quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A literatura enquanto falta

"O Duplo Segredo"
(René Magritte, 1927)


Numa resenha feita sobre o novo livro de contos do escritor Marcelo Moutinho, chamado 'A palavra ausente" (bonito nome), a professora e escritora Giovanna Dealtry termina o texto com uma pequena, mas importante, reflexão sobre a potência utópica da literatura. Segue:

"A literatura surge aqui em sua potência utópica. Incapaz de preencher a falta, plena em provocar novos sentidos para a paisagem ordinária de nossas vidas".

Poucas palavras, mas muita coisa envolvida. Como não pensar no aporte lacaniano, quando se fala da falta? O que falta é o Real, impossível para esse ser que navega no terreno pantanoso da linguagem, do simbólico e do imaginário.

Acho muito engraçado quando um inocente qualquer felicita o fim das utopias. Ora, cada dia seguinte projetado é uma utopia e isso não é possível ignorar. Os grandes discursos sociais estão em crise, sem dúvida. Mas as ambiguidades da vida jamais cessarão.

E é aí que entra a literatura, na minha reflexão em cima do trecho da Giovanna. A literatura tem potência utópica porque não se movimenta com o propósito de fechar a falta. O que ela faz é bombear a falta, para que ela não se esconda em nenhuma cortina de fumaça dessas que a história não cansa de fantasiar.

E aí, os reducionistas pensam logo, "pois é, ela mantém a liberdade que a tal democracia conseguiu". Ledo engano. Literatura não tem nada a ver com democracia. Muito pelo contrário. Na democracia, qualquer coisa serve. Na literatura, só aquilo que proteja da ilusão de preenchimento. Talvez por isso ela seja efetivamente utópica, como a arte de maneira geral, hoje. Porque ela mantém, atenta, a presença da falta, mesmo e apesar dos inúmeros espelhinhos das massas, narcisismo fermentado pela propaganda e outras ilusões...

3 comentários:

Ana SS disse...

Lembrei-me de um dizer da Eliane Brum, num desses textos que eu babo, que ela escreve pra Época...

"A literatura é isso na minha vida. A possibilidade de transformar a vida em palavra, mesmo sabendo que a vida mora além das palavras, que uma parte essencial da vida será para sempre indizível. Mas a literatura é essa busca pelo impossível que dá sentido à minha vida. E, portanto, a literatura é uma busca que só faz sentido na medida em que não faz sentido algum."

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Essa parte essencial da vida está realmente além das palavras, Aninha. E é por isso que a literatura moderna caminhou a passos largos na direção da linguagem provisória, ensaística, que exercita o oculto. O que segue, na verdade, a lógica de toda a arte de ponta da modernidade. É por aí mesmo..

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.