quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Professor, qual é o teu trabalho?
Ao contrário do que pensam os pragmáticos, o que chamamos de "trabalho" não está ligado apenas a produção, salário e consumo. Ele possui diversas outras nuances, que devem ser consideradas.
No caso dos professores, por exemplo, um detalhe é fundamental para se perceber isso. Estou falando do período das férias.
Quando uma pessoa me pergunta o que faço, digo que sou escritor e professor, nessa ordem, porque minha atividade intelectual mais frequente é a da escrita, seguida pela da sala de aula. E então, para descontrair, digo que o salário é baixo, mas as férias compensam, porque temos dois meses e meio de férias todo ano.
Geralmente, no momento seguinte as pessoas mandam logo: "Pô, bom isso.. dá pra descansar bem". E então hoje pensei sobre isso.
A verdade é que temos férias maiores por dois motivos: primeiro, porque os alunos também entram de férias. Logo, não há a necessidade de estar no local de trabalho, se o que fazemos lá é dar aula. E segundo, porque a profissão de professor demanda um tempo extra de trabalho que é realizado em casa, como correção de provas e de trabalhos e a preparação das aulas, que demanda pesquisa e atualização constante. Esse extra é inclusive contabilizado no cálculo do salário (pra você ver como é pequeno, porque mesmo assim fica pouco), ou seja, ao invés de se multiplicar os tempos semanais por 4, multiplicamos por 4,5, esse meio por cento representando, então, o extra do trabalho exterior à sala de aula.
Pois bem. Voltando ao comentário do descanso, quando me dizem isso, que as férias servem pra descansar, esclareço que, no meu caso, acaba sendo um período de maior atualização, porque, se consigo ler uma média de 4 livros num mês de trabalho intenso, esse número dobe pra 8, até mesmo 10, num mês de férias. E então as pessoas acabam perguntando se eu não descanso.
Ora... descanso muito e talvez até mais do que muita gente. A diferença é que cheguei ao entendimento de que a ideia de que devemos "apenas descansar" nas férias é duplamente falsa, por dois motivos. Primeiro, a cabeça da gente nunca descansa. Quando você acha que tá vendo um filme só pra se divertir, o seu imaginário tá ali absorvendo um monte de coisas, de uma forma sempre intensa. Reflexão e diversão não são diferentes, nesse sentido. A única diferença em jogo aí é, ou se alienar, ou pensar junto com as coisas que chegam pra você. E segundo porque o período de férias prolongadas deve servir, aí numa perspectiva moral e ética, para que os professores se atualizem de uma forma mais intensa, por causa do tempo extra que ganham.
O resultado é, como se pode perceber, o contrário. A maioria dos professores simplesmente abandona os estudos e as atualizações nas férias, se entregando ao "nobre" exercício da preguiça, para então só voltar a pensar a respeito das coisas na volta às aulas. E mesmo assim, a maioria se restringe à sua disciplina específica, se limitando a ser não mais que um mero especialista, que não consegue enxergar as coisas de forma ampla e interdisciplinar. Em suma: produzem aulas, ganham salários e consomem como pessoas comuns, mas não usam o tempo que a legislação fornece para se aprofundar mais que no tempo normal..
O trabalho crítico não acaba quando você sai da sala de aula, ou mesmo quando desliga o computador depois de preparar uma aula. Ele está em cada esquina, em cada diálogo que você vive, em cada livro que você lê - ou deixa de ler. E, na verdade, isso deveria servir para todos (já que todos são direta ou indiretamente influenciados pela educação). Mas principalmente para alguém que escolhe a imensa responsabilidade de ser um mestre. Talvez esse seja um dos motivos da educação tão fraca que temos no Brasil atual...
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