sábado, 28 de fevereiro de 2009

O crepúsculo da crítica nos "mega-sellers"


Desconfiar das unanimidades não é apenas um exercício de ponderação intelectual. É, nos dias de hoje, quase que uma necessidade, dadas as proporções com que crescem as desproporções entre o valor crítico e o valor econômico ou financeiro - como queiram.

O 'Prosa e Verso' de hoje traz uma matéria sobre o surgimento de uma nova nomenclatura relacionada às vendas de exemplares do chamado 'mercado editorial'. Segundo Rachel Bertol, autora do texto, os "sucessos" de vendas estão alcançando patamares nunca antes imaginados, o que geraria a necessidade de criar a denominação "mega-sellers" para designar os mega-vendedores, como essa simpática mocinha da foto acima, de nome Stephenie Meyer, autora da nova febre do momento, a série de livros chamada de "Crepúsculo". Em menos de um ano, a autora já vendeu 760 mil livros no Brasil, e chegou ao número de 45 milhões de livros no mundo, desde o lançamento da série, o que, segundo Rachel, muda (!!) o perfil do setor editorial.

Como desconfio das unanimidades e também das maiorias, vou dar meu pitaco. Coincidência ou não, 99% dos livros que vendem muito são muito fracos, tanto em termos de conteúdo quanto no sentido estético. Isso por um motivo muito simples. Vivemos uma época bem esquisita. Por um lado, é bacana dizer que se discorda do sistema, é bacana malhar a tudo e a todos. Um exemplo disso reside nas últimas eleições presidenciais, quando todos os candidatos se diziam "de esquerda" ou "de oposição", no intuito de ganhar a confiança dos eleitores. Por outro lado, temos o fenômeno discursivo do eufemismo, que leva as pessoas a, no cotidiano, evitarem de forma quase que fóbica a crítica, escapando sempre dos debates com formas atenuadas de posicionamento ou mesmo com humor exagerado e inócuo.

O crítico Humberto de Campos dizia, em 1958, que "o grande mal do Brasil tem consistido, proclamam-no todos, na falta de crítica: de crítica política, de crítica científica, de crítica literária, de crítica social. A falta de crítica nas letras, nas ciências, na política, na orientação coletiva dos homens, é que determina a anulação do sentimento de responsabilidade, origem de toda a desorganização" (Crítica, Primeira Série, Prefácio, p. 6).

A crença na democracia reside na ideia de que as massas são as melhores organizadoras de seu próprio destino, através do consenso. Entretanto, o fenômeno do consenso é bem ambíguo. O filósofo Theodor Adorno já demonstrou, com seu brilhante trabalho "Indústria Cultural", que a massa não pode ser vista como referência, nem de si mesma. A crítica disso pode ser calcada também em duas ideias da psicanálise: a de "reconhecimento" e a de "resistência". O neurótico, o comum dos homens, é aquele para o qual é fundamental saber-se fazendo parte de um contexto maior, que - senão importante - lhe seja reflexo. E, para que isso aconteça em seu imaginário, ele "resiste" a qualquer ideia que lhe traga o impecilho do impasse. Por essas e outras, não sou um democrata. Não acredito nas massas.

Ainda segundo a autora do texto, Rachel Bertol, "o mega-seller dificilmente existiria sem a globalização". Globalização que "eleva" a literatura ao patamar subterrâneo dos livros de auto-ajuda e ao público juvenil como referência de criação literária... Basta uma breve passeada pelos títulos mais vendidos para perceber que não há a menor "revolução" de fato, como alardeia a jornalista. Muito pelo contrário. Os livros do tal Harry Potter venderam, no mundo todo, mais de 400 milhões de cópias nos oito anos de sua existência. O "Código da Vinci", do tal Dan Brown, vendeu mais de 80 milhões, desde 2004. O recente "Segredo" chegou a 1 milhão e meio de cópias vendidas e aquela bobeira chamada "O Monge e o Executivo", que tive o desprazer de ler para corrigir os resumos de uma aluna, atingiu 2 milhões, em 4 anos de existência.

A mídia trata essas pessoas como influentes. Cria inclusive listas dos "mais influentes", onde todos estes estão presentes. Mas, quando perguntada sobre a influência da violência dos filmes de ação na cabeça dos jovens, escapa pela tangente. O fato é que o consenso é um mito curioso, que deve ser examinado com cuidado. Junto com outro, para o qual o filósofo francês Debord já chamava a atenção nos anos 60, em seu clássico "Sociedade do Espetáculo": a segmentação de mercado. Hoje, existe segmento de tudo. Mas há um simulacro por trás disso. E esse simulacro pode ser percebido quando sacamos que os livros que mais vendem são aqueles feitos para adolescentes. No fundo, o que manda hoje em dia é a ideologia do ser-adolescente-a-todo-custo. E aí, as influências e ecos que o discurso pautado pelo mercado produz são justamente a irresponsabilidade típica dessa fase criada pelo capitalismo.

Continuo achando que a literatura deve ter como referência a reflexão crítica. Que não interessa às massas, ávidas que são por novas massagens egóicas produzidas pelo leque apaziguador dos consensos. Pode vender milhões, pode encher o bolso dessa gente de dinheiro... mas não será literatura, porque literatura não é o que vende. É o que, como coloca o José Castello em seu texto da semana passada, fura nossas seguranças e, num rasgão, expõe a fogueira na qual ardemos.

"No esforço inútil de "ser igual", ilusão nefasta das identidades", o neurótico das massas pula de best-seller em best-seller. Atrás de si mesmo, em busca de suas próprias certezas inúteis. Como lembra bem o Magno, tudo aquilo que todo mundo já entendeu muito bem acaba caindo na mediocridade (Est'ética..., p. 34). E é por isso que vivemos num mundo medíodre. A "arte-mercadoria" (com o perdão do contrasenso) não corrompe, não inunda, não decompõe nada. Apenas ressoa, como os passos em marcha do exército de clones da eterna e irresponsável juventude. Sentido!! Ordinário, leia!!

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Algumas pequenas im-posturas...


Alguns fragmentos. Argumentos. Faça alguma coisa com eles. São pequenas reflexões que vão construindo o asfalto movediço da minha estrada pó-ética.


"O acontecimento observa, pelo retrovisor, as paralelas angustiadas de nossa contemplação falatória".
(Marcelo Henrique Marques de Souza)

"A tradição literária tem a estrutura de um sonho no qual se recebem as lembranças de um poeta morto".
(Ricardo Piglia)

"A linguagem é algo de fulgurante que pode assumir uma outra dimensão, encontrar uma forma transversal".
(Jean Baudrillard)

"O ser do sujeito [é] aquele que está ali sob o sentido".
(Jacques Lacan)

"A economia ocupa o lugar que, na Idade Média, tinha a teologia".
(Luiz Costa Lima)

"Sobre o corpo, o sabor da onda, o gosto do sal e a carne a sorver a limpidez do efêmero".
(Wassily Chuck)

"Sou o limite de minhas ilusões perdidas".
(Gaston Bachelard)

Bergman


Assisti, ontem, ao belo filme "O Sétimo Selo", do Ingmar Bergman, considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos. Ele monta um enredo medieval, para ponderar temas universais, como as questões da morte e da relação entre a religião e a vida.

O filme conta a história de um cavaleiro que retorna das Cruzadas e se depara com seu país entregue à peste e à caça às bruxas. O filme é de 1956 e, segundo li, a temática do medo do extermínio da espécie humana estava em voga na época por conta do início da Guerra Fria na Europa (que trazia a coisa das bombas atômicas e temas afins).

Ao começar seus questionamentos sobre os problemas que presenciava, o cavaleiro encontra a morte. Envolvido em suas dúvidas, ele desafia a dita cuja para uma partida de xadrez, para ganhar tempo em suas reflexões. Nesse meio tempo, alguns personagens especiais são articulados ao cavaleiro. Não à toa um deles é um artista. E ele tem um simbolismo fundamental na trama, no meu entendimento. Reflete a visão do próprio Bergman sobre o que a arte representa para o ser humano.

Além de tudo isso, o filme tem o mérito de ser produto de uma rigorosa pesquisa histórica, que reproduz muito bem a atmosfera medieval. E tem diálogos muito inteligentes, o que sempre me agrada, particularmente. Quem ainda não viu, veja, porque vale a pena. É uma belíssima obra de arte, sem dúvida.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Breve recesso

Começo dos trabalhos, início do carnaval e uma febre fora dos planos. Junte essas três coisas e você tem um pequeno recesso no Im-postura. Breve voltarei com novos textos, ainda nesta semana que vem.

Abraços e beijos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

'Oi', sou o garoto-propaganda, o Pinóquio.. prazer!


O eufemismo da vez é a propaganda da "Oi", empresa de telefonia celular, que nos diz que é um absurdo cobrar multa dos clientes, no intuito de prendê-los a um contrato. É mais uma deslavada do mundo cara-de-pau da propaganda, que conta com a cada vez mais difundida rainha do contemporâneo, a passividade mental.

Ora, a "Oi", assim como todas as outras empresas de celular, cobraram a tal multa durante um bom tempo, até alguém, certamente ludibriado por algum exagero de uma das empresas, entrar na justiça buscando verificar a legibilidade da cobrança. Não foi, portanto, a empresa que decidiu acabar com a cobrança porque adora seus clientes... aliás, foi ela própria que passou um bom tempo cobrando a multa.. pra depois dizer: 'A Oi acabou com a multa". Mentira. A tal portabilidade é uma conquista legal e não um samaritanismo qualquer das empresas de celular.

Troféu cara-de-pau pra "Oi" e pras outras, que, com esse tipo de comercial, agem como aquele cara que fez alguma cagada e que, quando chegam os amigos piadistas, já vai sacaneando a si próprio, antes que alguém coloque uma pilha ou coisa semelhante. Malandragem das brabas... E o mais chocante: como todas são assim, como procurar uma troca que puna a malandragem? Fora o próprio retrato do ser humano contemporâneo que este tipo de caso ilustra... Malangragem, mentira, cara-durismo e impunidade... ou não é por aí?...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O narcisismo e a literatura


Em seu texto de ontem no "Prosa e Verso", José Castello comenta o livro "Pudim de Albertina", da escritora estreante Natália Nami.

A base da reflexão do autor, neste texto, é essa experiência de tentar excluir as doutrinações, tanto na leitura, quanto na escrita. Lembrando que somos sempre lidos pelos livros que aparentemente 'apenas lemos' - o que me recorda de um belo ensaio que li, chamado "A Troca Impossível", do Jean Baudrillard" -, Castello reflete alguns contos e enredos da escritora iniciante.

Um deles me chamou a atenção em especial, porque coincidentemente tem relação com um comentário que fiz outro dia num texto do blog do Ricardo, o 'Todo Prosa'. O conto, segundo reflete Castello, nos traz a história de uma professora do ensino primário que vai à festa de uma aluna rica. A aluna, "filha dos cartões de crédito e dos computadores", é a típica criança mimada e egocêntrica, que não experimenta, em seu dia-a-dia, o impasse e as benesses da perda, rio no qual navegamos nossas sombras, mesmo e apesar dos espelhos enganosos que surgem pelo caminho. O egocentrismo da criança chega ao nível de seu descontentamento por ter pedido de aniversário um cão dourado importado da Turquia, sem sucesso, visto que o animal a chegar tem a cor branca.

O comentário que fiz no blog do Ricardo tem relação direta com o escritor (?) Paulo Coelho. É o que reproduzo aqui:

"A questão com o Paulo Coelho me parece bem simples. Sou professor de literatura e escritor e acho que posso dar um pitaco. O problema é justamente que ele escreve o que as pessoas querem ler. Literatura é algo que suplanta, de longe, a figura do leitor. Esse papo de que sucesso de vendas é referência é papo de marqueteiro. O livro tem que colocar o leitor num impasse, como fazia o Machado, como fazia o Guimarães Rosa.. Isso é literatura. E não fui eu que inventei isso, basta estudar a história da coisa.

Os livros do Paulo Coelho sustentam as infantilidades narcísicas dos leitores.. Vende horrores, justamente por isso, mais um ou outro acaso de mercado, como se vê aos montes. É uma figura simpática e tal.. mas não escreve bem.

Abraços"


Quando penso nessa questão das infantilidades narcísicas, me vem à cabeça que a educação contemporânea se pauta por um superinvestimento no ego das crianças, que acaba por gerar um número cada vez maior de personagens desse tipo: crianças que, como coloca bem o Castello, pensam o mundo como uma "reprodução automática de seus desejos". E adultos que pensam exatamente como crianças, porque presos aos calabouços de suas formações egóicas originais.

Nesse ponto, sou Freud desde pequenininho: Sem o Mal-Estar, não há civilização. E sem figura paterna, não há Mal-Estar. No mundo de hoje, homossexualizado ao extremo pelos eufemismos e posturas 'politicamente corretas' (com o perdão do contradito) da vez, o que temos é um bando de egos que só brigam quando o problema é o em-si-de-si.

A troca é realmente impossível, como coloca o Baudrillard. E justamente por isso o navegar do humano é sempre pelo mar do impasse, da desconstrução constante, da desilusão inevitável e do choque frequente e rico (porque angustiante) com a diferença.

José Castello usa uma palavra que me parece fundamental: "extemporâneo". O inesperado, repentino, súbito. O impensado sempre ultrapassa, irônico, as grades do mais protegido dos egos. E estamos numa época onde a violência ganhou ares cotidianos justamente por isso. Não se pode ganhar sempre. Mas vai dizer isso ao reflexo aflito do bebê chorão contemporâneo...

E é isso que vem prontinho nos livros do Paulo Coelho. Um espelho para o leitor maquiar-se em suas reproduções auto-positivistas. Não há negação de nada nos enredos do "mago". Que enclausurou-se no seu próprio e distorcido sucesso. E é por isso que ele fica por aí, pelas entrevistas da vida, chorando um reconhecimento que jamais vai ter, porque escolheu o caminho do cão dourado, o caminho da pompa e da sofística de mercado. Literatura mesmo.. só se escrevesse um cachorro branco, presente de turco, espelho quebrado, para o leitor dialogar com seus próprios fragmentos.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Concreto ou Abstrato?..

Rene Magritte
"O Terapeuta"
1941


Uma das questões que costumo abordar com os alunos, especialmente em filosofia, é a relação entre as palavras "concreto" e "abstrato". Concreto não é uma palavra? Ora, então.. concreto é, na verdade, algo abstrato. Essa palavra, abstrato, é bem curiosa. E nos permite diversas reflexões.

Uma consulta atenta ao dicionário de sinônimos é um bom começo. A palavra abstrair significa tanto "desprezar" quanto "concentrar-se". São opostos. Essa é uma daquelas palavras que denunciam a confusão da neurose. A ilusão de duplicidade de que fala o Clement Rosset.

Fernando Pessoa tem um trecho que ficou gravado na minha cabeça. Ele diz: "É preciso destruir o propósito de todas as pontes e vestir de alheamento as paisagens de todas as terras". Entendo a tal ponte como essa fiXão (com X mesmo, ironia do Magno, autor que estou lendo agora) do ser humano por um sentido fiXo que lhe assegure alguma certeza que possa repetir sem medo. Ora, daí a sagacidade do termo: fiXão que é sempre fiCÇão, visto que vigoramos no alheamento. Esse é o X (!) da questão.

Portanto, sem discordar do Pessoa, mas já radicalizando sua proposta, diria que toda paisagem que contemplamos é essa reticência de alheamento. O alheamento é esse labirinto no qual entramos, quando falessemos ('falamos e somos', 'falar e ser' no dizer lacaniano). É como diz o mesmo Pessoa, em mais uma de suas geniais: "O rio corre, bem ou mal, sem edição original".

Nesse sentido, essa coisa de "concretude" é um mito sólido, porém falível. O concreto seria isso que chamam de "palpável".. mas o palpável escorre pelas mãos da fiXão, quando uma peRDa pesa mais que uma peDRa, por exemplo. Aliás, o próprio Einstein já nos legou que esse papo de toque é uma interessante ilusão. Que na realidade o que ocorre é um fenômeno de repulsa. Os objetos nunca se encostam de fato... Reflexão que mesmo os newtonianos mais cabeças-duras têm que assumir...

Concreto... de concreto mesmo, temos o abstrato. O alheamento. E essa infinitude de olhares. Mas tome cuidado: um deles pode sempre te capturar, para o bem ou para o mal. Nada que defina o jogo, é claro. Nada que você não possa... abstrair.

Algumas reflexões literárias...


Estou lendo, empolgado, o livro de pensamentos sobre literatura do crítico e escritor argentino Ricardo Piglia (foto). Chama-se "Formas Breves" e tem coisas bem interessantes ali. Algumas que valem ser citadas, para o bem ou para o mal:

No primeiro capítulo, onde reflete a literatura argentina, especialmente a figura do escritor Macedonio Fernandes, Piglia cita várias vezes um tal de Renzi. Numa rápida pesquisa, descobri que se trata de seu alter-ego, um personagem que o escritor criou usando seus nomes menos famosos. Seu nome completo é Ricardo Emílio Piglia Renzi. Emílio Renzi é, portanto, o citado alter-ego. E numa das vezes em que cita o personagem, este diz, sobre o tema das relações entre o pensamento e a literatura: "(...) O pensar, diria Macedonio, é algo que se pode narrar como se narra uma viagem ou uma história de amor, mas não do mesmo modo. Parece-lhe possível que num romance se expressem pensamentos tão difíceis e de forma tão abstrata quanto numa obra filosófica, mas com a condição de que pareçam falsos. Essa ilusão da falsidade", diz Renzi, "é a própria literatura" (p. 25).

Esse final achei de uma sagacidade magistral. Colocar a literatura como uma ilusão de falsidade é uma ironia deliciosa e um dar de ombros sutil aos realismos bestas de plantão. É disso que se trata a literatura: de uma ilusão desdobrada, posta de frente para o espelho, num xeque-mate que traz o sujeito para uma partida que só se reinicia sem a presença do rei. A literatura é a nudez da linguagem.

Na página 18, ele cita Macedonio, que teria escrito o seguinte: "Os velhos são perigosos: completamente indiferentes ao futuro". Minha nota a este trecho: "Gosto de ouvir o perigo falar..."

Na mesma página, num trecho simples, o mesmo Macedonio nos alerta, citado, para que evitemos o contágio nesta sociedade que agoniza corroída pela avidez do dinheiro e das honrarias... Essa nota não vem datada, mas certamente é do início do século passado. Se vivo estivesse, Macedonio questionar-se-ia sobre sua poderosa capacidade oracular e, além disso, veria que hoje nem podemos mais falar nas honrarias.. já foram corroídas faz tempo...

E a leitura continua...

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Temeridades...


Domingo agora assisti um pedaço da entrevista do Michel Temer ao "Canal Livre", da Bandeirantes (esse papo de "band" é viadagem de marqueteiro...). Ouvi duas ou três besteiras, suficientes pra deixar a TV desligada por mais um bom tempo. Mas uma delas me fez pensar.

Temer (que por uma ironia do destino tem o sobrenome do político mais inteligente do país, na minha visão, o Milton Temer, do PSol. Já vi, inclusive, o Milton esclarecer, na TV, que não tem nenhum parentesco com o salafrário do PMDB) comentava uma pergunta de um dos jornalistas, não me lembro qual, sobre a cláusula de barreiras, manobra ditatorial dos grandes partidos, que foi engavetada pelo Supremo. Para quem não sabe, trata-se da visão de alguns de que existem partidos pequenos que agem como se alugassem seu espaço institucional, no sentido de barganhar vantagens eleitoreiras e até financeiras, por conta de votações de medidas e acordos entre parlamentares.

Alguns detalhes, para além do que disse o Temer, precisam ser considerados. Por um lado, há uma certa razão no que essa corrente diz. Se pegarmos, por exemplo, a quantidade de nomenclaturas cristãs da política partidária, só aí já eliminaríamos uns 5 ou até mais partidos. Bastaria fundi-los num grupo só, e ninguém sentiria diferença ideológica.

Entretanto, a cláusula de barreiras afetaria alguns partidos pequenos que têm ideologia diferente dos demais, e que são responsáveis por várias brigas pelo interesse público, no Congresso. O PSol, por exemplo, seria prejudicado, mesmo com atuação clara contrária aos interesses do grande capital, portanto de PSDB e PT.

Outra questão é bem sutil, e foi colocada na pergunta seguinte ao Temer, que saiu pela tangente e não respondeu. O partido dele, o PMDB, é o maior partido de aluguel do país. Não tem ideologia efetiva e definida. Tá sempre cheirando o rabinho do poder, em busca de cargos e dos holofotes dos baba-ovos da mídia. Portanto, é uma tremenda cara-de-pau que o tema venha pleiteado por um partido desses. Basta ver a foto acima: o que o Temer tem em comum com Menininha e Menininho, ambos de seu partido, além da cara-de-pau? Absolutamente nada...

A verdade é que o barato é transformar o Brasil num país como os Estados Unidos, que só têm dois partidos, que pensam muito parecido. Como PT e PSDB, que quase não possuem diferenças fundamentais. Ambos não têm projeto para educação, para saúde, para habitação... só pensam em rezar as cartilhas de seu guru, Adam Smith, que inventou a bazófia de que o capitalismo retrata o que é uma sociedade humana, e todo mundo acreditou... E não venham me dizer que o Lula é marxista... deixa o defunto do homem quieto lá..

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Livros de janeiro

Vermeer, "O Ateliê" ou "A Arte da Pintura", 1665 - 1667


Em janeiro, deu pra ler bastante:

Terminei de ler o livro do Clemént Rosset, O Real e seu duplo - ensaio sobre a ilusão. O duplo seria essa ilusão cuja função é proteger do real, cuja estrutura se dá como tentativa de desdobramento do real e cujo fracasso se mostra no "reconhecer tarde demais no duplo protetor o próprio real do qual se pensava estar protegido" (p. 119). Um belo livro do filósofo francês, que nos incita a exorcizar nossos duplos, no exercício de uma experiência limite que coloque em xeque os fantasmas correspondentes a nossas ilusões. Exemplo que ele cita é o quadro "O Ateliê", também conhecido como "A Arte da Pintura", do pintor holandês Vermeer, reproduzido acima. Diz Rosset que, "renunciar a pintar-se de frente equivale a renunciar a se ver, quer dizer, renunciar à ideia de que o eu possa ser percebido numa réplica que permite ao sujeito apreender-se a si mesmo" (p. 107). Por fora da ilusão, Vermeer teria pintado sua ausência, num exercício de indiferença que lhe pos em encontro com o real. O livro vale muito a pena.

Li também os Escritos sobre Literatura do Goethe, onde ele reflete a importância de Shakespeare para a história da humanidade, para a poesia e para o teatro, além de pensat questões mais gerais a respeito da própria poesia, como já coloquei em outro texto, do mês passado. Outro que é uma grande indicação.

Outra leitura superagradável foi o livro do Aldir Blanc, Guimbas, que li rápido, em dois dias, deliciando-me com as porradas do Aldir na passividade contemporânea, especialmente na figura retórica do "politicamente correto". E já que estamos perto do carnaval, vale postar uma boa dele, na lata: "O carnaval foi uma festa do povo. Hoje é um desfile de putas, ou quase isso, ou pouco mais que isso, que se acham celebridades; conduzido e organizado por viados, que se julgam artistas geniais; todo mundo financiado por um pessoal que vive entrando e saindo da cadeia. Mas, como diz a modinha, 'a saudade mata a gente' " (p. 52). Estás coberto de razão, mestre.

E por fim, li o Apologia de Sócrates, livro onde Platão descreve o monólogo do grande filósofo e seu mestre, onde este se defende das acusações de corromper a juventude ateniense. Aula fundamental de ética esta obra.

Ate o mês que vem.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Os dez mais do século XX


Fiz uma lista dos dez maiores nomes do século XX, na minha opinião. Parece fácil.. mas muita gente boa ficou de fora, como James Joyce, Michel Foucault, Jean-Luc Godard e a escritora Agatha Christie, dentre outros. Mas vale o exercício. Dê uma olhada na lista e indique quais os nomes que você mudaria (ou até se mudaria todos). O maior deles todos, pra mim, foi o pai da psicanálise, Sigmund Freud (na montagem acima, em várias fases de sua vida), que atravessou toda a epistemologia do século XX, colocando, inclusive, a própria ideia de "epistemologia" em crise. Foi o maior de todos. Mas exercite suas discordâncias.

Abraços e beijos.

A Lista:

1 - Sigmund Freud - psicanálise

2 - Albert Einstein - física

3 - Fernando Pessoa - poesia

4 - Salvador Dali - pintura

5 - Jacques Lacan - psicanálise

6 - Fidel Castro - política

7 - Pablo Picasso - pintura

8 - Alfred Hitchcock - cinema

9 - João Guimarães Rosa - literatura

10 - Luciano Pavarotti - música

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Chega de gente escrota, pelo menos por enquanto


Nos últimos dias, muitos crápulas passaram por aqui, citados direta ou indiretamente. Portanto, vamos tornar o recinto um pouco mais leve (e inteligente). Aí vão duas pérolas do mestre Mario Quintana, sobre outro grande nome, William Shakespeare (e tem gente que ainda prefere o outro William, o Vaquinha de presépio). Deliciem-se:


"Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões".


"Essa mania de ler sobre autores fez com que, no último centenário de Shakespeare, se travasse entre uma professorinha do interior e este escriba o seguinte diálogo:
Que devo ler para conhecer Shakespeare?
- Shakespeare".

Mais uma das vacas peladas...


A última do Jornal da Globo foi noticiar, hoje, números de "redução" da violência no Rio de Janeiro como uma vitória da ação do governo do Sérgio Cabral. Cabralzinho e o tal do Beltrame, secretário de segurança, foram entrevistados e reiteraram que não recuarão, como querem "os bandidos". O governador enfatizou: "Estamos numa guerra!".

Trata-se de mais um factóide, que, para se transformar em eco, tem o auxílio da omissão da rede globo, que tem afinidade ideológica clara com as políticas avessas à prevenção, tanto do governo do Estado quanto da prefeitura.

Esse Sérgio Cabral é outro pulha, que não engana quem pensa um pouquinho. Durante evento de campanha (foto), no Tijuca Tênis Clube, em 2006, Cabralzinho se desmanchou em elogios ao então candidato a deputado Álvaro Lins. Disse ele: “Ter na Assembléia Legislativa um deputado com a inteligência, a vibração, a energia, o caráter de Álvaro Lins para mim é fundamental como governador do estado do Rio de Janeiro. Fundamental, Álvaro. Fundamental” (negrito meu).

Dois anos depois, mais precisamente no dia 29 de maio de 2008, Álvaro Lins acabou sendo preso, acusado por crimes como facilitação de contrabando, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha armada. Diga-me com quem andas...

A foto acima, inclusive, quase sobe o vômito, de tanta coisa nojenta junta. Da esquerda para a direita, a corja reunida: Cabral, Francisco Dornelles, Álvaro Lins e Marcelo Itagiba. Todos figuras que ilustram o que há de mais podre e retrógrado na política do Rio de Janeiro.

No que vale reiterar: a posição do Cabral é essa: policial tem que matar bandido. O problema é que não estamos mais no passado, quando ainda havia uma fronteira entre os dois grupos. O poder público tá cheio de bandido, vigaristas e canalhas, que utilizam a tal da 'máquina' para obter lucro e mais força e influência.

Entrevistado, o tal do Beltrame respondeu: "Existem duas saídas: partir pra cima dos bandidos ou ficar parados. Não vamos parar"... Na cabeça de lombriga dele, só existem essas duas patéticas opções. Investimento em educação, que é bom, nada... E vamos continuar aturando esses imbecis iletrados intelectualmente e desonestos, que não fazem o que tem que ser feito: resolver o problema na raíz, e não na ponta final, dando murro em ponta de faca.

Continuem votando nos Eduardo Paes da vida... A bandidagem agradece...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Cidades grandes, pensamentos pequenos ou "Mais um pouco sobre a mitologia jornalística"...


Um dos principais mitos que surgiram com a tal "Revolução Industrial" foi o da 'cidade grande' como referência de evolução no plano social. Com a necessidade de aumentar os lucros, os capitalistas importaram gente das cidades do campo, para aumentar tanto a produção, quanto o consumo.

Entretanto, como bem mostra o filósofo Karl Marx, o capitalismo vive às turras com suas contradições internas. Mas a idéia distorcida surge bem antes, quando o filósofo Francis Bacon decidiu, no século XVII, que o "progresso" era uma coisa boa e fundamental. A própria idéia de Modernidade tem também esse otimismo impregnado em suas veias.

Esse intróito é para refletir duas notícias do 'Jornal da Globo' de agora há pouco, que assisti depois de longo tempo, sempre me divertindo com as caras e bocas da caveira William Vaca e da patricinha Cristiane Pelada, esforçando-se para alimentarem a cara das notícias que veiculam com uma importância que elas de fato não têm. Uma das notícias mostrou um ataque de vândalos ao bairro do Morumbi, em São Paulo, que foi rechaçado pela tropa de elite da polícia paulista. E a segunda, informava que este mês o número de desempregados na China chegou a 20 milhões, segundo fontes oficiais, com a ressalva de que o contingente poderia chegar a 40 milhões, mesmo número da população inteira da Argentina. Ainda segundo a reportagem, muitos desses chineses estariam voltando para o campo, diante da falta de emprego nos centros.

Como a reportagem se limita a sua própria mediocridade, tentemos ir além. A arquitetura conjuntural das grandes cidades é clara a quem observa com atenção: número grande de pobres, que ficam responsáveis pelo serviço "podre" da cidade, que é o das obras imobiliárias, coleta de lixo, trabalhos de segurança e risco etc. E um número reduzido de ricos e quase ricos, que usufrui das patotas e das condições econômicas e contextuais de berço, para se perpetuar no poder de ação. Em outras palavras, podemos traduzir isso como 'uma bomba relógio em constante contagem regressiva'.

Milhões de pessoas são incitadas e expremer-se em pedaços geográficos desproporcionais, criando cenários claramente implosivos. E isso chegou à China, que possuía população predominantemente rural, mas migrou para o estilo de vida norte-americano. Já tem gente, por lá, falando em caos social, como colocou a reportagem.

No caso do Brasil, junte-se a isso um sistema educacional completamente sucateado pelos governos que tivemos desde o fim da ditadura militar e início da ditadura do capital, e temos o estopim da barbárie: carros sendo queimados na rua, pessoas sendo baleadas, depredação de estabelecimentos comerciais... e dois apresentadores esforçando-se para frisar a culpa 'única e exclusiva' dos vândalos da periferia.

O modelo de cidade grande não funciona em lugar nenhum. Gera necessidade de rotatividade incessante de consumo, o que a própria demanda das pessoas não sustenta. E acaba construindo diversos tipos de "cânceres sociais", que vão minando as possibilidades de convívio e criando insegurança galopante e interminável.

Enquanto não houver um redirecionamento geopolítico no terceiro mundo, que altere significativamente a desproporcionalidade entre "cidade grande" e campo, continuaremos caminhando para a selvageria consentida.

Enquanto isso, o mesmo 'Jornal da Globo' anuncia que já há movimentação visando as próximas eleições presidenciais, no ano que vem. De um lado estão os "governistas", capitaneados pelos petistas, e de outro a oposição, liderada... pelos tucanos (!!!!????). Ora, vão ver se eu tô na esquina... O PSDB não é oposição nem aqui, nem na China. Os projetos são exatamente os mesmos que os do PT. Não há programa para educação, nem para saúde e muito menos para habitação. O barato dos dois é sustentar as taxas que o mercado tanto adora alardear pela boca dos Willians Vacas da vida: taxa Selic, juros, risco-Brasil, e outras baboseiras...

Portanto, é bom começarmos a pensar direitinho nessa eleição de 2010, e no papel da mídia na manutenção dos velhos mitos sacanas, como esse da "oposição tucana". O projeto continua sendo transformar o Brasil em meia-dúzia de Miamis cercadas por centenas de Haitis por todos lados.

É como diz uma divertida comunidade do orkut: "PT e PSDB, nunca mais!" E, completo eu: 'Jornal da Globo', só com os antídotos bem a postos...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Marionetes de si mesmas


Muitas vezes, a descoberta freudiana de que a sexualidade está presente em cada ato humano é mal interpretada, seja por inocência, seja por cinismo. Inocência, quando se lê a questão do sexo como mera exposição do corpo ou penetração pura e simples (dada a miríade contemporânea, é sempre bom esclarecer: penetração do homem na mulher...). E cinismo, quando se saca que a coisa está relacionada com a noção de "desejo", mas, mesmo assim, se dissimula o mito de uma liberdade bacana, total e interessante, sem o devido cuidado analítico.

Em outras palavras, tenho ouvido, lido e visto muito pessoas dizendo que esse mundo de hoje, pautado pelas aparências sexualizadas ao extremo, estaria em consonância com o que o ser humano é, e que isso, por si só, legitimaria a continuação da coisa como está.

O fato é que é uma leitura rala da coisa toda. Se a sexualidade é constitutiva do ser humano, como bem sacou o Freud, o mesmo se pode dizer do embate interno da mente, entre o superego, o inconsciente e o ego. O que mostra que a sexualidade não é algo que exista de forma independente no ser humano. Há, sem dúvida, uma série de conflitos na relação das partes desta estrutura, que não podem ser negligenciados.

Isso tudo prefacia o seguinte: quando se critica a guerra, a violência e outros símbolos afins, é o sintoma masculino que se põe em xeque, no sentido de se instaurar uma discussão social, para além do mero "ser homem". O que estabelece uma diferenciação entre "ser homem" e "ser homem em sociedade". Por mais que as guerras e a violência continuem, o fato é que a questão é por demais debatida.

Entretanto, o mesmo não se sente em relação à mulher, no mundo de hoje. Nos últimos dias, tenho ouvido e visto algumas coisas que me fizeram pensar nisso. O fato é que quando se permite que a mulher seja "apenas mulher" e não "mulher em sociedade", aparecem os sintomas mais bizarros... Valor demasiado à aparência física, fofoca, intriga, preconceito brutal, valor exacerbado dado ao dinheiro.. e um cinismo bem sacana, que consta de expressões lugares-comuns, como "o que é bonito é pra se mostrar" e outras baboseiras.

Tenho visto um monte de mãe que coloca roupa de piranha na filha de cinco, seis anos. Antigamente, a menina pequena adorava imitar a mãe no espelho. A diferença é que o referente de vestuário era a mulher elegante. Hoje, é a mulher safada. Além disso, jamais a criança ía pra rua vestida como adulta. Hoje, virou moda essa coisa ridícula.

Dificilmente o homem consegue repertório pra criticar isso, porque a tal sexualidade aflorada cochicha em seu ouvido: "calma, rapaz.. não pode criticar mulher, senão vão achar que tu é viado...". O problema, como se vê, é que a crítica é sempre mal direcionada. Criticar mulher de maneira nenhuma significa que o cara não goste "da fruta". Pelo contrário... criticar significa justamente que não se vê a mulher apenas como um objeto sexual (coisa que a maioria das próprias mulheres adora, nos dias de hoje). Significa que se propõe que uma mulher pode pensar coisas para além do salão de cabeleireiro, do espelho e do bolso dos homens...

Esse, no meu entendimento, parece ser um paradigma contemporâneo: Conseguirão as mulheres escapar de suas próprias infantilidades narcísicas, e partir para um posicionamento mais maduro em termos sociais? No caso dos homens, conseguirão suplantar suas igualmente infantis neuroses de identificação distorcidas, que os faz quererem ser reconhecidos apenas como bichos que gostam de fêmeas?... Sinceramente.. as perspectivas não são das melhores...