"O Duplo Segredo"
(René Magritte, 1927)
Numa resenha feita sobre o novo livro de contos do escritor Marcelo Moutinho, chamado 'A palavra ausente" (bonito nome), a professora e escritora Giovanna Dealtry termina o texto com uma pequena, mas importante, reflexão sobre a potência utópica da literatura. Segue:
"A literatura surge aqui em sua potência utópica. Incapaz de preencher a falta, plena em provocar novos sentidos para a paisagem ordinária de nossas vidas".
Poucas palavras, mas muita coisa envolvida. Como não pensar no aporte lacaniano, quando se fala da falta? O que falta é o Real, impossível para esse ser que navega no terreno pantanoso da linguagem, do simbólico e do imaginário.
Acho muito engraçado quando um inocente qualquer felicita o fim das utopias. Ora, cada dia seguinte projetado é uma utopia e isso não é possível ignorar. Os grandes discursos sociais estão em crise, sem dúvida. Mas as ambiguidades da vida jamais cessarão.
E é aí que entra a literatura, na minha reflexão em cima do trecho da Giovanna. A literatura tem potência utópica porque não se movimenta com o propósito de fechar a falta. O que ela faz é bombear a falta, para que ela não se esconda em nenhuma cortina de fumaça dessas que a história não cansa de fantasiar.
E aí, os reducionistas pensam logo, "pois é, ela mantém a liberdade que a tal democracia conseguiu". Ledo engano. Literatura não tem nada a ver com democracia. Muito pelo contrário. Na democracia, qualquer coisa serve. Na literatura, só aquilo que proteja da ilusão de preenchimento. Talvez por isso ela seja efetivamente utópica, como a arte de maneira geral, hoje. Porque ela mantém, atenta, a presença da falta, mesmo e apesar dos inúmeros espelhinhos das massas, narcisismo fermentado pela propaganda e outras ilusões...



3 comentários:
Lembrei-me de um dizer da Eliane Brum, num desses textos que eu babo, que ela escreve pra Época...
"A literatura é isso na minha vida. A possibilidade de transformar a vida em palavra, mesmo sabendo que a vida mora além das palavras, que uma parte essencial da vida será para sempre indizível. Mas a literatura é essa busca pelo impossível que dá sentido à minha vida. E, portanto, a literatura é uma busca que só faz sentido na medida em que não faz sentido algum."
Essa parte essencial da vida está realmente além das palavras, Aninha. E é por isso que a literatura moderna caminhou a passos largos na direção da linguagem provisória, ensaística, que exercita o oculto. O que segue, na verdade, a lógica de toda a arte de ponta da modernidade. É por aí mesmo..
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