domingo, 22 de janeiro de 2012
Tem idade pra ler Machado?
Estava aqui lendo uma matéria da última revista "Literatura - conhecimento prático" (acho esse nome horrível, mas enfim), que minha querida amiga Neide me emprestou outro dia. E há um detalhe que quero comentar.
Leo Ricino assina um texto sobre o conto 'Teoria do Medalhão', do Machado de Assis, que aliás é uma bela história, inteligente que só ela. Em resumo, para quem não conhece, trata-se da história de um pai que tenta ensinar o filho a ser um boçal passivo. Para o tal pai, o objetivo principal da vida deveria ser evitar ao máximo os conflitos, para que a vida passasse sem maiores infortúnios. Claro, quem conhece a estética da obra machadiana sabe que a grande sacada da coisa é que se trata de uma ironia. O Machado encena o que quer criticar, através da ficção. Para quem se interessar, esse conto está em um livrinho de contos dele chamado "Papéis Avulsos", que tem uma edição de bolso bem barata, da editora Martin Claret (não sai por mais de 15 reais).
Pois bem. Depois de analisar algumas metáforas do texto e louvar a já conhecida capacidade intelectual do Machado, Leo Ricino termina o seu texto com uma afirmação que no meu entender é extremamente ingênua, e é sobre isso que quero falar. Diz ele:
"Caro professor do ensino médio, 'obrigar' alunos imaturos pela própria idade, 16 a 17 anos, e pela ausência de repertório adequado para essa tarefa, a ler clássicos da nossa literatura, como 'Dom Casmurro' e 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', de Machado de Assis, e 'Grande Sertão: Veredas', de Guimarães Rosa, ou ainda 'São Bernardo' e 'Angústia', de Graciliano Ramos, como fazem a Fuvest e outros preparadores de vestibulares, até mesmo os próprios Institutos de Ensino Superior, é criar ódio a esses grandes mestres. Creio que o ideal é trabalhar contos machadianos e de outros contistas, além de crônicas" (p. 8).
Há dois problemas na fala do Leo. Um, a gente percebe quando saca um pouco de psicologia. Considerar que o repertório avançado é suficiente para que se 'entenda' uma obra de complexidade é não 'entender' que a obra só é complexa porque age em terrenos do nosso repertório que nem nós mesmos percebemos de forma direta. Em outras palavras: ler textos complexos é bom em qualquer idade, porque eles não agem só na nossa capacidade de elaboração intelectiva; agem também, e principalmente, na nossa forma de ver o mundo.
Se uma criança lê um romance de um escritor como o Machado de Assis, não se deve esperar que ela entenda as sutilezas do texto e a estética complexa da obra. Com certeza dessa parte ela só vai apreender dados básicos. O mais importante é que ela entre em contato sensível com o texto, porque daí podem decorrer influências indiretas importantíssimas de outras ordens, como por exemplo o aumento da riqueza linguística e a introjeção de efeitos éticos fundamentais, que não aparecem na superfície, mas que navegam de forma intermitente na alma da pessoa.
O segundo problema está na questão do tal "ódio". Eu não acho que os jovens odeiem escritores como Machado e Guimarães Rosa simplesmente porque sejam muito novos. Na lata: eles odeiam esses caras porque geralmente os professores odeiam também. Quem lê a sério Machado e Clarice? Muito pouca gente.
E outro detalhe me parece fundamental para essa reflexão: estamos numa época que louva o saber dos jovens como algo que deve ser preponderante para eles próprios. Ora, se o professor acha que o que deve orientar a aula e o caminhar da disciplina é o repertório do aluno, o trabalho com os textos complexos vai ser sempre mínimo. E então os alunos começam a perceber que nem os professores valorizam a complexidade. O resultado disso é óbvio: por influência, eles acabam deletando os tais textos de seu horizonte. Basta ver o nível de leitura de hoje pra perceber isso.
Quem lê Machado dez vezes na vida, vai ler as dez vezes de uma forma diferente, porque cada leitura te leva a novos detalhes e a novas articulações, morais e intelectivas. Portanto, discordo do Leo. Machado não tem idade. Faz bem sempre.
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4 comentários:
Por um lado, muito embora se diga do jovem, penso também na questão: muitas vezes falta uma contextualização, seja a obra de Machado de Assis ou Guimarães Rosa... Seja qual for o autor, uma vez que não se cuide de fazer um voltar à época da escrita, as motivações do escritor, suscitar o gosto através do contar qual seria os desejos do autor, ou mesmo como foi viver o que escreveu... Aí eu vou dizer que concordo com você, primeiramente quem tem que conhecer e de fato gostar da obra e depois, com a sua própria motivação, passando para o aluno uma espécie de encantamento, despertando neste a vontade... Para que ele possa buscar a resposta na leitura, deveria ser o professor.
Por outro lado, penso que isso deveria ser uma espécie de cadeia... Se os pais, desde cedo incutissem de maneira agradável à criança o hábito da leitura, naturalmente fosse qual fosse o gênero literário tenho minhas duvidasse o jovem agiria assim, com dificuldade de ler tal gênero.
Um exemplo disso é uma menina Sabrina que ganhou dos avós uma coleção de historinhas e ela as interpreta a partir do que a avó e as tias, mais do que a mãe, contam e despertam nela a curiosidade e ela “questiona”... Pergunto e respondo... Essa criança de 4 anos amanhã gostará de ler Machado de Assis?... Provavelmente!
" O hábito faz o monge"...
Abç
Luiza Scardua
Perfeito, Luiza. Os professores precisam ler muito mais do que leem; e os pais idem. Eu, por exemplo, só me tornei um leitor assíduo porque tive influências na família. O problema, ao meu ver, é que existem duas bobagens que viraram moda nos dias de hoje.
Uma é a tal "diversão". A maioria só quer saber de ler pra "se divertir". Não percebem (porque não conhecem os meandros da palavra "prazer") que isso só faz rebaixar a possibilidade de se perceber uma obra de forma realmente rica.
E a outra é que, como todo mundo se acha 'o tal' hoje em dia, poucos pesquisam de forma realmente rigorosa a História, para aprender quem são os melhores. A tal "liberdade de expressão" confunde os incautos, que ficam achando que só porque dizem que a liberdade é a melhor coisa que há (coisa que também é mentira, mas enfim, não vem ao caso agora..), isso justifica a publicação de qualquer porcaria.
E acho fundamental a questão da contextualização que você coloca. Não dá pra entender as ironias do Machado sem saber como era a sociedade brasileira da segunda metade do século XIX. A pessoa acaba perdendo muita coisa se acha que ler um grande autor é apenas ler os seus textos..
Abraços
Sou estudante de Letras e faço iniciação científica "O texto literário em sala de aula" e o que tenho notado é que a maiorias dos professores não gostam de ler e só leram as obras indicadas uma única vez e superficialmente ou leram resumos.
Os professores já vem com o ranço e o descaso no processo educacional em que os seus professores solicitavam a leitura e aplicavam um prova ou seminário e não tiveram uma interação e aprofundamento no estudo e na leitura da obra.
Os futuros professores chegam aos cursos superiores de Letras achando que lá aprenderam o prazer em ler e mais que isso aprenderam Literatura, infelizmente, o que se tem novamente é pouco contato com a leitura das obras porque se dá preferência a crítica canônica e literária e monólogos que somente o professor tenta mediar. Sabe-se efetivamente que os alunos não leram as obras por falta de tempo, interesse, estímulo ou somente leram o texto crítico e aceitam a opinião imposta.
O círculo vicioso só se prolonga e quase nada se faz efetivamente.
Oi anônimo. Não sei o seu nome, mas concordo com você.
A verdade é que tem uma coisa que está acabando e com ela as diferenças entre as áreas: trata-se da 'vocação'. O sujeito acaba pensando, por um motivo ou outro, que tem que estudar uma área qualquer, mas não analisa se é realmente aquilo que ele quer. E então acaba virando um pseudo-professor, um pseudo-pesquisador, um pseudo-crítico.
Desculpe se estiver errado, mas acho que você quis dizer "aprenderão" (ao invés de "aprenderam") quando fala dos futuros professores professores que chegam no curso de Letras. Se for isso mesmo, concordo contigo também nisso. Eu sou pesquisador autônomo, porque não consegui entrar nos mestrados do Rio de Janeiro, por uma série de motivos (um deles a panelada que isso virou e que me enoja). E além de ser pesquisador, sou poeta, ensaísta, contista e filósofo. E uma das coisas que eu mais repito é que não se pode escolher entre ficção, poesia, teoria ou literatura crítica. É preciso ler tudo isso, dos clássicos aos atuais, passando especialmente pelas linhas mais críticas. Sem esse rigor, é um monte de gente limitada ensinando e um monte de gente limitada achando que aprende..
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