares do chamado 'mercado editorial'. Segundo Rachel Bertol, autora do texto, os "sucessos" de vendas estão alcançando patamares nunca antes imaginados, o que geraria a necessidade de criar a denominação "mega-sellers" para designar os mega-vendedores, como essa simpática mocinha da foto acima, de nome Stephenie Meyer, autora da nova febre do momento, a série de livros chamada de "Crepúsculo". Em menos de um ano, a autora já vendeu 760 mil livros no Brasil, e chegou ao número de 45 milhões de livros no mundo, desde o lançamento da série, o que, segundo Rachel, muda (!!) o perfil do setor editorial.
Como desconfio das unanimidades e também das maiorias, vou dar meu pitaco. Coincidência ou não, 99% dos livros que vendem muito são muito fracos, tanto em termos de conteúdo quanto no sentido estético. Isso por um motivo muito simples. Vivemos uma época bem esquisita. Por um lado, é bacana dizer que se discorda do sistema, é bacana malhar a tudo e a todos. Um exemplo disso reside nas últimas eleições presidenciais, quando todos os candidatos se diziam "de esquerda" ou "de oposição", no intuito de ganhar a confiança dos eleitores. Por outro lado, temos o fenômeno discursivo do eufemismo, que leva as pessoas a, no cotidiano, evitarem de forma quase que fóbica a crítica, escapando sempre dos debates com formas atenuadas de posicionamento ou mesmo com humor exagerado e inócuo.
O crítico Humberto de Campos dizia, em 1958, que "o grande mal do Brasil tem consistido, proclamam-no todos, na falta de crítica: de crítica política, de crítica científica, de crítica literária, de crítica social. A falta de crítica nas letras, nas ciências, na política, na orientação coletiva dos homens, é que determina a anulação do sentimento de responsabilidade, origem de toda a desorganização" (Crítica, Primeira Série, Prefácio, p. 6).
A crença na democracia reside na ideia de que as massas são as melhores organizadoras de seu próprio destino, através do consenso. Entretanto, o fenômeno do consenso é bem ambíguo. O filósofo Theodor Adorno já demonstrou, com seu brilhante trabalho "Indústria Cultural", que a massa não pode ser vista como referência, nem de si mesma. A crítica disso pode ser calcada também em duas ideias da psicanálise: a de "reconhecimento" e a de "resistência". O neurótico, o comum dos homens, é aquele para o qual é fundamental saber-se fazendo parte de um contexto maior, que - senão importante - lhe seja reflexo. E, para que isso aconteça em seu imaginário, ele "resiste" a qualquer ideia que lhe traga o impecilho do impasse. Por essas e outras, não sou um democrata. Não acredito nas massas.
Ainda segundo a autora do texto, Rachel Bertol, "o mega-seller dificilmente existiria sem a globalização". Globalização que "eleva" a literatura ao patamar subterrâneo dos livros de auto-ajuda e ao público juvenil como referência de criação literária... Basta uma breve passeada pelos títulos mais vendidos para perceber que não há a menor "revolução" de fato, como alardeia a jornalista. Muito pelo contrário. Os livros do tal Harry Potter venderam, no mundo todo, mais de 400 milhões de cópias nos oito anos de sua existência. O "Código da Vinci", do tal Dan Brown, vendeu mais de 80 milhões, desde 2004. O recente "Segredo" chegou a 1 milhão e meio de cópias vendidas e aquela bobeira chamada "O Monge e o Executivo", que tive o desprazer de ler para corrigir os resumos de uma aluna, atingiu 2 milhões, em 4 anos de existência.
A mídia trata essas pessoas como influentes. Cria inclusive listas dos "mais influentes", onde todos estes estão presentes. Mas, quando perguntada sobre a influência da violência dos filmes de ação na cabeça dos jovens, escapa pela tangente. O fato é que o consenso é um mito curioso, que deve ser examinado com cuidado. Junto com outro, para o qual o filósofo francês Debord já chamava a atenção nos anos 60, em seu clássico "Sociedade do Espetáculo": a segmentação de mercado. Hoje, existe segmento de tudo. Mas há um simulacro por trás disso. E esse simulacro pode ser percebido quando sacamos que os livros que mais vendem são aqueles feitos para adolescentes. No fundo, o que manda hoje em dia é a ideologia do ser-adolescente-a-todo-custo. E aí, as influências e ecos que o discurso pautado pelo mercado produz são justamente a irresponsabilidade típica dessa fase criada pelo capitalismo.
Continuo achando que a literatura deve ter como referência a reflexão crítica. Que não interessa às massas, ávidas que são por novas massagens egóicas produzidas pelo leque apaziguador dos consensos. Pode vender milhões, pode encher o bolso dessa gente de dinheiro... mas não será literatura, porque literatura não é o que vende. É o que, como coloca o José Castello em seu texto da semana passada, fura nossas seguranças e, num rasgão, expõe a fogueira na qual ardemos.
"No esforço inútil de "ser igual", ilusão nefasta das identidades", o neurótico das massas pula de best-seller em best-seller. Atrás de si mesmo, em busca de suas próprias certezas inúteis. Como lembra bem o Magno, tudo aquilo que todo mundo já entendeu muito bem acaba caindo na mediocridade (Est'ética..., p. 34). E é por isso que vivemos num mundo medíodre. A "arte-mercadoria" (com o perdão do contrasenso) não corrompe, não inunda, não decompõe nada. Apenas ressoa, como os passos em marcha do exército de clones da eterna e irresponsável juventude. Sentido!! Ordinário, leia!!














