sexta-feira, 6 de julho de 2012

O marketing da loucura




Outro dia terminei de assistir a esse documentário bem interessante, que fala sobre um tema bem importante: o avanço da influência do discurso psiquiátrico no mundo contemporâneo, articulado com o marketing e a retórica de mercado. Se chama "marketing da loucura".

Ano passado, li alguns livros a esse respeito. Hoje, está virando moda catalogar cada vez mais comportamentos psíquicos como se fossem doenças. O cara espirra torto, pronto: já é portador de uma "espirrose oblíqua", ou algo do tipo. O passo seguinte é sempre criar medicamentos tarja-preta, que passam a ser vendidos como soluções milagrosas para o problema, sem a devida pesquisa e com um excesso de investimento em marketing que mostra claramente que o principal objetivo é ganhar dinheiro e não resolver os problemas.

O documentário é muito bom. Só faço uma ressalva: ele é excessivamente científico. Ou seja, ataca o excesso de psiquiatria com uma abordagem bastante ligada à medicina. Na verdade, isso não afeta muito a qualidade do vídeo. Mas deixa de aprofundar as contribuições da psicanálise no debate, o que acho fundamental para enriquecer a análise. Nesse sentido, vale portanto citar outro vídeo, que traz uma entrevista com a psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco, e que fica como adendo ao vídeo.



2 comentários:

Bernardo Caldeira disse...

O vídeo da roudinnesco me chamou a atenção desde o início. ela fala que a ciência não tem uma 'concepção filos[ófica do homem'. Pergunto-lhe, lembrando da palestra do MD magno: a psicanálise tem uma concepção filosófica do homem? Ela tem uma concepção do homem? Lacan sempre disse que psicanálise não é humanismo e condenava weltanschauungs. ele próprio dizia que "o sujeito é um aparelho", ou seja, não é uma concepção de homem. E não é à toa que o sujeito da psicanálise é o sujeito da ciência, ou seja, não é um humano ou qualquer coisa que o valha. Magno diz que o Haver é pura informação, e ele inclusive odeia o termo sujeito, porque isso dá exatamente essa weltanschauung sobre 'o que é o ser humano' (por isso ele fala em idioformação: é só mais uma das formações do Haver) Deve a psicanálise ficar concebendo (dando à luz) o que seja o humano?

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Bernardo, do ponto de vista do Magno, com o qual eu concordo, a psicanálise não tem mesmo uma concepção filosófica do homem. A psicanálise seria algo que eu traduzo como um salto da epistemologia em direção aos seus próprios tropeços. Não estou pensando aqui na epistemologia como campo interno da filosofia, como geralmente ela é tratada. Penso nela como ilustração da busca do conhecimento pelas suas origens formais e históricas. A psicanálise muda tudo, inclusive a própria ideia de uma "história" como se tinha anteriormente, porque ela mostra que o tempo não segue uma direção linear, muito pelo contrário e pelo avesso.

Eu acho que um dos principais efeitos que ela traz é o de nos fazer sacar que o chamado "sujeito" é ambíguo, ou seja, ele é sujeito DO verbo ao mesmo tempo em que é sujeito AO verbo. Isso é uma mudança radical, que, é preciso considerar, impregna o pensamento e a obra de alguns filósofos, notadamente o Adorno e mesmo o Deleuze (apesar de eu achar que de fato a leitura que eles fazem da psicanálise não é tão profunda como ela merece).

Eu acho que a Roudinesco é muito ligada à filosofia como campo de debates, o que acho até justo. Mas ela não pescou a mudança fundamental de estrutura que se dá. Eu não acho que filosofia seja a mesma coisa que ciência. A não ser que pensemos na ciência do Einstein, da relatividade e da mecânica quântica. Essa sim, é, digamos, "filosófica". Mas o resto é muito newtoniano ainda, pra merecer esse "diploma". E também não acho que a psicanálise fale pelo mesmo registro da filosofia. A psicanálise me parece algo além (ou 'aquém'), ainda que se deva colocá-la sempre em xeque, para testar sua legitimidade. Coisa que o Magno, no meu entender, faz muito bem. Eu acho também, inclusive, que o Magno parece ser algo desvinculado da própria psicanálise como epistemologia (que é a forma como se trata dela de maneira geral nas universidades) e mesmo como 'campo específico'. Acho que ele aponta para uma sutileza importante, ou seja, para os limites do próprio campo enquanto ele não coloca em movimento os seus próprios dogmas.

Acho que é isso. Talvez falte coisas, mas vamos compondo durante os debates.

Abraços